Setembro Amarelo: o que as redes sociais têm a ver com a saúde mental dos jovens

Uma geração inteira aprendeu a socializar, se comparar e buscar reconhecimento dentro de ambientes desenhados para capturar atenção, não necessariamente para proteger quem cresce neles

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Um adolescente de 15 anos hoje passa mais tempo dentro de um aplicativo do que dentro da própria escola. Ninguém planejou isso conscientemente.

A mudança aconteceu aos poucos, tela após tela, notificação após notificação, até se tornar parte da rotina.

O curioso é que raramente perguntamos o que esse tempo está fazendo com quem o vive. Mais raro ainda é perguntar por que tantos jovens preferem sofrer em silêncio a admitir que precisam de ajuda.

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Um segundo território

Segundo o relatório Digital 2026, produzido pela We Are Social e Meltwater, brasileiros com 16 anos ou mais passam, em média, 53 horas e 30 minutos por semana consumindo mídia online. Mais de 29 dessas horas são dedicadas exclusivamente às redes sociais.

Trinta horas por semana não são apenas uma estatística.

É tempo suficiente para que boa parte da adolescência aconteça ali. Amizades surgem nesse espaço, vínculos se fortalecem. Mas também é ali que aparecem rejeições, disputas por pertencimento e conflitos que muitas vezes não encontram pausa.

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A Organização Mundial da Saúde estima que um em cada sete adolescentes de 10 a 19 anos convive com algum transtorno mental e que o suicídio é a terceira principal causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos.

Não existe uma explicação única para esse cenário, mas cresce entre pesquisadores a percepção de que certos ambientes online intensificam vulnerabilidades que já existiam antes da conexão permanente.

Quando a agressão não tem hora para acabar

Poucos fenômenos ajudam a entender essa realidade tão claramente quanto o cyberbullying.

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Durante décadas, conflitos entre colegas ficavam limitados a espaços e horários definidos. O fim da aula costumava representar uma pausa.

Hoje, uma mensagem ou um vídeo constrangedor pode acompanhar a vítima para dentro de casa e permanecer acessível por tempo indeterminado.

Há algo particularmente cruel nessa dinâmica: sua permanência.

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Uma humilhação presencial pode desaparecer da memória de quem a testemunhou. Um conteúdo publicado online pode reaparecer meses ou anos depois, justamente quando a pessoa acreditava ter deixado aquele episódio para trás.

Nem só de dano vive a tela

Seria simplista enxergar as redes sociais apenas como ameaça.

A própria Associação Americana de Psicologia reconhece que esses ambientes também funcionam como espaços de apoio e troca de experiências. Para jovens que não encontram compreensão em casa ou na escola, a internet pode ser uma das poucas oportunidades de encontrar pessoas com experiências semelhantes.

A tecnologia raramente cria comportamentos do zero. Na maior parte das vezes, ela amplia dinâmicas que já estavam presentes na sociedade, tornando-as mais visíveis, mais rápidas e mais intensas.

O silêncio antes do algoritmo

Talvez o dado mais desconfortável desta discussão não esteja nas telas, mas no que acontece antes delas.

Um estudo de Fukuda e colegas, publicado na revista Estudos de Psicologia da PUC-Campinas, identificou o medo do julgamento e do estigma como uma das principais barreiras para que jovens procurem ajuda em questões relacionadas à saúde mental.

Em outras palavras, muitos adolescentes continuam acreditando que admitir sofrimento pode ser mais difícil do que suportá-lo.

Em 2022, uma enquete do Unicef com a Viração, aplicada a mais de 7,7 mil adolescentes e jovens brasileiros, apontava na mesma direção. Metade sentiu necessidade de pedir ajuda, mas 40% desse grupo não recorreu a ninguém.

Entre os que buscaram apoio, amigos apareceram com muito mais frequência do que profissionais especializados. A Agenda Jovem Fiocruz reforça o quadro em seu Informe II: Saúde Mental, com dados do SUS entre 2022 e 2024: jovens de 15 a 29 anos têm as maiores taxas de internação por saúde mental do país, mas são os que menos acessam a atenção primária antes da crise chegar.

O algoritmo não cria esse silêncio sozinho. Mas comparação constante, exposição permanente e busca por validação alimentam-no diariamente.

O que a métrica de sucesso esconde

Durante anos, o sucesso das plataformas foi medido por indicadores como engajamento, retenção e tempo de permanência. Essas métricas contam o crescimento da economia digital.

O que elas não conseguem medir com a mesma facilidade é o impacto emocional produzido por ambientes que transformam atenção em recurso econômico.

O Brasil possui uma rede de apoio que muitas vezes permanece invisível para quem mais precisa dela.

O Centro de Valorização da Vida (CVV) atende gratuitamente e de forma sigilosa, 24 horas por dia, pelo telefone 188, ou pelo site cvv.org.br, que reúne chat e e-mail (apoioemocional@cvv.org.br), além de atendimento presencial em cerca de 90 postos pelo país. O CVV realiza cerca de dois milhões de atendimentos por ano.

Setembro Amarelo não pede respostas prontas, pede presença.

Talvez o dado mais importante deste texto não seja nenhum dos números acima, mas uma pergunta simples que alguém perto de você pode estar esperando ouvir: como você está, de verdade?


Tiago Guimarães é especialista em riscos cibernéticos, privacidade e governança digital no mercado financeiro. Atua como responsável por programas de proteção da informação, segurança digital e compliance com passagem em organizações de alta complexidade e forte exposição regulatória. Como colunista do InfoMoney, Tiago analisa os impactos da transformação digital, da inteligência artificial e das ameaças cibernéticas sobre empresas, investidores e o sistema financeiro, traduzindo temas técnicos em reflexões estratégicas para quem lidera.