Diante de imitações e impostos, fabricantes de cristal de Veneza perdem espaço

A falta de crédito, a depressão econômica e os aumentos fiscais provocados pela crise estariam destruindo as tradições seculares da região.

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SÃO PAULO – A vida de Daniele Mazzuccato se tornou tão frágil quanto os famosos candelabros de cristal de Murano que ele fabrica. O fabricante de cristal vendeu o apartamento para manter sua fábrica funcionando e agora dorme no quarto dos fundos da vidraçaria na minúscula ilha de Murano, a menos de dois quilômetros de Veneza, a cidade italiana dos canais. Mazzuccato, 47, que provém de uma família de fabricantes de cristal, disse que a falta de crédito, a depressão econômica e os aumentos fiscais provocados pela crise estão destruindo as tradições seculares da ilha.

“Estamos só esperando a morte”, disse Mazzuccato, cujo pai fabricava cristal e cuja mãe veio de uma longa linhagem de artesãos de Murano, enquanto fumava um cigarro atrás do outro em seu escritório, repleto de faturas e de cinzeiros de cristal.

O artesanato de Murano foi transmitido de geração a geração. Os mestres da fabricação de cristal da ilha eram tão renomados que, no século 17, Luís XIV levou alguns deles para a França, a fim de roubar seus segredos e decorar a Galeria dos Espelhos, do Palácio de Versailles. Os candelabros de cristal de Murano também pendem do teto do Hotel Pera Palace, em Istambul, que já hospedou pessoas como Ernest Hemingway e Alfred Hitchcock e era o último ponto de parada do célebre Expresso do Oriente.

Com o passar dos anos, no entanto, o brilho do cristal de Murano diminuiu, espremido entre o declínio da demanda e as falsificações baratas. Nos últimos 14 anos, a quantidade de pessoas empregadas nas fábricas de fabricação de cristal da ilha despencou 80% para cerca de 400, de acordo com o sindicato FILCTEM-CGIL, que representa os trabalhadores do setor.

Mais recentemente, os astronômicos encargos trabalhistas e custos de energia, somados à dificuldade para obter um crédito em meio à recessão italiana, impossibilitaram que os empreendedores tivessem lucro, disse Mazzuccato. A receita de sua empresa, que era de 3 milhões de euros em 2008, desabou para 740.000 euros (US$ 919.000) no ano passado.

Na década de 1970, a ilha estava repleta de fabricantes de cristal. Isso foi antes de que as imitações da China começassem a inundar o mercado em todo o mundo e antes de que a crise de dívida soberana da Europa afundasse a Itália na recessão mais profunda desde a Segunda Guerra Mundial. Obrigado a manter suas finanças em ordem, o governo tem poucos recursos para distritos industriais moribundos como Murano.

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“Tínhamos isenções de impostos, inclusive 45% de desconto em gás”, disse Fabiano Amadi enquanto seus passos ecoavam pela fábrica semivazia onde ele agora trabalha com uma equipe de seis pessoas. “Agora, pago cerca de 15.000 euros por mês”. O espaço para onde ele se mudou recentemente costumava abrigar 200 pessoas na década de 1980.

A situação piora com o fato de que grande parte do que é vendido hoje em dia como cristal de Murano não é fabricado na ilha. “Cerca de 70% dos cristais vendidos em Veneza não vêm de Murano”, disse Luciano Gambaro, diretor da associação Consorzio Promovetro Murano, que promove os produtos de cristal da ilha e representa mais de 50 artesãos e empresas.

Mazzuccato agora vende quase 90% de seus produtos fora da Europa, mas isso nem sempre é simples. Obter os documentos necessários para exportar pode levar semanas, o que, segundo conta, pode frustrar os clientes e desestimular novas compras.

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Mazzuccato recebeu muitas ofertas para trabalhar no exterior, inclusive na República Tcheca, no Irã, na China e na Áustria, mas recusou. Quando perguntado quando foi a última vez em que pensou em sair do país, ele respondeu sorrindo, “ontem à noite”. Depois, acenando para um amigo que cruzava o canal em um pequeno barco, ele disse: “O que seria de mim sem tudo isto?”.

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