Publicidade
Esta eleição foi um plebiscito sobre um legado. Três anos e nove meses de governo e décadas de projeto: o Estado como resposta para tudo, o gasto sem contrapartida, o juro mais alto do mundo como consequência previsível, o Supremo como aliado e não como árbitro, a segurança pública entregue aos estados e às facções. O eleitor julgou. O que ficou em segundo lugar no domingo, dois pontos atrás, não foi um candidato. Foi um projeto de país — e seu autor é o presidente da República.
O resultado da presidência, porém, é o número que menos explica o domingo. Para entender o que aconteceu é preciso olhar a outra mão do eleitor.
Quem perdeu
A leitura apressada diz que a esquerda perdeu. A aritmética diz outra coisa. O campo progressista saiu do Senado de 17 para 15 cadeiras — recuou, mas pouco. Quem perdeu foi o centro. O PSD, que tinha chegado a 14 senadores, começa 2027 com cinco. O Podemos foi de seis para dois. O PSDB cabe num táxi. União e PP, federados, perderam quatro. Na Câmara, o mesmo bloco cedeu posições.
Continua depois da publicidade
Essas cadeiras foram para o PL: de 15 para 28 senadores, a segunda maior bancada de um único partido desde a redemocratização; de 99 para 121 deputados, a maior da Câmara. Com Novo, Republicanos e aliados, o campo que se define por ideias, e não por posição, chega a 48 senadores e 258 deputados.
O Centrão virou nome pejorativo. É, na verdade, a descrição mais precisa do que a política brasileira produziu: partidos que existem para estar no poder, seja qual for o poder. Não necessariamente corruptos; populistas no sentido exato — oferecem o que o momento pede e cobram em cargo e emenda. Durante 40 anos, foram o fiel da balança. No domingo, a balança foi embora.
Há uma razão estrutural. Em 2015 o Supremo proibiu a doação empresarial; a conta passou para o fundo público. Depois vieram as emendas impositivas. O parlamentar deixou de depender do doador, do governo e, entre uma eleição e outra, do eleitor. Deve a si mesmo. Esse político passou quatro anos sem posição sobre nada do que importava a quem o elegeu — segurança, Supremo, custo de vida — e ficou no muro, à espera do vencedor. No domingo o eleitor respondeu com a única ferramenta que lhe resta. Usou-a com precisão.
Continua depois da publicidade
A lista
Lula perdeu, e com ele a órbita. Gleisi Hoffmann. Renan Calheiros e, por tabela, Renan Filho, derrotado no estado dos Calheiros. Eduardo Paes no Rio, atrás de Douglas Ruas. Haddad, 36% contra 62,7% de Tarcísio, a maior votação da história de São Paulo. João Campos, o nome que o PSB guardava para 2030, batido por Raquel Lyra. Boulos já havia perdido em 2024.
Em São Paulo, Tarcísio levou a chapa inteira: Derrite e André do Prado, com 13 milhões e 12 milhões de votos repesctivamente, os dois senadores do estado. Tebet e Marina, as apostas do presidente, ficaram em terceiro e quarto — e voltam para Mato Grosso do Sul e para o Acre, de onde tinham vindo para ocupar um palanque que não era delas. E vale registrar Ricardo Salles: tinha candidatura, tinha nome, e desistiu a seis dias da urna para não dividir o voto da chapa do governador. Saiu da disputa com o rosto ainda impresso na urna. Isso também é pele em jogo — do tipo que não ganha mandato, ganha o resultado.
Repare no que sobra. A esquerda não perdeu apenas o presente; perdeu o banco de reservas. Não há um nome para 2030, e isso não é opinião — é a lista de quem concorreu.
Continua depois da publicidade
Do outro lado, Sergio Moro é governador do Paraná em primeiro turno: o juiz que o sistema retirou de cena voltou pela urna. Deltan Dallagnol é senador, depois de cassado pelo TSE em 2023, proibido de fazer campanha em setembro e com o registro indeferido na véspera da votação. O eleitor paranaense votou nele sem saber se ele existia. Existe.
