Aproveitando a liquidez: mais reformas e menos estímulos

O economista e consultor da FecomercioSP, André Luiz Sacconato, afirma que o Brasil pode aproveitar o excesso de recursos decorrente da diminuição do crescimento mundial para investir, sobretudo em infraestrutura

por André Luiz Sacconato*

O mundo vem se tornando cada vez mais pessimista. Uma nova recessão, ou pelo menos uma diminuição relevante do crescimento, parece ser a aposta do mercado financeiro mundial no momento.

Desse cenário, algumas perguntas se sobressaem. A primeira é: esse temor se justifica? A segunda (e mais importante) é: como o Brasil fica nesse novo cenário? É possível tirar proveito dessa situação? Dá para ver uma oportunidade nessa potencial crise?

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Para saber qual é o fundamento desse temor, temos, primeiro, que nos basearmos no histórico do Produto Interno Bruto (PIB) dos Estados Unidos. Ele claramente funciona em ciclos, e estes têm duração parecida, até surgir um período de “freio de arrumação”. Esse ciclo de crescimento já é o maior do pós-guerra, e os temores de um ajuste aumentam. Os estímulos fiscais do governo Trump já dão sinais que estão se esgotando. Estimativas do professor Robert Barro, de Harvard, mostram que o efeito sobre o PIB de 2018 dos estímulos foi de 1,1% (do crescimento de 3,2%), e que o efeito que deve sobrar para 2019 e 2020 não deve ser nada mais do que 0,2%.

Se não bastassem os fins do ciclo e do efeito dos estímulos, o timing coincidiu com algumas más notícias na economia mundial, uma delas é a guerra comercial e tecnológica com a China. A diminuição das exportações e importações com o país asiático tende a reforçar o viés negativo do PIB e do crescimento americano nos próximos anos. Isso sem contar a desaceleração natural do crescimento chinês, efeito direto da mudança do modelo de exportação e do investimento em infraestrutura para um modelo de economia com tecnologia de ponta.

Além disso, a guerra comercial tem efeitos em outros países: a Alemanha, tão industrial e dependente do comércio externo, já começa a mostrar sinais de enfraquecimento da indústria, que deve contaminar a Europa – já que o país é um grande importador de países da região. Soma-se a isso o impasse sobre o Brexit na Grã-Bretanha e as severas crises políticas na Itália e na Turquia.

Todos esses fatores já influenciaram o mercado financeiro, que mostra uma preocupação mais forte com a queda da economia. O índice de probabilidade de recessão já atingiu níveis parecidos com do pré-crise, em 2008, e os rendimentos dos títulos de dez anos do Tesouro já estão com rendimento mais baixo que os de três meses, mostrando excesso de demanda por proteção em títulos mais longos, típicos de períodos pré-recessão. Somados a isso já temos hoje, no mundo, mais de U$ 16 trilhões investidos em títulos com rendimento negativo, ou seja, com rendimentos que não batem a inflação, também um sinal de que investidores buscam segurança até mais do que rendimento.

O resultado dessa possível recrudescência do crescimento é que vamos ver mais uma rodada de incentivos à economia, tanto monetários quanto fiscais. Bancos centrais dos EUA, da Europa e da China já começam a realizar movimentos de baixas de juros e sinalizam uma nova onda de compra de ativos. Por outro lado, a aceitação de investidores de baixas taxas de juros pode incentivar os países a fazer política fiscal expansionista (aumento de gastos do governo) com expansão de dívida. O resultado prático desse processo será um mundo cheio de recursos e poucas opções de investimento com rendimentos razoáveis, ou seja, teremos um mundo de investidores buscando algo que possa lhe dar um rendimento satisfatório.

Como o Brasil deve ficar em todo esse movimento? Do presente, todos já sabemos. Saímos da maior recessão da nossa história, fruto de uma política econômica irresponsável e inconsequente e, agora, ai ajustar a bagunça, paramos de cair – mas, ainda, como imaginado, estamos crescendo pouco.

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Apesar do cenário internacional apontar para recessão e crescimento menores no mundo ter o potencial de, no curto prazo, gerar turbulências na economia brasileira em razão de queda no preço de commodities e no valor das exportações, o efeito em médio e longo prazos pode ser muito benéfico.

O aumento da liquidez internacional, em resposta à diminuição do crescimento mundial, pode gerar o excesso de recursos que o Brasil precisa para investir, principalmente em infraestrutura. E conseguiríamos captar esse dinheiro caso “arrumássemos a casa”, tornando o Brasil mais liberal e aberto e menos burocrático.

É nesse ponto que estamos caminhando bem desde o governo Temer: reformas liberalizantes e desburocratizantes. Podemos citar várias aqui que já aconteceram:

1. Criação da TLP em vez da TJLP para limitar subsídios do BNDES;
2. Reforma Trabalhista;
3. Recuperação da credibilidade do Banco Central;
4. Reforma da Previdência;
5. Acordo com União Europeia;
6. MP da Liberdade Econômica;
8. Quebras do monopólio do gás;

E outras que já estão em avançado processo:
1. Intenção de baixar alíquotas de importação de alguns produtos.
2. Reforma Tributária em discussão;
3. Trabalho intenso no relatório “Doing Business” (Seme).

Estamos organizando a casa na hora certa, a fim de aproveitar a liquidez que virá. Ainda mais se percebermos que as potenciais alternativas a investimentos estão em situações política e e/ou econômica bem complicadas, como Índia, Turquia, México e Argentina. Se conseguirmos estruturar bons projetos de investimento públicos (PPPs, PPIs e privatizações) em infraestrutura e projetos privados de consumo para mercado interno e exportação, temos um futuro positivo pela frente.

Somado a isso temos um cenário positivo monetário, com inflação controlada e juros em baixa, tranquilidade no lado externo da economia, reservas altas e investimento externo direto mais do que compensando o déficit em transações correntes.

E não podemos nos esquecer que os índices de confiança do empresário e consumidor tiveram altas significativas no segundo semestre de 2018 – antes de cair com a diminuição da velocidade das reformas. Isso mostra que os agentes econômicos brasileiros também só esperam um cenário menos nebuloso para investir.

Assim, o governo deve resistir à pressão (e à tentação) para aumento de gastos, flexibilização do teto de gastos ou novos estímulos fiscais, e apenas manter a agenda de reformas. Isso, não sem turbulência, garantirá crescimento sustentável futuro e não apenas “voos de galinhas” seguidos por décadas perdidas. Torçamos para que esse seja o caminho.

*André Luiz Sacconato é economista e consultor Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo (FecomercioSP)

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