Ideia de que o futuro será melhor não se sustenta mais, diz Bernardo Sorj

Sociólogo Bernardo Sorj diz que desigualdade social, incapacidade política e novas tecnologias põem em risco o conceito de um amanhã em constante progresso

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O futuro sempre esteve associado a uma ideia de progresso, na qual, por exemplo, o filho de pais analfabetos poderia chegar à universidade. O conceito de que o amanhã pressupõe melhoria constante em relação ao presente, contudo, está em colapso, de acordo com o sociólogo Bernardo Sorj.

Em entrevista ao UM BRASIL, uma realização da FecomercioSP, Sorj avalia que “o mundo está ficando cada vez mais difícil” por enfrentar, na atualidade, “diversas crises simultaneamente”, cujas consequências são as sensações de “incerteza, temores e desordem”.

Ele destaca a desigualdade social, a incapacidade de representação social da política e a invasão da privacidade por meio das novas tecnologias não só como flagelos do florescimento de um futuro melhor, mas também da democracia.

“O futuro, como progresso, é uma invenção quase contemporânea e que prometia às pessoas, no lugar da salvação do pós-morte, uma vida melhor neste mundo, uma melhoria constante. Mas, por causa, em particular, de políticas que levaram a mais desigualdade social e a transformações tecnológicas que diminuíram a oferta de empregos de qualidade, a ideia de que o futuro vai ser melhor não se confirma mais”, frisa.

De acordo com Sorj, esta situação, em vez de impulsionar políticas que melhorem as condições de vida, viabiliza ataques à democracia. “Todo este conjunto de fenômenos gera frustração e indignação, que legitimam e são aproveitados por políticos demagogos, que, em vez de enfrentar os problemas reais, utilizam este mal-estar da população e, num discurso messiânico salvacionista, canalizam a raiva contra os inimigos – a maior parte, imaginários”, afirma.

O sociólogo indica que é preciso reinventar um futuro de progresso para evitar o colapso desta ideia. E isso, segundo ele, exige equilibrar o conflito entre as lógicas democrática e capitalista.

“Existiu, até hoje, um regime democrático não capitalista? Não. Vai existir? Eu não sei. Alguém poderá elaborar uma proposta nesta direção? É possível”, reflete. “[Contudo] a lógica capitalista e a lógica democrática não são similares. Funcionam com princípios diferentes. Eu diria, em termos muito simplistas, [que] o capitalismo tende a produzir desigualdades e valoriza o indivíduo, e a democracia procura mais igualdade e mecanismos de solidariedade”, explica.

“Não há nada de errado com a ideia de conflito entre capitalismo e democracia. O problema é como você organiza esse conflito”, conclui.

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