Warren Buffett: o único ativo que nunca deprecia

Mais do que sorte, a trajetória de Buffett revela que disciplina, paciência e caráter são os verdadeiros diferenciais no longo prazo

Walter Maciel

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Warren Buffett disse que foi sortudo. Na sua carta de despedida, aos 95 anos, ao passar o comando da Berkshire Hathaway para Greg Abel depois de sete décadas construindo um dos maiores impérios financeiros da história, escreveu que, por pura sorte, tirou um canudo ridiculamente longo ao nascer.

Eu respeito profundamente esse homem. Mas discordo. E vou explicar por que essa distinção importa, não só para entender Buffett, mas para entender o que realmente separa os grandes dos medíocres.

Buffett tinha um experimento mental favorito. Imaginava que, 24 horas antes de nascer, um gênio aparecia e dizia: você vai tirar uma bola em um barril com 5,8 bilhões. Não se sabe se vai nascer rico ou pobre, homem ou mulher, americano ou afegão, inteligente ou não. É uma loteria ovariana, e ele admitia ter ganhado com folga.

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Nasceu em 1930, nos Estados Unidos. Nasceu saudável. Isso, sim, foi sorte. Ponto final.

Todo o resto não foi sorte. Assim como Buffett, milhões de americanos nasceram nas mesmas condições em 1930. Nenhum construiu a Berkshire Hathaway. A sorte explica a janela. Não explica o que ele fez com ela.

Aos 6 anos, vendia Coca-Cola e chiclete de porta em porta no bairro de Omaha. Aos 10, já tinha lido todos os livros de finanças da biblioteca pública da cidade. Aos 11, comprou suas primeiras ações. Aos 12, entregava jornais e ganhava mais do que a maioria dos seus professores.

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Ainda adolescente, investiu 25 dólares com um amigo em uma máquina de pinball usada. Colocaram-na em uma barbearia, dividiram os lucros e reinvestiram tudo na compra de mais máquinas. Em poucas semanas, tinham um pequeno império, e Buffett já aplicava juros compostos na prática antes mesmo de conhecer o conceito.

Isso não é sorte. É uma obsessão precoce. É clareza sobre quem você é antes que o mundo tente convencê-lo a ser outra coisa.

Aqui está o paradoxo mais desconcertante de Warren Buffett. Ele nunca escondeu o método. Pelo contrário, publicou tudo. Décadas de cartas anuais aos acionistas da Berkshire Hathaway estão disponíveis gratuitamente na internet. Qualquer pessoa pode ler. Qualquer gestor pode estudar. Qualquer investidor pode tentar replicar.

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E quase ninguém consegue. Por quê? Porque o método exige uma coisa que o mercado financeiro moderno destruiu sistematicamente em todos nós: paciência.

Os quatro princípios que Buffett seguiu por 70 anos sem desviar um milímetro são simples.

Primeiro: só invista no que você entende. Ele chamava isso de círculo de competência. Sabia exatamente onde terminava seu conhecimento e nunca cruzou essa linha. Em 1999, no auge da bolha de tecnologia, não entendia como avaliar empresas de internet. Então, não comprou nenhuma. Enquanto o mercado subia 400%, ele ficou parado. A bolha estourou em 2000. Ele estava certo.

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Segundo: desconfie de dívida. Empresas alavancadas dependem de tudo correr bem, e tudo nem sempre corre bem. Em 2003, avisou que derivativos eram armas de destruição em massa financeira. O mercado ignorou. Em 2008, o mundo inteiro entendeu.

Terceiro: pense em décadas, não em trimestres. Comprou ações da Coca-Cola em 1988. Nunca vendeu. Décadas depois, possuía cerca de 8% da empresa. O tempo é o melhor amigo do bom negócio.

Quarto: construa margem de segurança. Nunca pague o preço justo. Pague menos. A diferença entre o preço que você paga e o valor real é sua proteção contra o erro humano inevitável.

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Não se trata de teoria. Buffett viveu cada um desses princípios sem exceção, durante sete décadas, em todos os ciclos econômicos, em todas as crises, em todos os momentos em que o mercado gritava para ele fazer o contrário.

Em 1999, quando o mundo inteiro o ridicularizava por não comprar tecnologia — ele não comprou.
Em 2008, quando os bancos imploravam por socorro — ele cobrou caro pelo privilégio de emprestar.
Em 2020, quando a pandemia derrubou os mercados — ele ficou parado, esperando a oportunidade certa.

Cada decisão era a mesma decisão. Cada ano era o mesmo ano. Cada crise era a mesma crise. A consistência não é um valor abstrato em Buffett. É uma prática diária, repetida sem interrupção, sem exceção, sem desculpa. Ele fez do jeito dele. Sempre. E o resultado é o único argumento que importa.