E olhe o tamanho do que vem. Nikolas Ferreira, em Minas, 3,1 milhões de votos — o deputado mais votado da história do país, num colégio menor que o paulista. Pavanato, em São Paulo, 3 milhões. Os dois na casa dos 30 anos. Isso não é uma bancada; é uma geração. O eleitor não escolheu um presidente. Abriu um ciclo — que pode ser de 12, ou 16 anos de centro-direita, porque quem acabou de entrar tem idade para isso.
O centro, por sua vez, tomou uma decisão que lhe pareceu astuta: não apoiar ninguém. Nem Lula, nem Flávio. União Progressista e Gilberto Kassab perderam em todas as frentes em que estavam; Caiado, de quem Kassab era vice, terminou com 2,2%. O Missão ficou nos mesmos 2,2%. Zema, homem sério, que fez pelo país uma contribuição de coragem rara, chegou ao fim diluído a 0,3%, quando poderia ter engrossado desde o início a única candidatura com chance real — eu disse isso aqui, repetidamente. O eleitor é mais inteligente do que supõem. Não esperou; identificou quem não tinha pele em jogo e retirou-o da mesa. É o que uma democracia faz quando funciona.
Continua depois da publicidade
E perdeu o Supremo. Ao menos 50 senadores da próxima legislatura defendem publicamente o impeachment de ministros; a Corte projetava 40 em julho. Faltam quatro para os dois terços, e esse é o número que vai organizar Brasília a partir de fevereiro. A sessão de 15 de setembro foi televisionada. A semana da eleição — três ministros decidindo em um dia quem concorre, quem debate e o que a televisão pode mostrar — foi televisionada. O eleitor assistiu. Na segunda-feira, o presidente disse que “carrega nas costas a promiscuidade” da Corte. Quando o beneficiário abandona o benfeitor em público, o benfeitor perdeu.
O vencedor
Flávio Bolsonaro tinha a cadeira mais confortável da República: senador, oito anos de mandato, nada a provar. Trocou-a pela linha de tiro, com o pai preso e doente, o irmão fora do país, e sabendo como seria tratado. Durante meses ouvimos que o candidato era fraco. Mostrou-se mais forte que todos os outros — e mais corajoso.
Que extrema direita?
Parte da imprensa descreve o domingo como vitória da extrema direita. No mesmo dia, Fernando Schüler, do Insper, disse que “está na hora de revisar o termo bolsonarismo — é uma simplificação e um certo preconceito”. No mesmo dia, o Wall Street Journal chamou Flávio e Tarcísio de center-right. Diversos jornais, uma data, duas palavras.
Extremo é o que o país viu nos últimos anos: decisão monocrática por cima de tribunal inteiro, um poder invadindo o outro, a Constituição rasgada aqui e remendada ali. Chamam-se de harmonia entre os Poderes; o que houve foi uma orgia entre eles. Os eleitores foram o oposto disso. Foram 56 milhões de pessoas que não quebraram nada, não gritaram, não ocuparam rua alguma. Foram votar e voltaram para casa. É o ato mais civilizado que uma democracia conhece.
Na segunda-feira, o mercado leu o domingo: Ibovespa no maior fechamento da história, dólar a R$ 5, juro longo em queda, R$ 365 bilhões de valor de mercado em um dia. Nada mudou na economia entre sexta e segunda. Mudou a conta de quem pagará a dívida. Mas esse não é o filme todo. Apenas o trailer que pode estar por vir.
Há segundo turno. Alternância de poder é um bem em si, e um bem maior quando o projeto no poder entrega resultado ruim. Isso não é raiva nem vingança; é mudança. A democracia está viva, e acaba de mandar um recado aos Poderes: no final, quem decide o rumo do Brasil é o eleitor.
Dentro do que era possível, não poderia ter sido melhor.