A cultura da urgência está destruindo a estratégia

Empresas respondem mais rápido do que nunca aos problemas, mas talvez nunca tenham dedicado tão pouco tempo para pensar no futuro

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Vivemos na era da resposta imediata. Mensagens chegam em tempo real, reuniões são convocadas de última hora, indicadores são atualizados continuamente e decisões precisam ser tomadas cada vez mais rápido.

A tecnologia aproximou pessoas, reduziu distâncias e permitiu que empresas acompanhassem praticamente tudo o que acontece dentro de suas operações no exato momento em que acontece.

Esse avanço trouxe ganhos inegáveis de eficiência. Nunca foi tão fácil identificar problemas, mobilizar equipes e agir rapidamente.

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Mas, por outro lado, criou também uma nova forma de administrar os negócios: a cultura da urgência.

O problema não é a urgência em si. Toda empresa convive com situações que exigem respostas rápidas.

O problema começa quando a exceção vira regra, quando praticamente tudo parece urgente, a estratégia deixa de organizar o trabalho e passa a ser substituída pela sucessão interminável de acontecimentos do dia.

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Aos poucos, a urgência vai destruindo a estratégia.

Quando tudo parece urgente

O executivo inicia a manhã respondendo mensagens acumuladas da noite anterior. Antes mesmo de concluir a primeira tarefa, surge uma reunião inesperada.

Logo depois, um cliente precisa de atenção imediata, um indicador foge da meta, um fornecedor comunica um atraso ou uma nova demanda chega da diretoria.

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O dia termina com a sensação de ter trabalhado intensamente. Mas também com a impressão de que aquilo que realmente era importante ficou para amanhã.

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Existe uma diferença importante entre administrar o presente e construir o futuro. A primeira atividade depende da capacidade de reagir, já a segunda exige tempo para refletir.

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Essa distinção parece simples, mas vem desaparecendo da rotina de muitas organizações.

A velocidade passou a ser tratada como sinônimo de eficiência. Responder rapidamente virou uma competência valorizada. Pensar antes de responder, em alguns ambientes, passou a ser confundido com lentidão.

A tecnologia acelerou as respostas

Paradoxalmente, a tecnologia ajudou a criar esse cenário. Ferramentas de colaboração, smartphones, plataformas de monitoramento e sistemas integrados eliminaram o intervalo entre um acontecimento e sua comunicação.

Um problema que antes demorava dias para chegar à liderança hoje aparece em segundos na tela do celular. Com isso, criou-se a expectativa de que toda informação exige uma resposta na mesma velocidade.

Empresas podem responder rapidamente a centenas de situações todos os dias e, ainda assim, estarem se afastando de seus objetivos estratégicos. Resolver problemas não significa necessariamente gerar progresso.

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Muitas vezes significa apenas impedir que o presente desmorone.

Esse talvez seja um dos efeitos mais silenciosos da cultura da urgência: ela recompensa quem apaga incêndios, mas raramente reconhece quem trabalha para que eles não aconteçam.

O incentivo para apagar incêndios

Na prática, isso influencia até mesmo a forma como as lideranças são avaliadas.

Profissionais que resolvem crises costumam receber visibilidade, enquanto aqueles que investem tempo revisando processos, eliminando causas recorrentes e simplificando operações produzem resultados menos perceptíveis no curto prazo, embora muito mais relevantes para a sustentabilidade do negócio.

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O resultado é uma organização extremamente eficiente para reagir, mas cada vez menos preparada para prevenir.

Esse comportamento também altera a qualidade das decisões. Quando tudo precisa ser resolvido imediatamente, sobra pouco espaço para fazer perguntas essenciais.

Ainda faz sentido manter esse processo? Esse projeto continua alinhado à estratégia? Esse cliente continua sendo prioritário? Estamos resolvendo a causa do problema ou apenas seus sintomas?

Sem tempo para esse tipo de reflexão, a empresa continua ocupada. Mas passa a operar quase exclusivamente no modo reativo.

Curiosamente, isso gera uma falsa sensação de produtividade.

Executivos participam de mais reuniões, respondem mais mensagens, acompanham mais indicadores e encerram o dia com a agenda completamente preenchida. Entretanto, existe uma diferença importante entre estar ocupado e gerar valor.

Estratégia também exige tempo

As organizações que mais se destacarão nos próximos anos provavelmente não serão aquelas que responderem mais rápido a todas as demandas. Serão aquelas capazes de distinguir o que realmente exige velocidade daquilo que exige reflexão.

Conseguirão proteger espaços para discutir estratégia, revisar prioridades e questionar decisões antes que elas se transformem em novos problemas.

Isso não significa desacelerar os negócios. Significa impedir que o imediatismo se torne o único critério para definir prioridades. 

Urgência continuará sendo indispensável. Nenhuma empresa sobrevive ignorando crises ou deixando de responder rapidamente ao mercado. Mas estratégia exige algo que a urgência jamais conseguirá oferecer: tempo para pensar.


Com mais de 18 anos de experiência em desenvolvimento de softwares, atuando em projetos que vão desde sistemas embarcados até soluções web e mobile, Vinicius Oliverio construiu uma trajetória sólida em liderança de equipes e em inteligência artificial aplicada. Possui Graduação em Ciência da Computação pela UDESC, Mestrado em Ciência da Computação pela UFSCar e Doutorado em Ciências pela USP. Hoje, como sócio e CTO da urmobo, está à frente de iniciativas que unem inovação e mobilidade segura e inteligente.