O problema nunca foi o método. O problema é a natureza humana. Queremos resultados rápidos. Queremos adrenalina. Buffett vendia paciência em um mundo viciado em velocidade e ficou rico enquanto o mundo inteiro procurava atalhos que não existem.

O que realmente separou Buffett de todos os outros não foi apenas a disciplina de investimento. Foi o que ele chamava de scorecard interior.

A pergunta que fazia a si mesmo antes de qualquer decisão era: você prefere ser o melhor do mundo e ser conhecido como o pior, ou ser o pior do mundo e ser conhecido como o melhor?

Quem vive pelo scorecard externo, pela aprovação do mercado, pela opinião dos analistas, pela manchete do próximo trimestre, nunca chega ao que realmente importa. Buffett vivia exclusivamente pelo scorecard interior.

Há uma frase dele que deveria estar gravada na parede de toda sala de reunião: “Leva-se 20 anos para construir uma reputação e cinco minutos para destruí-la. Se você pensar nisso, vai agir de forma diferente.”

Em 1991, o banco Salomon Brothers foi apanhado em um escândalo de manipulação do mercado de títulos do governo americano. Buffett assumiu como CEO interino para salvar a instituição. Sua primeira declaração ao Congresso foi direta: “Perca dinheiro pela empresa e eu serei compreensivo. Perca um milímetro de reputação e serei implacável.”

Não foi marketing. Foi o homem sendo o mesmo em público e em privado, na prosperidade e na crise.

Há uma história que Buffett contava com admiração genuína e que revela mais sobre seus valores do que qualquer carta aos acionistas. Rose Blumkin, conhecida como Mrs. B, era uma imigrante russa que chegou aos Estados Unidos sem falar inglês e sem dinheiro. Com 500 dólares, abriu uma loja de móveis em Omaha chamada Nebraska Furniture Mart.

Buffett a observou por décadas. Via nela tudo o que buscava em um negócio: integridade absoluta, custos baixos, foco total no cliente, zero dívida. Quando finalmente decidiu comprar a empresa, fez o negócio em um guardanapo, sem auditoria, advogados ou due diligence formal. Disse simplesmente: a palavra dela vale mais que qualquer contrato.

Mrs. B tinha 89 anos quando vendeu. Continuou trabalhando até os 103. Em uma indústria obcecada por modelos financeiros e estruturas complexas, Buffett fechou um dos melhores negócios da sua vida em um guardanapo com uma imigrante de 89 anos porque confiava no caráter dela. Isso diz tudo sobre o que ele realmente valorizava.

Há, no entanto, um paradoxo humano inevitável. As biografias mostram que o homem extremamente disciplinado nos negócios tinha dificuldades na vida pessoal. Sua primeira esposa, Susie, passou anos esperando por uma presença que nunca veio plenamente. Quando se afastou, manteve o cuidado à distância. E enviou uma amiga, Astrid Menks, para cuidar dele em Omaha.

Astrid acabou se mudando para a casa dele. Os três viveram nessa situação incomum por décadas, com o conhecimento e a bênção de Susie. Quando Susie morreu de câncer, em 2004, Buffett ficou destruído. Não conseguiu comparecer ao funeral. Dois anos depois, casou-se com Astrid.

Ele mesmo disse, com a honestidade que sempre o caracterizou: “Susie me arrumou.”

A grandeza sempre tem um preço. A questão é saber qual você está pagando e qual está pagando sem perceber.

Na sua última carta aos acionistas, aos 95 anos, Buffett escreveu algo que transcende os negócios: “Grandeza não vem de acumular dinheiro, publicidade ou poder. Quando você ajuda alguém de qualquer uma das milhares de maneiras possíveis, você ajuda o mundo. Bondade não tem custo, mas também não tem preço.”

E terminou assim: “Desejo a todos um feliz Dia de Ação de Graças. Sim, até os idiotas. Nunca é tarde para mudar.”

No Brasil de hoje, onde gestores prometem o impossível, entregam desculpas e mudam de tese a cada trimestre, o que esse homem representa é quase subversivo.

Paciência como disciplina. Verdade como estratégia. Consistência como vantagem competitiva. Scorecard interior em um mercado que vive de scorecard externo.

Buffett não foi o gestor mais inteligente da sua geração. Foi o mais consistente. O mais honesto. O mais fiel a si mesmo por 70 anos, enquanto o mundo inteiro tentava convencê-lo a ser outra coisa. Ele não foi sortudo por ser quem era. Foi fiel a quem era — e isso tem nome: caráter.

E caráter, como Buffett provou melhor do que qualquer outro, é o único ativo que nunca deprecia.

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Walter Maciel

CEO da AZ Quest desde 2011