Década perdida: freios de mão levaram Brasil à recessão profunda

Economista Laura Carvalho comenta, em entrevista ao UM BRASIL, os fatores que levaram o País do boom à crise econômica

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Passados cerca de cinco anos do início da recessão que resultou em uma queda do PIB de mais de 7% entre 2015 e 2016, o País ainda tenta recuperar a força da atividade econômica tendo como plano de fundo uma inflação baixa (3,29% previstos para 2019) e com a taxa básica de juros em 5%, com sinalização de mais uma queda – um cenário inverso ao de 2015.

Ainda assim, o ambiente econômico não impulsionou os índices anuais de crescimento, que devem registrar expansão de menos de 1% em 2019, segundo o Relatório Focus, do Banco Central. Para a economista Laura Carvalho, há um erro que se estende desde a época dos registros de recessão técnica: achar que o que anima o mercado irá animar a economia real.

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Em entrevista ao UM BRASIL, iniciativa da FecomercioSP, Laura aprofunda a análise sobre o boom e a estagnação econômica – fatores anteriores à crise e que marcaram essa década – a qual a economista caracteriza como economicamente perdida.

“Em um ambiente com a economia e com as vendas desacelerando, a ideia de que os ajustes por si só gerariam confiança e de que os empresários decidiriam expandir a capacidade produtiva não está de acordo com os princípios básicos de determinação de investimentos em capital produtivo”, pontua ela.

Na entrevista, Laura comenta fatores externos que influenciaram no resultado positivo do PIB na década passada, como o boom nos preços de comodities como petróleo, minério de ferro e soja, benefício direto da expansão chinesa.

Ela ressalta que isso deu uma margem mais confortável para os gastos públicos, em razão do aumento da arrecadação, que possibilitou um conjunto de políticas que estimularam o mercado interno, tanto em relação a consumo quanto a investimentos.

“Chegamos a um ponto em que o cenário internacional se reverteu, e, junto com isso, houve também uma mudança de orientação da política econômica que abandona o pilar de investimentos públicos e passa a apostar em uma ideia de desonerar e dar incentivos via crédito”, diz Laura.

Ela ressalta que essa mudança visava reduzir os custos de uma indústria que conseguiu sobreviver desde a abertura comercial dos anos 1980 e 1990, com desvalorização do Real para tentar aumentar a competitividade desses setores, mas sem almejar o desenvolvimento de novos polos industriais.

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“Essa foi uma opção equivocada, já que o governo na época acabou abandonando esses investimentos diretos em infraestrutura que tinham papel importante e que passaram a ficar estagnados entre 2011 e 2014”, comenta. Outras políticas custosas foram implementadas, como as desonerações aplicadas a vários setores produtivos, diz a economista.

“Na prática, as empresas brasileiras estavam vendendo menos e a capacidade ociosa estava aumentando. Então é compreensível que, do momento em que a economia começou a desacelerar, os investimentos não vieram, mesmo com os incentivos; os empresários estavam preocupados em pagar as dívidas contraídas antes”, lembra.

A economista também aponta outro fator para entender a crise: dado o fim do ciclo de expansão, seguido por estagnação e por queda nos indicadores da economia – com inflação acima da meta até 2016 –, os governos apostaram em um reajuste fiscal rápido e profundo em um cenário recessivo, pontua ela, acreditando que poderiam recuperar o superávit primário em um período curto.

“Esse ajuste foi desproporcionalmente realizado pela via do corte de investimentos públicos – ali [em 2015], nós começamos algo que até agora não acabou, um corte justamente no elemento com maior impacto multiplicador e que, no longo prazo, mais afeta os investimentos privados em um País com uma carência de infraestrutura enorme. É [uma junção desse] jeito de se fazer o ajuste junto de uma política do Banco Central de aumentar as taxas de juros de forma excessiva. Foram puxados vários freios de mão ao mesmo tempo, nos levando para a segunda maior recessão em profundidade – e para a mais lenta recuperação – da história”, pondera Laura.

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