A primeira classe já caiu — só não admite

O problema não são os ricos. O problema não são os pobres. O problema é esse modelo de governo, que não protege ninguém, taxa todos até a morte, não entrega serviços básicos e culpa “a elite” pelos próprios fracassos

Walter Maciel

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Li recentemente no Estado de São Paulo o artigo de Bolívar Lamounier, “A Primeira Classe Também Cai”. O argumento dele, em resumo, é de que a violência que hoje afeta principalmente a periferia e os mais pobres inevitavelmente alcançará também os bairros de classe alta. Que a elite brasileira vive numa bolha de segurança prestes a estourar. E que economistas talvez possam nos dizer “quanto vai faltar para vislumbrar, num cinzento horizonte, o espectro da guerra civil.”

É um artigo preocupante, bem escrito, e Bolívar é um pensador importante. Mas o diagnóstico não está totalmente correto.

Empresários no Brasil pagam os maiores impostos em termos nominais e, muitas vezes, também em termos proporcionais. Esse dinheiro é entregue ao Estado com a promessa de que servirá a todos. Mas quantos empresários você conhece que usam hospital público, escola pública ou aposentadoria pública? Raríssimos. O dinheiro pago em impostos não retorna em serviço algum.

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Carros blindados, seguranças armados, janelas à prova de bala e sistemas de câmeras são hoje comuns entre os empresários brasileiros. Em que democracia civilizada as pessoas que produzem e geram empregos precisam disso? Talvez em regiões em guerra. Mas em São Paulo? Isso não é “primeira classe” — é falha do Estado.

Alguns andam até com um segundo carro atrás, cheio de seguranças privados, por medo de sequestro ou assalto. Isso não é luxo, é viver sob cerco. Não se pode usar relógios caros na rua; há casos de perseguições até garagens e elevadores.

Pessoas são vítimas da violência em plena luz do dia. E, para muitos, essa insegurança já faz parte da rotina. Turistas no Rio não podem ir à praia com nada — sem relógio, sem jóias — porque são roubados. Às vezes esfaqueados. Às vezes mortos. Muita gente que conheço viveu isso.

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Eu mesmo sou vítima dessa violência: meu pai foi morto em 1980, atropelado por criminosos que fugiam da polícia na contramão. Hit and run. Isso não começou ontem. São décadas.

“Primeira classe” no Brasil significa calcular risco o tempo inteiro. Significa não poder se mover pela própria cidade com liberdade. Isso não é privilégio — é cativeiro, ou algum tipo de liberdade vigiada.

Além da violência, há o peso insustentável da carga tributária. Empresários pagam “impostos sobre impostos sobre impostos.” E, como não podem confiar na qualidade da produção local em vários setores, acabam importando e sendo novamente punidos com tributos altíssimos.

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A recente taxação de dividendos em 10% é um exemplo disso. O argumento era de “justiça social”, mas o resultado é bitributação: a empresa já pagou imposto corporativo, e o acionista paga novamente sobre o mesmo lucro. O correto seria crédito no nível pessoal. Concorda-se que rendas puramente passivas devam ser tributadas, mas não foi essa a estrutura aprovada.

A maioria dos empresários é rica porque produz. Têm empresas, contratam pessoas, geram renda. Ainda assim, enfrentam uma das legislações trabalhistas mais onerosas do mundo, em que a maior parte do custo de um salário vai para o governo, não para o empregado. E, quando demitem, pagam de novo. Vivem sob insegurança jurídica e regulação sufocante, que mudam conforme o humor político do momento.

Mesmo assim, continuam sendo retratados como se tivessem o controle do país. Mas não têm. O governo brasileiro não faz o que os empresários querem — e sim o que a democracia escolhe nas urnas.

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Durante as últimas três décadas, as políticas públicas e econômicas foram moldadas, em grande parte, por governos que sempre apontaram a “elite” como culpada pelas desigualdades e pelos fracassos do Estado. Mas a verdade é que os empresários não controlam o poder político. São minoria eleitoral. O financiamento privado de campanha foi proibido. E o discurso de que “a elite manda no país” é, há muito tempo, uma ficção conveniente.

O que existe, na prática, é um Estado que não entrega o básico a ninguém — nem para quem paga mais impostos, nem para quem mais precisa de proteção. O Estado falhou com todos.

O problema não são os ricos. O problema não são os pobres. O problema é esse modelo de governo, que não protege ninguém, taxa todos até a morte, não entrega serviços básicos, culpa “a elite” pelos próprios fracassos e está no poder há 17 anos (interrompidos por um hiato de seis).

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A primeira classe não vai cair. Ela já caiu. E, quando finalmente admitir isso — quando juntar sua insatisfação com os 88,8% das favelas que já entenderam —, aí sim veremos mudança política.

Não porque “a violência chegou aos ricos”, mas porque todo mundo — rico e pobre — percebeu que o Estado falhou com todos.

O único jeito de alterar isso é mudando quem governa. Não é sobre classe. É sobre competência. E essa conversa de “culpar a elite” já durou até demais.

Mas há um ponto que a narrativa de “a elite vai cair” não considera: os muito ricos sempre têm uma escolha que os pobres não têm — podem sair do país. E é exatamente isso que está acontecendo, em larga escala.

Quando você paga os maiores impostos, praticamente não utiliza nenhum serviço público, vive como prisioneiro, é culpado pelos problemas do país e, ainda assim, nada melhora — eventualmente, você sai. Vai para Portugal, Espanha, Estados Unidos ou Dubai. Não é fuga de imposto — continuam pagando tributos no Brasil sobre operações aqui. É uma fuga da incompetência, da insegurança e da ingratidão.

E, quando os ricos saem em massa, quando as empresas fecham ou se mudam, o que sobra? Não há mais quem taxar. Não há mais quem contrate. Não há mais quem crie riqueza. Sobra um Estado ineficiente, pesado e inchado; os intelectuais que culparam os ricos; e os pobres — sem emprego, sem oportunidade.

Vai ser um resultado amargo para todos. Mas talvez seja o único jeito de aprenderem: não se constrói um país destruindo quem produz. Não se cria riqueza culpando quem a gera. E não se resolve o problema de um Estado incompetente taxando mais quem já paga.

A primeira classe não vai cair. Ela já caiu. Só não percebeu.

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Walter Maciel

CEO da AZ Quest desde 2011