Vidro ultrafino

Entenda a polêmica do vidro dobrável do Samsung Galaxy Z Flip. E como é feito o aparelho

Segundo pesquisadores, porém, a tecnologia de telas de vidro dobráveis ainda estão nos estágios iniciais do desenvolvimento

(Reprodução)

SÃO PAULO – Em seu grande evento de lançamentos deste ano, a Samsung mostrou ao mundo seu mais novo smartphone, o Galaxy Z Flip, um modelo que, segundo a própria companhia, chegava para revolucionar o mercado de aparelhos móveis e apresentar ao mundo uma nova tecnologia: uma tela de vidro dobrável.

“Fizemos o impossível: criamos vidro ultrafino que se dobra”, afirmou a empresa na apresentação. Mas em pouco tempo os consumidores descobririam que driblar leis fundamentais da física não é tão fácil assim.

Após o lançamento do celular, diversos especialistas testaram a tela de vidro do Z Flip e, graças à facilidade com que o material arranhava, duvidaram que realmente fosse feita de vidro. A princípio, alguns desses especialistas sugeriram que o vidro era, na verdade, um polímero.

PUBLICIDADE

Mas a Samsung não mentiu sobre a principal inovação do seu novo produto: o Galaxy Z Flip é um telefone dobrável com uma tela realmente de vidro – fabricado pela Schott, uma empresa alemã especializada em vidros especiais.

Para entender como esse vidro ultrafino é feito e como é aplicado aos celulares da Samsung, o The Verge, portal americano de notícias sobre tecnologia, conversou com engenheiros de produção e de materiais, além de funcionários da Schott e trouxe as informações sobre a produção e a ciência por trás dos vidros dobráveis ultrafinos.

A ciência por trás da tecnologia

“Todos os materiais muito rígidos que conhecemos podem ser dobrados até certo ponto”, diz o Dr. Mathias Mydlak, químico chefe da Schott, que agora lidera o desenvolvimento de negócios do vidro ultrafino da empresa.

“Se você pensa em madeira, uma placa 2×4 não pode ser dobrada, mas se você esculpir essa placa em um pedaço muito, mas muito fino, essa placa poderá ser dobrada. E o mesmo vale para muitos materiais conhecidos, inclusive o vidro”, afirmou Mydlak.

Quando você dobra um material, comete o ato de esticá-lo para além de sua capacidade de flexibilidade e da sua dobra natural. Até o vidro tem algum grau de flexibilidade.

“Você pode imaginar uma mola metálica entre cada dois átomos e a mola se alongando quando os dois átomos se separam”, diz Erkka Frankberg, pesquisador da Universidade de Tampere, na Finlândia, que estuda formas não convencionais de aplicação do vidro. “Mas se você usar uma folha de vidro mais fina, estará esticando menos material pelo mesmo espaço, dobrando menos camadas e estendendo menos ligações químicas”.

O pesquisador, porém, pondera que só é possível esticar as ligações químicas de um material antes que ele se quebre, um conceito conhecido na física como resistência à tração.

“Isso coloca menos pressão sobre o vidro, permitindo dobrá-lo com mais força antes que ele se quebre. Afinar o vidro é um dos ‘dois truques principais’ para fazê-lo dobrar”, diz Juejun Hu, professor associado de ciência dos materiais do Massachusetts Institute of Technology (MIT). O pesquisador explicou que os estudantes aprendem que a tensão de tração varia linearmente com a espessura ainda nos primeiros períodos do curso.

Quer conquistar sua independência financeira? Invista. Abra sua conta na XP – é grátis

“Quando o vidro atinge cerca de cem mícrons de espessura – algo semelhante à espessura de um cabelo humano, ou cerca de 0,01 milímetro – é quando está apto para ser utilizado em aparelhos dobráveis ​​básicos”, afirmou Hu.

A Samsung diz que o Z Flip usa um vidro de 30 mícrons de espessura. A Schott afirma que já possível produzir vidros com menos de 10 mícrons de espessura.

O vidro é afinado após diversos banhos químicos em produtos especiais, além de muita passagens em uma máquina específica para isso.

Pequenos arranhões podem se tornar grandes problemas

Uma espessura muito fina, porém, não garante que o vidro possa se dobrar sem sofrer danos permanentes.

O segundo “truque principal” do vidro dobrável é fortalecê-lo contra imperfeições e mantê-lo em perfeito estado de conservação, já que falhas catastróficas podem ocorrer com a tela quando o vidro é danificado. Uma minúscula bolha de ar, partículas de sujeira ou pequenos arranhões durante o processo de fabricação ou manuseio podem ser suficientes para destruir um pedaço de vidro dobrável.

PUBLICIDADE

E, à medida que seu copo fica mais fino – fino o suficiente para dobrar – um arranhão se torna ainda mais preocupante, já que as tensões se concentram em partes defeituosas como um arranhão.

Enquanto Mydlak diz que um pedaço de vidro de Schott “pode ​​durar para sempre” em condições controladas, admite que um simples arranhão pode mudar isso.

“Se um pedaço de vidro com um arranhão grande for dobrado, da forma com que atinja uma tensão especifica, concentrada no arranhão, esse arranhão se propagará basicamente com a velocidade do som e percorrerá catastroficamente todo o restante da tela”, explica Frankberg.

O polêmico protetor plástico

Para os especialistas, é por essa fragilidade que a empresa de tecnologia optou por inserir um elemento polêmico à tela: uma camada plástica, que serviria como escudo para esse vidro sensível.

A Samsung admitiu que a tela de vidro vem com um protetor de tela plástico pré-instalado e deixou claro que tal material não serve para imitar o vidro ou melhorar a dobra do aparelho.

Frankberg, porém, ainda não está convencido.

“Minha opinião sincera como cientista de materiais: eu não compraria esse tipo de telefone nesse estágio, porque o tamanho do zero que você precisa quebrá-lo é muito pequeno”, diz ele, argumentando que um único grão de areia poderia destruir uma tela de vidro dobrável. “Por ser um telefone muito caro, eu daria um passo atrás e veria como a tecnologia atual serve os propósitos do aparelho”.

Segundo o pesquisador, a tecnologia de telas de vidro dobráveis ainda estão nos estágios iniciais do desenvolvimento e ainda precisa passar por muitos testes.

PUBLICIDADE