Economia é questão “nevrálgica” nos protestos na América Latina

Para professor, modelo produtivo de exportação de produtos primários não gera benefícios amplos

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No momento em que governos de direita e de esquerda são alvos de protestos populares na América Latina, o posicionamento ideológico dos mandatários se revela menos relevante para entender o que ocorre na região, mantendo-se à sombra de uma questão de caráter estrutural para a qual nenhum país latino-americano ainda encontrou uma solução: o desenvolvimento econômico.

Essa é a síntese da avaliação do professor do curso de Relações Internacionais das Faculdades Integradas Rio Branco e doutor pelo Departamento de Ciência Política da Universidade de São Paulo (USP), José Maria de Souza Júnior, em entrevista ao UM BRASIL, iniciativa da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP), realizada em parceria com o InfoMoney.

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De acordo com Souza Júnior, as recentes manifestações vistas no Chile, na Colômbia, na Bolívia e na Argentina – além das situações política, econômica e social da Venezuela –, têm em comum, a despeito das peculiaridades de cada nação, o flagelo do desenvolvimento sul-americano.

“Essa crise que vamos vivendo tem uma característica estrutural do nosso modelo produtivo, da nossa participação no comércio exterior, da nossa falta de cultura democrática. A América Latina é um continente com suas diferenças importantes, mas, em geral, tem muita desigualdade e é fornecedora de produtos primários para o comércio internacional, e isso não consegue gerar benefícios para setores da sociedade de uma forma ampla”, explica.

“Existe uma questão democrática, existe uma reivindicação por mais participação, mas entendo que a percepção do ganho econômico é mais nevrálgica para esse processo [de protestos pelo continente]”, complementa a explicação.

Segundo o professor, na América Latina, protestos oriundos de aumentos de preços de combustíveis e de tarifas de transporte público, a exemplo do Brasil em 2013, são recorrentes, o que evidencia a sensibilidade do aspecto econômico como catalisador dos movimentos nas ruas. Contudo, ele aponta que, em geral, as massas são manipuladas por grupos de interesse.

“A movimentação das elites políticas é o que promove, no meu entender, a instabilidade. Então, quando não se consegue gerar crescimento e emprego, as elites se movimentam, e quem vai ser a liderança do país é uma figura que elas topam e patrocinam com seu capital político, às vezes [até mesmo] com recursos financeiros”, analisa.

Por isso, ele indica que a polarização ideológica na região, no que diz respeito à implementação de políticas públicas, é menos antagônica do que parece. “Entendo que as elites políticas tenham que cada vez mais se preocuparem em ser inclusivas dos pontos de vista prático e real, não do ponto de vista retórico, de narrativa”, comenta.

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De todo modo, Souza Júnior aponta que, em função da frágil posição econômica latino-americana no mundo, marcada pelo constante risco de retroceder em períodos menos favoráveis, é difícil “prever o que vai reverberar ou resultar em um protesto”.

“Precisamos entender que as parcelas da sociedade precisam ser incluídas tanto no processo decisório, quando falamos de democracia, quanto no processo de distribuição de benefícios. Então, quando se faz política redistributiva – tirar de um grupo e colocar no outro –, isso causa uma série de conflitos”, conclui.

UM BRASIL

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