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A arrecadação federal atingiu em outubro um recorde histórico de R$ 2,3 trilhões em dez meses. Em um país fiscalmente equilibrado, esse resultado encerraria qualquer debate sobre sustentabilidade das contas públicas. No Brasil, porém, expõe o tamanho do desequilíbrio estrutural. Como registrou o Estadão, o Estado brasileiro funciona hoje como um Pantagruel de apetite insaciável. E não atua sozinho: é parte de uma coalizão de grupos que se beneficiam de um sistema em permanente expansão.
Três episódios recentes, todos na mesma semana, ilustram de forma contundente essa dinâmica. Os Correios solicitaram ao Tesouro um aporte de R$ 20 bilhões – valor que não será devolvido, e cuja inadimplência já é tratada com naturalidade.
O Judiciário obteve do Senado a aprovação de um reajuste de 25%, sob o argumento de salários “defasados”, mesmo com o país gastando R$ 20 bilhões anuais com supersalários acima do teto constitucional. A comparação internacional é eloquente: um juiz brasileiro pode ganhar até quatro vezes mais do que um ministro da Suprema Corte dos Estados Unidos, enquanto a Alemanha simplesmente não possui servidores acima do teto.
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Na mesma semana, o Senado aprovou, por ampla maioria, uma pauta com impacto de R$ 10 bilhões anuais nas contas públicas.
Para o economista José Roberto Mendonça de Barros, o termo adequado para descrever esse comportamento é “candidez”, uma vez que a predação fiscal ocorre abertamente, sem constrangimento.
O Executivo, que deveria liderar o processo de contenção e racionalização do gasto, tampouco oferece exemplo. A ampliação da estrutura federal com a criação de 17 novos ministérios, o aumento de cargos e o uso político das estatais dificultam qualquer discurso de austeridade.
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Quando a Presidência é a primeira a expandir despesas e a ocupar a máquina, perde legitimidade para exigir disciplina dos demais poderes.
O quadro numérico aponta para uma situação ainda mais desafiadora. Segundo análise do ex-presidente do Banco Central Gustavo Franco, a dívida pública já se aproxima de 80% do PIB. Para estabilizar esse patamar, seria necessário um superávit primário de 1,5% do PIB. Em vez disso, o país opera hoje com déficit de 0,7%. Trata-se de uma alavancagem implícita superior a 50 vezes. Uma empresa com indicadores semelhantes já estaria em recuperação judicial.
O país continua funcionando porque pode emitir moeda – um mecanismo que adia o ajuste, mas não o substitui. Franco descreve a política econômica atual como uma “Nova Matriz Envergonhada”: uma reprise do período Dilma, agora revestido de retórica de responsabilidade fiscal.
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No campo da comunicação econômica, o debate se deteriora ainda mais. Afirmações recentes do Ministério da Fazenda – como a de que uma redução de três pontos na Selic adicionaria apenas 0,2 ponto à inflação – foram desmontadas por economistas como Alexandre Schwartsman, que apontou a inconsistência metodológica e empírica da tese. Caso tal relação fosse verdadeira, o regime de metas nunca teria funcionado. A construção de narrativas, mais do que a sustentação técnica, parece orientar as mensagens em preparação para o ciclo eleitoral de 2026.
A questão central, entretanto, ultrapassa a política do momento. Reformas estruturais – como a administrativa, o corte de privilégios e a reorganização do gasto – esbarram em um ecossistema de interesses que se retroalimentam.
Para o governo atual, tais medidas colidem diretamente com a narrativa histórica que sustenta sua base política. Mas o problema não é exclusivo desta gestão: trata-se de uma coalizão que envolve Executivo, Legislativo, Judiciário e corporações organizadas.
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A partir de 2027, dois cenários despontam. No primeiro, um novo governo assume sem base sólida no Parlamento e enfrenta negociações custosas para aprovar medidas elementares, correndo o risco de paralisia. No segundo, surge uma coalizão de centro já articulada com o Congresso, capaz de garantir apoio automático para reformas hoje consideradas inviáveis.
A diferença entre esses caminhos pode definir se o país enfrentará mais uma década perdida ou um ciclo de reconstrução institucional.
Após mais de três décadas acompanhando as contas públicas, a conclusão é inevitável: os números indicam que o país se aproxima de uma situação de insolvência técnica.
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As contas não fecham, e as instituições responsáveis por resguardar o equilíbrio fiscal deixam de cumprir seu papel. Quando o colapso ocorrer, será impossível alegar surpresa: todos os atores envolvidos sabiam.