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10 de junho (Bloomberg) — Algo estava errado. A BMW 328 Roadster estava há três dias na garagem de Norbert Schroeder, em Dusseldorf, Alemanha, e seu dono estava ficando cada vez mais impaciente. Schroeder já havia inspecionado o carro uma vez sem encontrar nada de errado. Ainda assim, ele podia sentir por dentro: alguma coisa não estava bem.
“Concentre-se, Norbert”, dizia ele a si mesmo. “Concentre-se”.
Schroeder, 53, não usa chapéu de caçador, nem fuma cachimbo. No entanto, ele é o mais próximo que o mundo dos carros clássicos tem de um Sherlock Holmes da vida real, reportará a Bloomberg Pursuits em sua edição Summer 2014. Ele trabalha para a TUV Rheinland Group, companhia alemã que realiza testes técnicos, como avaliador de carros antigos e consultor de restaurações. Sua especialidade é a autenticação: provar que um carro clássico é o que o vendedor ou o proprietário diz que é — ou, como ocorre cada vez mais, refutá-lo.
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Só em 2013 os valores dos carros antigos subiram 28 por cento, segundo o índice Luxury Investment, mantido pela corretora imobiliária Knight Frank LLP, de Londres. Muitos modelos procurados, como um Aston Martin DB2/4 ano 1955 ou uma Ferrari 250 Testarossa, viram os preços nos leilões triplicarem ou quadruplicarem na última década. Como os preços aumentaram, as falsificações acompanharam.
“Nos anos 1990 eu encontrava um carro falsificado a cada cinco anos”, diz Schroeder. “No ano passado eu encontrei oito”.
A carroceria do carro — o design distinto e a forma de seu exterior — é o que o torna reconhecível para um leigo. Para um avaliador como Schroeder, contudo, a chave para identificar um carro antigo é seu chassi. E foi no chassi do BMW que Schroeder se concentrou.
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‘Milímetro por milímetro’
“Eu resolvi olhar milímetro por milímetro”, diz ele.
O 328 é um carro esportivo sem capoita que a Bayerische Motoren Werke AG produziu de 1936 a 1940. Versões modificadas contabilizaram vitórias em uma série de corridas europeias famosas da época, incluindo a 24 Horas de Le Mans, da França, e a Mille Miglia, da Itália. Dos 464 exemplares produzidos, acredita-se que apenas 180 ainda existem. Um original pode ser vendido a US$ 500.000; em 2010, um vencedor da Mille Miglia foi comprado por US$ 5,6 milhões.
Schroeder sabia que em um 328 autêntico a caixa de marcha se encaixa ao chassi três centímetros atrás do primeiro conjunto de barras transversais que criam a assinatura do chassi em forma de A. O ponto de encaixe estava exatamente onde deveria. Mas quando Schroeder foi em busca do parafuso usado para fixar a caixa de câmbio no chassi ele descobriu algo estranho: a peça não estava lá. Em vez disso, a caixa de câmbio havia sido soldada no lugar.
“Arrá! Tem algo errado!”, ele recorda haver pensado. Schroeder havia acabado de descobrir outra falsificação.
Descobrir uma falsificação requer um conhecimento enciclopédico de carros clássicos e pode se basear na menor pista: recentemente Schroeder descobriu um Mercedes 300SL Gullwing contrafeito (o verdadeiro vale cerca de US$ 1,2 milhão) por causa de uma pequena aberração na fonte usada para carimbar o número de identificação do veículo. Também são suspeitos vendedores vagos em relação à posse recente de um carro ou que dizem ter descoberto o chassi de um famoso carro de corrida desaparecido há décadas.
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“Eu diria que menos de um em cada 10 dos carros desaparecidos sobre os quais você ouve falar que foram descobertos é o que diz ser”, diz Simon Kidston, um especialista em carros antigos e corretor de Genebra.
Encontrei-me com Schroeder na mostra Techno Classica Essen, uma das feiras de carros antigos mais importantes da Europa. Estamos a menos de três metros de um Porsche 356A Speedster vermelho à venda por cerca de um milhão de euros quando Schroeder para de repente. Eu estou no meio de uma pergunta, mas ele estende o indicador para me calar. E fica imóvel, observando.
“O carro e eu estamos conversando”, diz ele.
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Schroeder estima que inspeciona pelo menos 200 carros por ano em todo o mundo e aprendeu a confiar em seus instintos. Ele dá a volta ao redor do Porsche, chegando cada vez mais perto. Franze a testa. E fala que sem examinar o chassi não pode dizer nada com certeza.
“Eu não sei”, diz ele. “Eu simplesmente tenho uma sensação ruim sobre ele”.