Publicidade
SÃO PAULO – A poucos dias do fim do ano, é possível afirmar que 2007 foi um bom período no que diz respeito à liberação de crédito ao consumidor. Mais prazo, menores (mas ainda altas) taxas de juros, e mais dinheiro à disposição de brasileiros que, com uma renda maior, mais emprego e confiança crescente em uma economia ao menos aparentemente estável, queriam comprar.
A estimativa era que a proporção de crédito liberado em relação ao PIB (Produto Interno Bruto) fosse de 35% até o final do ano. Contudo, após a publicação, pelo Banco Central, da Nota de Política Monetária com dados sobre outubro mostrar que, no décimo mês do ano, a proporção já havia atingido 34%, essa estimativa foi revisada para 36%. Em 2008, portanto, esse total deve atingir 40%, conforme previsão da Acrefi (Associação Nacional das Instituições de Crédito, Financiamento e Investimento).
Carteiras
O cheque especial ainda é a principal linha de financiamento dos brasileiros. De todos os R$ 2,333 bilhões liberados ao dia em outubro, 38% correspondiam a utilização do limite da conta-corrente. Veja:
InfoMorning
Informações, análises e recomendações que valem dinheiro
| Operação | Setembro | Outubro |
| Cheque especial | R$ 886 mi | R$ 887 mi |
| Crédito pessoal | R$ 479 mi | R$ 490 mi |
| Aquisição de veículos | R$ 285 mi | R$ 298 mi |
| Aquisição de outros bens | R$ 76 mi | R$ 77 mi |
| Cartão de crédito | R$ 414 mi | R$ 392 mi |
Fonte: Banco Central
Destaques do imobiliário
Mas a grande aposta de todos os setores da economia para 2008 é o crédito imobiliário. Para se ter uma idéia, o volume de recursos destinados ao financiamento de imóveis, no total acumulado até setembro, ultrapassou toda a concessão de 2006. Foram R$ 14 bilhões liberados nos nove primeiros meses, sendo que, nos 12 meses do ano passado, esse total foi de quase R$ 12 bilhões.
Na pesquisa seguinte, foi apontado que, até outubro, o montante somava pouco menos de R$ 16 bilhões. A expectativa da Abecip (Associação Brasileira das Entidades de Crédito Imobiliário e Poupança) é que, até 2010, a liberação de dinheiro cresça em um ritmo de 25% ao ano.
Continua depois da publicidade
Os motivos para esse comportamento, além das questões macroeconômicas já citadas, são também uma resposta do mercado à maior procura pelo financiamento e diversas flexibilizações verificadas ao longo de 2007. Abaixo, alguns dos principais destaques:
- A Caixa Econômica Federal aumentou de 20 anos para 30 anos o período máximo para pagar o crédito. Pouco tempo depois, foi a vez do Santander fazer o mesmo. Esse foi um passo muito importante: para conseguir tomar o empréstimo, o consumidor precisa atender a alguns requisitos básicos, como nível de renda. A parcela a ser paga não pode comprometer mais do que 25% a 30% da renda do mutuário. Por exemplo, com uma taxa de 12% ao ano, era necessário que a pessoa tivesse uma renda de R$ 4.478, para conseguir contratar um crédito no valor de R$ 80 mil para ser pago em 120 meses. A parcela, nesse caso, saía por R$ 1.120. Aumentando o prazo de pagamento para 300 meses, a renda cai para R$ 3.226 e a parcela fica em R$ 807.
- Em outubro, o Conselho Curador do FGTS (Fundo de Garantia do Tempo de Serviço) reduziu de 10,16% para 8,66% – ambos com incidência da TR (taxa referencial) -, a taxa de juro a financiamentos tomados por trabalhadores com renda entre R$ 3,9 mil e R$ 4,9 mil;
- Logo depois, o conselho baixou ainda mais essa taxa e igualou duas faixas de renda. Ficou definido, então, que mutuários com salário entre R$ 1,9 mil e R$ 4,9 mil arcariam com um juro anual de 8,16%, mais a TR. A modificação teve vigência logo depois de sua publicação, ainda em 2007. No mesmo pacote de modificações, foi determinado que empregados que recebam mensalmente o depósito do FGTS pagarão 7,66% ao ano de juros, mais a variação da TR. A implantação do sistema será em janeiro;
- Enfim, mais uma modificação. O grupo aprovou, em outubro, a elevação do teto dos financiamentos de imóveis com os recursos do FGTS de R$ 130 mil para R$ 245 mil (valor do imóvel de R$ 350 mil). A mudança também ficou para o primeiro mês de 2008, e abrange mutuários com renda acima de R$ 4,9 mil mensais;
- A última foi a entrada de um banco privado dentro do sistema de financiamento com recursos do FGTS. O Itaú lançou, em dezembro, linha do tipo, com juro anual de até 8,47%, mais TR. O prazo para pagamento é de 25 anos.
Para comprar carro
As estimativas da Anfavea (Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores) apontam para um crescimento de 17,5% nas vendas de autos em 2008. O avanço é tido como significativo, uma vez que neste ano as vendas atingiram o total recorde de 2,45 milhões de unidades, com alta de 27% sobre 2006.
Os números não vieram de graça. Foi paupável, também, a ampliação do crédito para a compra de automóveis. Concessionárias já chegam a oferecer 99 meses para o pagamento do veículo. Conforme a Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças), de outubro para novembro, o prazo médio de financiamento de carros saltou de 36 meses para 42 meses.
Continua depois da publicidade
O raciocínio é o mesmo do explicado sobre o financiamento de imóvel: mais prazo para bancar o carro, parcela menor. Por exemplo: ao se comprar um carro de R$ 25 mil com uma taxa de juro de 1,5% mensal, pagando em 36 meses a parcela fica em torno de R$ 850 – caindo para R$ 750 em 42 meses.
Essa flexibilização também resultou em outro fenômeno: a mudança na referência dos consumidores. Carros populares, com motor 1.0, perderam espaço cativo na preferência. Dados do Renavam (Registro Nacional de Veículos Automotores) apontam que, no acumulado do ano até novembro, modelos com a potência representaram 54,3% dos emplacamentos – a menor participação dos últimos dez anos. Apenas para se ter uma idéia, essa proporção já foi superior a 70%.
Endividamento
Mas essa liberação intensa de dinheiro tem um custo, os juros. E, ainda por cima, comprometem a renda do mutuário. Porém, de acordo com a Fecomercio-SP (Federação do Comércio do Estado de São Paulo), o número de consumidores paulistanos endividados (com cheque especial, cartão de crédito, empréstimo pessoal ou prestações em geral) atingiu 48% em dezembro – o menor patamar desde a criação da pesquisa, em fevereiro de 2004.
Continua depois da publicidade
Segundo o vice-presidente da Anefac (Associação Nacional dos Executivos de Finanças), Miguel José Ribeiro de Oliveira, não há risco de haver uma crise de endividamento: o aumento do crédito é um processo normal que visa a estimulação do consumo e crescimento da economia. “Ainda há espaço para alongar mais os prazos e diminuir a taxa de juro. Assim mais pessoas de renda menor poderão fazer compras que antes não conseguiam”, afirmou, recentemente, à InfoMoney.