O presente está grávido do futuro

Problemas de saúde mental são uma dor invisível que começa a aparecer. Eles podem moldar a forma como nossas mentes funcionam, alterando emoções e comportamentos, com consequências negativas em todas as áreas da vida - inclusive a financeira

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estetoscópio e notebook
(Shutterstock)

Lembro-me bem da Páscoa no ano passado. Recém inseridos em lockdown, estávamos assustados com tudo o que acontecia. Logo em seguida, passamos por um período de negação da doença, acreditando que aquilo tudo iria acabar em algumas semanas. Várias pessoas estavam com viagem agendada, mas ainda relutavam em cancelar qualquer coisa.

Chegamos à Páscoa de 2021. Quem imaginaria que, um ano inteiro depois, estaríamos em um momento tão crítico? Que o Brasil lideraria o número diário de mortes por Covid-19 em todo o mundo?

Você, que está lendo esse texto, provavelmente perdeu algum amigo ou algum familiar para essa doença. Essa situação é diferente de qualquer coisa que qualquer um de nós já passou. E isso tudo é grave e muito triste.

Mas, sim, vai passar. E quem fica, vai continuar tocando a vida. No futuro, falaremos desse acontecimento para nossos filhos, nossos netos. Assim como meu avô falava de como eram as coisas durante a Segunda Grande Guerra.

Como construiremos o futuro?

Falar do que aconteceu no passado é um exercício sábio para que não sejamos condenados a repeti-lo, certo? Mas e o futuro? Como construiremos o que virá?

O célebre iluminista Voltaire dizia que “o presente está grávido do futuro”, frase genial que, acredito, é cirúrgica em um momento como esse.

Existe uma dor invisível que está começando a aparecer no radar. Os problemas relacionados à saúde mental fazem parte da segunda maior causa de incapacidade no país. Estão entre as maiores causas de afastamento.

Acredito que esse número ainda seja subestimado, uma vez que as pessoas não conseguem assumir que estão com algum problema relacionado à saúde mental. Como se mostrar qualquer vulnerabilidade fosse inaceitável.

O sofrimento não é, ou pelo menos não deveria ser, uma falha, uma fraqueza, certo?

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A ansiedade, por exemplo. É tão normalizada na sociedade atual que mal sabemos que grande parte dos ansiosos sofre consequências graves com o passar do tempo. Em que ponto sabemos exatamente que o copo entorna? Qual o limite de estresse que uma corda aguenta antes de arrebentar?

Saúde mental merece atenção

Em pesquisa realizada pela XPEED School em novembro de 2020, identificamos que 77% das pessoas possuem pelo menos algum sintoma de ansiedade financeira. Nas empresas, cerca de 50% das pessoas estão com quadro de ansiedade, muitas delas com sintomas graves.

Não é vergonha nenhuma você identificar que a sua ansiedade exacerbada, sua insônia, palpitação e outros sintomas são decorrentes de uma queda na sua saúde mental.

O presente está grávido do futuro e não há mais como esconder a barriga.

No dia 7 de abril é comemorado o Dia Mundial da Saúde. É, mais do que nunca, momento de falar de saúde mental. Se tratarmos a saúde mental com a mesma seriedade com que tratamos outras doenças, como o câncer ou as doenças cardíacas, teremos uma resposta mais efetiva sobre os sintomas que já estamos percebendo.

Os problemas relacionados à saúde mental podem moldar a forma como nossas mentes funcionam, podem alterar emoções e comportamentos, aumentando nossa impulsividade e trazendo consequências negativas em todas as áreas da vida.

Ano passado, escrevi sobre a estreita ligação entre a saúde mental e a saúde financeira. Não faltam dados, e contra dados não há argumentos.

Sabendo disso, é hora de agir. É hora de colocar as cartas na mesa, expor as vulnerabilidades. Do contrário, faremos errado novamente, mantendo uma mentalidade tacanha e negacionista.

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Se o presente está grávido do futuro, precisamos ser pais desse nosso futuro – e não filhos do nosso passado.

Thiago Godoy

É head de educação financeira da XP Inc. e especialista em psicologia do dinheiro e bem-estar financeiro. É mestre pela FGV – Tese em Educação Financeira, especialização em Sustentabilidade (University of British Columbia), tem MBA em Marketing (FGV) e graduação em administração (UFJF). Foi diretor de mobilização de recursos e relações governamentais da Associação de Educação Financeira do Brasil, atuando especialmente com populações de baixa renda e escolas públicas. Também atuou com desenvolvimento institucional na Dialogue Direct e Children International (EUA), Fundação Vida Plena (Bolívia), Projuventude e Comitê para Democratização de Informática (Brasil). Instagram: @papaifinanceiro