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Crise, criminalidade e políticas de gênero são pais do populismo de direita brasileiro

Richard Lapper, jornalista e consultor especializado em América Latina, faz um diagnóstico do espectro político que atualmente está no poder no País

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Apesar de políticos de direita terem ascendido ao poder em diversas partes do mundo na década passada, o Brasil, com base em uma confluência de insatisfações sociais, gerou uma versão própria deste espectro político. De acordo com o jornalista e consultor especializado em América Latina, Richard Lapper, a crise econômica do biênio 2015-2016, o aumento da criminalidade e a aversão a políticas de gênero formaram o núcleo do que ele chama de “populismo de direita brasileiro”.

Em entrevista ao UM BRASIL, realizada em parceria com a Revista Problemas Brasileiros (PB), ambos realizações da FecomercioSP, como parte da série Brasil Visto de Fora, Lapper frisa que, diferentemente da Europa, onde o apoio à direita ecoa especialmente em medidas contra a migração em massa, o que potencializou a escalada deste viés ideológico no Brasil foi a recessão da década passada.

Além disso, segundo ele, em meio à crise, afloraram os desejos de parte da sociedade por uma postura linha-dura do Estado contra o crime organizado, haja vista o aumento da violência no País, e de obstrução de políticas de gênero, liderada pela comunidade evangélica em expansão. Deste modo, estes grupos se uniram na formação da direita populista.

“A reação ao ambientalismo, à política de gênero, à criminalidade e aos direitos humanos, todas estas coisas tendem a estimular a direita”, sintetiza Lapper.

Tendo vivido no Brasil de 2002 a 2008 e dedicado 25 anos de carreira ao jornal britânico Financial Times, no qual ocupou o cargo de editor para a América Latina, Lapper lançou, recentemente, o livro Beef, Bible and bullets: Brazil in the age of Bolsonaro (“Boi, Bíblia e balas: o Brasil na era Bolsonaro”, em tradução livre, sem edição em português).

Ele comenta que o apoio de cristãos evangélicos a políticos de direita, como o atual presidente do País, é um fenômeno recente.

“Os evangélicos não costumam apoiar a direita. Muitos apoiam reformas progressivas e medidas de bem-estar social. Em 2002, as igrejas evangélicas apoiaram Lula, eram aliadas do PT. Mas não gostam nada das políticas de gênero. Então, em um sentido amplo, junto com os católicos, eles censuram o aborto. Esse é um ponto em comum. Qualquer movimento que legalize o aborto é sempre complicado na América Latina, por causa da força do catolicismo. Acho que não todos, mas a maioria dos evangélicos também é contra”, analisa.

Lapper pontua ainda que a descrença na política, especialmente a partir da Operação Lava Jato, e a presença do conservadorismo em “áreas remotas e pobres” compõem a rede de apoio à nova direita brasileira.

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“O Brasil precisa iniciar algum tipo de reforma para tornar a política e os partidos mais significativos para as pessoas. Um dos efeitos da realocação da capital para Brasília é que os políticos são vistos como uma espécie de grupo à parte por muitos brasileiros. Estão muito afastados e não se conectam com a vida das pessoas. Infelizmente, algumas das reformas que estão sob consideração provavelmente piorarão isso. Portanto, acho que algum tipo de reforma política é necessária para o Brasil”, indica o jornalista.

Um Brasil

Convida empresários, especialistas, pensadores e acadêmicos de todo o mundo para análises precisas e aprofundadas sobre as questões mais importantes nos cenários econômico e político do País. Uma realização da FecomercioSP, a plataforma UM BRASIL reúne uma gama variada de visões, trabalha pelo aprimoramento do senso crítico do cidadão brasileiro e funciona como um hub plural de conexão de ideias transformadoras.