Como os conflitos no Oriente Médio afetam o seu bolso?

Instabilidade política levou à disparada na cotação do petróleo no mercado internacional, que pressiona inflação e pode forçar novo aumento dos juros

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SÃO PAULO – Muitos brasileiros vêem o agravamento da situação política no Oriente Médio e os conflitos armados na África como algo distante e de pouca relevância em suas vidas. Afinal, com tantos problemas que o brasileiro já tem que enfrentar, se preocupar com o que está acontecendo do outro lado do mundo não parece prioritário.

No entanto, engana-se quem pensa que o que acontece fora do país não reflete no seu cotidiano, mais especificamente no seu bolso. Infelizmente, como ficou evidente na época dos atentados terroristas aos EUA, e na crise Argentina, o bolso do brasileiro sofre sim com a instabilidade internacional. Especialmente quando esta instabilidade pode pressionar a cotação do petróleo, essencial na produção de combustíveis, como por exemplo, a gasolina e o gás de cozinha.

Reajuste dos combustíveis é inevitável

O Brasil é diretamente afetado por esta instabilidade, já que ainda não é auto-suficiente na produção de petróleo. A projeção é a de que no final de 2005 o país já esteja auto-suficiente e não precise mais importar. Enquanto isso, no entanto, ele fica dependente da situação da economia mundial, e essa insegurança pode provocar um descontrole no orçamento de muita gente, graças à política de realinhamento que a Petrobrás pratica.

Para se ter idéia de como o cenário internacional tem afetado a economia brasileira e, por conseqüência, o orçamento da população, no final de 2003 a cotação do petróleo estava na faixa de US$ 30, mas por conta da turbulência provocada pelos atentados terroristas no Oriente Médio, risco de conflito armado na Nigéria e pelas projeções de crescimento da demanda mundial, o preço do barril do petróleo chegou a ultrapassar US$ 50, e, e mesmo tendo mostrado pequeno recuo, não se encontra longe deste patamar.

Essa tendência torna praticamente inevitável o reajuste dos preços no mercado brasileiro, já que com a entrada de combustível importado no país, o custo de produção dos combustíveis nas refinarias sobe, sendo parcialmente repassado para os consumidores.

O peso dos transportes no orçamento

Tomando como base o índice IPC-FIPE, que acompanha a evolução de preços paras as famílias paulistanas com renda entre 2 e 6 salários mínimos, o que se constata é que os gastos com transporte respondem por cerca de 16% do índice.

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Em outras palavras isso equivale a dizer que em torno de 16% do orçamento destas famílias é gasto com transportes, ou em termos numéricos, uma pessoa que ganha R$ 1.000 deve ter despesas de R$ 160 somente com transporte.

Contudo, é importante lembrar que o peso destes gastos no orçamento varia de acordo com o extrato de renda do consumidor, já que quanto maior for a receita mensal da pessoa, maior será os seus gastos com transporte, pois ela geralmente abastece o carro, e paga o transporte dos filhos e empregados.

Opep responde por cerca de 40% da produção

Quando o assunto é produção de petróleo, não se pode deixar de falar da OPEP, ou Organização dos Países Exportadores de Petróleo, que reúne os 11 maiores produtores de petróleo no mundo: Argélia, Indonésia, Irã, Iraque, Kuwait, Líbia, Nigéria, Catar, Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos e Venezuela.

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Juntos, estes países respondem por 40% da produção mundial e mais de três quartos das reservas de petróleo no mundo. E, como boa parte deles se encontra no Oriente Médio, é fácil entender porque os conflitos políticos naquela região, assim como em partes da África, têm um impacto tão grande no preço do petróleo, e nos seus gastos com transporte.

Metas de inflação ficam comprometidas

Apesar de a Ata do Copom (Comitê de Política Monetária) do mês de setembro ter mantido inalteradas, pelo oitavo mês consecutivo, as suas projeções para o reajuste da gasolina em 9,5% ao longo deste ano, diante da tendência de elevação do preço do barril de petróleo, é possível que a projeção para o aumento do preço dos combustíveis seja revista em breve.

Considerando o peso do preço dos combustíveis na formação da inflação, não há dúvida de que se novos reajustes forem praticados, o alcance das chamadas metas inflacionárias será dificultado. Para 2004, a meta inflacionária é de 5,5%, sendo que são aceitas oscilações de 2,5% para cima ou para baixo, o que, na prática equivale a dizer que a meta terá sido alcançada desde que a inflação não supere 8% em 2004.

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Como a meta se baseia na variação do IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo), pode se afirmar, com base na variação acumulada até agosto de 5,14%, que a inflação não pode superar 2,72% no último quadrimestre do ano. Isso equivale a uma taxa mensal de 0,673%, pouco abaixo, portanto, da inflação de agosto, medida pelo IPCA, que foi de 0,69%.

Juros podem subir mais

Tendo em vista que o governo deve tentar trazer a inflação para um patamar mais próximo da meta de 5,5%, o mercado já trabalha com a perspectiva de que o Copom (Comitê de Política Monetária) possa voltar a subir a taxa de juros até o final do ano. No mês passado o Copom elevou a taxa básica de juros em 25 pontos base para 16,25% ao ano, o primeiro aumento em 19 meses.

Ainda assim, o último relatório Focus do Banco Central, divulgado nesta segunda-feira, 4 de outubro, e que inclui a média das projeções de cerca 100 analistas de mercado sugere que a Selic deve fechar o ano em 17%, ou 75 pontos base acima do patamar atual.

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Neste sentido, fica claro, que a continuidade dos conflitos no Oriente Médio e na Nigéria deve ter um impacto negativo nos preços dos combustíveis, o que deve pressionar novamente a inflação, e acabar acarretando novos aumentos nos juros. Mesmo que os juros não aumentem, como prevê o mercado, o consumidor terá pouco o que comemorar, pois certamente eles não irão cair no curto prazo como se esperava há alguns meses atrás.