O que está por trás do caso Evergrande?

O arrefecimento do setor de construção na China diminuiria a demanda por commodities como minério de ferro, utilizados em grande escala no segmento, e esse fator tem reflexos em todo o planeta

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“Como uma grande empresa do ramo imobiliário da China pode derrubar as principais bolsas pelo mundo?” Essa é a pergunta que investidores de todo o planeta se perguntaram na última segunda-feira (20).

Para quem não conhece, a Evergrande Real Estate é uma empresa chinesa fundada em 1996 que já concluiu mais de 1.300 projetos imobiliários em 280 cidades, atendendo mais de 12 milhões de chineses.

A empresa faz parte do Evergrande Group, uma holding que tem um total de ativos estimados em mais de R$ 1,9 trilhão ou US$ 360 bilhões. O robusto grupo totaliza em vendas anuais cerca de R$ 600 bilhões com alguns ramos de atuação que envolvem automóveis, tecnologia, saúde, entre outros.

Até aí tudo bem, temos o lado positivo da história dessa companhia. Mas e o outro lado da moeda?

Segundo os principais sites de notícias, a sua dívida total gira em torno de US$ 300 bilhões e uma das parcelas dessa dívida vence nesta quinta-feira (23). No segmento, é natural que as empresas tenham um alto grau de endividamento por conta da natureza do business: constrói-se um empreendimento e depois o vende. Mas a chinesa ultrapassou os limites do bom senso e o período de pandemia coroou a má fase da empresa.

A primeira luz amarela foi acessa em agosto de 2020, quando a construtora pediu socorro ao governo da sua cidade sede pois não teria recursos para pagar as dívidas que venceriam no primeiro mês deste ano. Para aliviar a situação, um investidor da empresa promoveu o alívio e alongou o prazo de pagamento de US$ 13 bilhões.

Fora isso, a Evergrande também elaborou um projeto de readequação econômica que tinha como objetivo o corte de US$ 100 bilhões da dívida até meados de 2023, mas até agosto havia cortado apenas US$ 8 bilhões.

Tudo foi piorando até o momento em que uma das agências de risco mais famosas, a Fitch, afirmou que algum tipo de calote seria “provável”.

O quão grande isso pode ser?

Vamos entender que, quando um bloco dessa magnitude demonstra fraqueza, todas as organizações ao redor do setor são colocadas à prova, incluindo empresas que servem como clientes, fornecedores, instituições financeiras, dentre outras.

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Uma redução da retomada econômica — algo já sinalizado nos dados econômicos divulgados recentemente — pode diminuir a demanda por imóveis. Isso geraria um aumento do desemprego na China, visto que o setor de construção é um dos que mais emprega em todo o mundo.

Além disso, o arrefecimento do setor diminuiria a demanda por commodities como minério de ferro, utilizados em grande escala no segmento, e esse fator tem reflexos em todo o planeta.

Tendo em vista essa vasta corrente de insucessos, um calote por parte da Evergrande extrapolaria a barreira do segmento e geraria um efeito cascata no mercado financeiro chinês — que é um dos seus maiores financiadores. Só para se ter uma dimensão do problema, a construção civil é responsável por 7% do PIB da China e, se envolvermos ainda os efeitos indiretos e diretos chegaria a algo próximo de 25% do PIB.

Ok, mas onde a bolsa brasileira, americana etc. entram nisso?

Falamos anteriormente que o preço do minério de ferro tem apresentado forte queda nos últimos dias, por conta do ritmo lento de melhora da economia chinesa e das pressões do governo chinês para limitar a produção de aço. Essa limitação é uma tentativa de reduzir as emissões de carbono do país. A queda do minério acaba por interferir em empresas do segmento em todo o mundo.

No caso do Brasil, as mais afetadas são a mineradora Vale e as siderúrgicas Gerdau, CSN e Usiminas, que caíram fortemente na B3 na última segunda-feira. Na terça-feira (21) mostrou tímida recuperação.

Outro ponto crítico de toda essa situação é que, com o aumento da aversão ao risco, algumas economias tendem a se retrair e, com isso, a atividade também diminui — interferindo diretamente no consumo de outras commodities como o petróleo —, que novamente reflete numa das nossas gigantes da B3 que possui o segundo maior volume financeiro: a Petrobras.

Qual a saída?

Tendo em vista a postura do governo chinês nos últimos eventos dessa magnitude é de se esperar que haja uma interferência pública nessa situação. Só não sabemos se o governo vai salvar a Evergrande e, por tabela, os seus credores ou se vai deixar a Evergrande sozinha nessa, mas não deixará os agentes financeiros sem proteção.

Copom e Fomc: mercado nacional

Para concluir, a semana ainda traz apreensão dos investidores em relação às decisões de política monetária aqui no Brasil e nos EUA nesta quarta-feira, 22. A expectativa é se o Fed dará alguma sinalização quanto ao corte dos estímulos na economia americana.

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Fora isso, ainda temos a agenda de reformas sendo atrasada, a corrida eleitoral se aproximando rapidamente, o aumento recente do IOF, a situação dos precatórios e as disputas entre os poderes. Tudo isso, claro, acaba jogando mais lenha na fogueira.

Resumindo, vamos aguardar as cenas dos próximos capítulos bem atentos ao que está por vir.

 

Filipe Fradinho

É analista CNPI da Clear Corretora, formado em administração de empresas pela PUC-RIO. Acumula passagens por empresas como Ágora Corretora, Órama e Ativa Investimentos. Atuou como trader profissional, operando Day Trade e Swing Trade de Ações, mas se especializou em operações de Day Trade no mercado futuro de índice e dólar. Atualmente, faz parte do #TeamClear e é responsável pela sala educacional de Análise, a EducaClear, no canal da Clear no YouTube.