País que não conhece a própria economia é incapaz de implementar metas ambientais

Ao ignorar pauta ambiental, Brasil desperdiça a chance de ser a nação mais relevante do mundo, afirma Julia Sekula, do Instituto Igarapé

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Em virtude das preocupações com as mudanças climáticas e da necessidade de aliar o crescimento econômico à preservação ambiental, o Brasil “tem potencial para ser o país mais relevante do mundo nos próximos cem anos”. Contudo, isto não deve ocorrer caso o País siga sem conhecer a própria economia e continue a acreditar que políticas ambientais não são prioridade, indica a coordenadora do Programa de Clima e Segurança do Instituto Igarapé, Julia Sekula.

Em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, ela critica o fato de o Brasil não tomar a frente em relação a metas ambientais, tendo em vista que outras nações teriam de se esforçar muito mais para cumpri-las. “Muitas pessoas não têm noção de que o Brasil já está em um lugar privilegiado em termos de energia renovável”, salienta.

Economista e cientista política, Julia reitera o atraso na pauta ambiental alegando que o País ainda é ignorante a respeito de um dos seus maiores biomas. “A Amazônia é tão desconhecida quanto o espaço”, frisa. “Quando falamos em bioeconomia e biocosméticos, a empresa que tem o maior volume de patentes de produtos da Amazônia é a Roche, uma farmacêutica suíça. Então, isso já dá a noção de que é um lugar com tanta oportunidade de inovação e conhecimento, mas não estamos nem perto de começar a entender”, complementa.

Fazendo um paralelo com a atualidade, marcada por dificuldades derivadas da pandemia de covid-19, ela afirma que mais da metade dos municípios brasileiros declarou, entre 2013 e 2017, estado de calamidade pública por questões ambientais.

“A nossa incapacidade de integrar soluções ambientais em meio à pandemia reforça a nossa incapacidade de integrar estas soluções de modo geral, não é algo novo. (…) Sempre falo que o covid-19 é uma crise ambiental muito mais do que qualquer outra coisa”, avalia.

Além disso, a economista destaca que, em meio à crise sanitária, ficou evidente o desconhecimento do Estado brasileiro a respeito da própria economia.

“Durante a pandemia, comecei uma ONG [Organização Não Governamental] para ajudar pequenos empresários com assessorias financeira e jurídica. De outra perspectiva, não falando de meio ambiente especificamente, você vê uma falta de entendimento profunda dos governos sobre o que é o pequeno empresário, que representa 27% do PIB [Produto Interno Bruto] e mais do que dois terços dos empregos. E, mesmo assim, todas as medidas tomadas durante a pandemia para ajudar os empresários em termos econômicos não ajudaram. Então, se a gente nem conhece a nossa própria economia suficientemente, como conseguiremos começar a implementar metas ambientais para esses empresários?”, questiona.

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