Por mais bolsos nas roupas femininas

Também percebo cada vez mais mulheres se interessando por educação financeira, e isso é ótimo. Não existe igualdade de gênero sem igualdade de riqueza

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Você já percebeu que as roupas femininas têm menos bolsos do que as masculinas? A maioria dos homens provavelmente nunca se deu conta disso.

Há alguns séculos, as roupas não tinham bolsos. Tanto homens quanto mulheres carregavam seus pertences em pequenas bolsinhas amarradas na cintura. Apenas no século 17 começamos a costurar bolsos nas roupas masculinas.

Já as roupas femininas continuaram sem bolsos até os anos 1920, acredita? Hoje, as roupas femininas possuem menos bolsos e eles, ainda por cima, são menores.

Uma pesquisa feita pelo site americano Pudding identificou que, em média, os bolsos dos jeans femininos são 48% mais curtos e 6,5% mais estreitos do que os masculinos.

Será que isso se deve a algum domínio masculino na indústria da moda? Ou os estilistas acreditam que a estética é mais importante do que a função da roupa?

Eu não entendo de moda, mas, nas minhas pesquisas para este artigo, identifiquei que um conhecido estilista, Christian Dior, afirmou nos anos 1950 que “as roupas masculinas têm bolsos para de fato guardar coisas, enquanto as roupas femininas possuem bolsos apenas por decoração.”

De fato, nossa sociedade reforça estereótipos e cultiva crenças. Um dos estereótipos é o de que as mulheres devem ser tratadas como objetos de desejo e se preocupar mais com sua aparência do que com suas necessidades, mesmo sendo participantes iguais em uma sociedade.

Será que não conseguimos criar bolsos em roupas bonitas? Talvez a indústria de bolsas femininas seja muito lucrativa e a criação de roupas femininas com bolsos acabe matando esse negócio, criando uma geração de mulheres que guardam coisas em bolsos em vez de usar bolsas?

Para além da minha reflexão sobre a moda, penso que essa é uma questão mais profunda. Talvez bolsos possam significar liberdade e, historicamente, as mulheres não tiveram tanta liberdade.

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Nós ainda vivemos consequências graves de uma sociedade que não estimula as mulheres a desenvolver uma relação saudável com o dinheiro. Ainda reforçamos crenças equivocadas.

Grande parte das pessoas acredita, por exemplo, que as mulheres precisam de mais ajuda do que os homens para administrar seu dinheiro.

Outra crença completamente equivocada é a de que as mulheres gastam mais do que os homens. Chega a ser normal ver uma mulher em um filme passando seu cartão de crédito. Na verdade, os homens tomam decisões de compras compulsivas na mesma proporção que as mulheres.

Em 2020, uma mulher que mora em um grande centro urbano talvez nunca tenha questionado seu direito de abrir uma conta bancária, de possuir seu apartamento ou mesmo de comprar uma cerveja em um bar.

Mas há pouco tempo não era assim. Sabiam que ainda nos anos 1970, em um país desenvolvido como os Estados Unidos, as mulheres precisavam de um homem para ser fiador de qualquer empréstimo bancário?

E pasmem: a renda e a reputação desse homem não importavam, pois o banco considerava qualquer homem mais responsável do que uma mulher para administrar um empréstimo.

No Reino Unido, foi apenas em 1975 que as mulheres tiveram o direito de abrir uma conta bancária em seu próprio nome, sem pedir permissão ao marido!

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Na Irlanda, também até meados dos anos 1970, as mulheres não tinham nem direito a adquirir uma casa própria e, nos EUA, elas podiam ser legalmente demitidas dos seus empregos por engravidar.

Ainda há um longo caminho para a igualdade de bolsos porque em pleno século 21, nos EUA, o país mais rico do planeta, cerca de duas em cada três pessoas que ganham um salário mínimo são mulheres, ao mesmo tempo em que elas detêm mais da metade da riqueza do país e tomam cerca de 80% das decisões de compra. Não é estranho?

Bem, apesar de tudo isso, a sociedade está avançando. Pouco a pouco, mas está. Por exemplo, no Brasil, nos últimos cinco anos, o número de mulheres investindo na Bolsa saltou de 140 mil para cerca de 800 mil.

Também percebo cada vez mais mulheres se interessando por educação financeira, e isso é ótimo. Não existe igualdade de gênero sem igualdade de riqueza.

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Thiago Godoy

É head de educação financeira da XP Inc. e especialista em psicologia do dinheiro e bem-estar financeiro. É mestre pela FGV – Tese em Educação Financeira, especialização em Sustentabilidade (University of British Columbia), tem MBA em Marketing (FGV) e graduação em administração (UFJF). Foi diretor de mobilização de recursos e relações governamentais da Associação de Educação Financeira do Brasil, atuando especialmente com populações de baixa renda e escolas públicas. Também atuou com desenvolvimento institucional na Dialogue Direct e Children International (EUA), Fundação Vida Plena (Bolívia), Projuventude e Comitê para Democratização de Informática (Brasil). Instagram: @psifinanceiro