Inovação para além do clichê

Professor do Ibmec BH, Marconi Martins de Laia argumenta que processos inovativos só fazem sentido se resolverem necessidades reais

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
arrow_forwardMais sobre

por Marconi Martins de Laia*

Falar em inovação se transformou em algo clichê, da moda. O campo da administração é repleto de estereótipos. De tempos em tempos, surgem novos modismos que começam a figurar em livros, palestras, eventos e nos corredores organizacionais. A inovação é a tendência da vez. Contudo, não há uma relação direta entre modismos organizacionais e resultados empresariais. No que diz respeito à inovação, ela deveria incrementar a produtividade do País, e não é isso que se observa. Mais informações podem ser vistas aqui e aqui. Embora o vídeo do professor Marcos Lisboa seja de 2015, o cenário não mudou de forma substancial.

Em nenhuma hipótese isso significa afirmar que a inovação não é relevante. Em contextos corporativos, talvez o mais importante seja tratá-la não como um fenômeno novo, mas como um desafio que ganhou maior destaque nos últimos anos. Além disso, é fundamental entender as barreiras presentes no ambiente organizacional que geram obstáculos aos processos inovativos. Nesse curto espaço, quatro deles me vêm à mente.

PUBLICIDADE

Em primeiro lugar, é que inovação somente faz sentido se estiver associada à necessidade real dos clientes ou do público-alvo da organização. Inovar tem de estar vinculado ao atendimento de demandas reais e/ou potencias. Isso pode dar a ideia de que o processo de compreensão de tais necessidades é formado por uma lógica analítica perfeita em que se entende as carências do mercado e, a partir daí, promove-se a inovação. Contudo, ela deve ser vista muito mais como um roteiro emergente em que diversas tentativas e experimentações são realizadas, muitas delas malsucedidas, até que soluções que resolvam problemas reais dos consumidores sejam encontradas. A resiliência tem um papel-chave nessa questão.

Entretanto, a adoção de tentativa e erro não é a antítese da compreensão das necessidades do mercado por meio de análise estruturada. Pelo contrário, a própria experimentação, muitas vezes envolvida em processos de cocriação com o público-alvo, deveria ser o termômetro para o entendimento de demandas reais/potenciais e para o aprendizado organizacional. Mitigaria-se, dessa maneira, a criação dos produtos e serviços que prometem inovações, mas não aderem às carências e desejos das pessoas. Por outro lado, cria-se um ambiente de aprendizado com base na percepção de que estudar a jornada do cliente é vital.

Nesse sentido, observa-se o segundo desafio para os processos inovativos: os sistemas de avaliação de desempenho das empresas normalmente focam em benefícios de curto prazo, e não naqueles difusos, de longo prazo. Para inovar, as pessoas precisam errar – e, infelizmente, organizações não preparam lideranças para tolerar o erro. Assim, acabam medindo o desempenho de seus colaboradores apenas com foco no curto prazo, o que inibe muitas das intenções de tentativa, erro e aprendizagem dos funcionários.

Em terceiro lugar, é fundamental entendermos que inovação está associada a ambientes com alto grau de conhecimentos técnico e científico. Não há como inovar sem know-how. A história corporativa está farta de exemplos de tal realidade. Especialmente a disrupção provocada pela internet e novas tecnologias digitais mostrou como a expertise técnica faz diferença. Organizações precisam investir em gente qualificada e, ao mesmo tempo, capacitar aqueles que não o são. Conhecimentos técnico e científico andam de braços dados com a inovação. Basta ver o caso do Vale do Silício, cercado por universidades de ponta, como Stanford e Berkeley.

Por último, inovação sem priorizar resultados e sem mensuração é uma piada. Organizações públicas e privadas não têm tradição em mensurar seu desempenho com ênfase nos resultados. É incomum ver sistemas sólidos de medição de desempenho. Sem métricas que mostrem uma evolução clara nos resultados, falar em inovação é pura propaganda. Já entregar produtos diferentes que resolvam demandas reais dos consumidores e que garantam a sustentabilidade da organização é, de fato, inovação.

Organizações precisam pensar em inovação vinculada a ganhos reais de produtividade, redução de custos e melhoria da jornada do cliente. Caso contrário, aguardaremos o próximo clichê aparecer.

PUBLICIDADE

*Marconi Martins de Laia é professor do Ibmec BH

Um Brasil

Convida empresários, especialistas, pensadores e acadêmicos de todo o mundo para análises precisas e aprofundadas sobre as questões mais importantes nos cenários econômico e político do País. Uma realização da FecomercioSP, a plataforma UM BRASIL reúne uma gama variada de visões, trabalha pelo aprimoramento do senso crítico do cidadão brasileiro e funciona como um hub plural de conexão de ideias transformadoras.