Neste Dia das Crianças, ensine aos seus filhos o verdadeiro “valor do dinheiro”

É importante ficar atento e buscar uma metodologia adequada para ensinar sobre dinheiro de acordo com a faixa etária da sua criança

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(Shutterstock)

Você quer ensinar seus filhos a estabelecerem uma relação saudável com o dinheiro? Que bom, esse é um dos maiores presentes que você pode oferecer a eles. Mas é importante ficar atento e buscar uma metodologia adequada para ensinar sobre dinheiro de acordo com a faixa etária da sua criança.

Tenho acompanhado, nos últimos meses, alguns anúncios de programas de “educação financeira para crianças”. Mas eles parecem mais interessados em vender produtos financeiros do que de fato educar os pequenos.

É essencial ensinar seus filhos a terem responsabilidade com o dinheiro, aprenderem a poupar. Você pode, e deve, falar sobre o mercado financeiro para uma criança, mas o caminho até que ela comece a de fato comprar produtos financeiros é um pouco mais longo.

Essa, evidentemente, é a minha visão, pautada em bastante estudo e experiência. Pais e mães podem criar os seus filhos da maneira que quiserem, mas é minha responsabilidade mostrar o que a ciência diz sobre isso.

Existe uma área de conhecimento chamada Psicologia do Dinheiro. Dentro dela, há uma frente que estuda o processo de “socialização econômica”, que entende os hábitos de gastar, guardar, investir e comprar estabelecidos na infância e adolescência.

O estudo da socialização econômica visa averiguar como as crianças aprendem conceitos econômicos, em que estágios, qual a influência dos pais e da escola, entre outros fatores.

Aprenda os conceitos essenciais sobre finanças e comece a investir

Podemos dividir o processo de socialização econômica em três etapas. Dos 3 aos 6 anos, dos 7 aos 13 e após os 14 anos de idade.

As duas primeiras fases são essenciais para que seu filho desenvolva crenças e comportamentos positivos sobre dinheiro. É nesse período que ele pode desenvolver, por exemplo, crenças de aversão ao dinheiro, acreditando, por algum motivo, que ele seja algo ruim, ou crenças de adoração, pensando que dinheiro é a coisa mais importante da vida deles, o que também é bem ruim.

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Dos 3 aos 6 anos, a atenção do seu filho está em tudo. Nessa tenra idade, as crianças são como pequenas esponjas, aprendendo e mergulhando em tudo. Isso significa que eles absorvem muito mais do mundo do que você pensa. Esse é um ótimo momento para apresentar os principais conceitos financeiros que eles podem carregar por toda a vida.

Por exemplo, quando der algum dinheiro para um aniversário ou nas férias, peça que a criança guarde em um cofrinho ou pote transparente. Ao verem a quantidade de dinheiro crescer, ela ficará entusiasmada. Cada vez que você der mais algum dinheiro, use isso como uma oportunidade para contar o que eles já economizaram. Ajude seus filhos a definir a meta de algo que gostariam de usar o dinheiro.

Atividades que ensinam como economizar e a importância da paciência são importantes nesse desenvolvimento inicial, pois mostram que muitas vezes é preciso esperar. Lembre-se de que crianças pequenas têm um período de atenção curto. Por isso, é importante manter seus objetivos em apenas algumas semanas.

Dos 7 aos 13 anos, a atenção deles está nos pais. Essa é uma idade de transição. As crianças observam tudo o que você faz, estão intimamente ligadas aos seus hábitos de consumo. Essa faixa etária constrói seus próprios hábitos e valores a partir do que seus pais fazem. O que seus filhos observam você fazer é muito mais poderoso do que o que eles ouvem você dizer. Contudo, quando eles veem e ouvem a mesma coisa, isso cria uma mensagem muito mais forte.

Ensinar, nessa faixa etária, a diferença entre desejos e necessidades pode ajudar a construir rotinas do dia a dia que irão moldar a forma como eles ganham, economizam e compram. Pesar decisões e ensinar consequências, como “se você comprar isso, não terá dinheiro suficiente para aquilo”, ajuda a ensinar habilidades de orçamento e economia que os preparam para um futuro financeiro de sucesso.

Já a partir dos 14 anos, a atenção da maioria dos adolescentes está voltada para o futuro e, agora sim, eles podem aprender alguns conceitos mais aprofundados que entrarão em jogo quando forem adultos. Nessa etapa, os pais vão precisar investir mais tempo para reforçar mensagens sobre os caminhos que o dinheiro percorre. A essa altura, eles já estão capazes, por exemplo, de entender como funciona o mercado financeiro, suas oportunidades e seus riscos.

Na prática, fale sobre os benefícios de quem acompanha suas contas, busca por descontos, sobre as vantagens de um cartão de débito e as armadilhas que podem acompanhar um cartão de crédito. Explique que um salário é o valor das horas de trabalho durante todo um mês de vida. Ou seja, o dinheiro vem de algum lugar e eles precisam saber sobre essa remuneração em troca do trabalho.

É bom lembrar que o erro faz parte do processo de aprendizagem. Para uma educação financeira eficiente, os jovens precisarão compreender as consequências de seus gastos e outras escolhas. Elas poderão ser negativas ou positivas.

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Segundo a OCDE, a educação financeira pode ser definida como “o processo pelo qual o consumidor melhora sua compreensão de produtos, conceitos e riscos financeiros e, por meio informações e instruções objetivas, desenvolva habilidades e a confiança para se tornar mais consciente dos riscos e oportunidades que envolvem dinheiro, para fazer escolhas conscientes, para saber onde buscar ajuda e tomar outras ações eficazes para melhorar seu bem-estar financeiro”.

Pais e mães, para concluir: à medida que os filhos amadurecem, os comportamentos financeiros vão se solidificando. Aqueles que ensinam educação financeira para crianças devem tomar cuidado para ajudá-los a formar relacionamentos financeiros positivos e construir sua confiança, sem colocar o carro na frente dos bois.

Cuidado para não antecipar a fase adulta em uma criança. Você não quer ensinar seu filho a ser ansioso desde cedo, quer? Essa seria a maior irresponsabilidade com o tempo da sua criança. O tempo de brincar é o tempo de brincar. O tempo de aprender a operar na Bolsa vai chegar. Aliás, não se esqueça de ensinar que as melhores coisas da vida não serão compradas. Feliz Dia das Crianças para todos nós.

Thiago Godoy

É head de educação financeira da XP Inc. e especialista em psicologia do dinheiro e bem-estar financeiro. É mestre pela FGV – Tese em Educação Financeira, especialização em Sustentabilidade (University of British Columbia), tem MBA em Marketing (FGV) e graduação em administração (UFJF). Foi diretor de mobilização de recursos e relações governamentais da Associação de Educação Financeira do Brasil, atuando especialmente com populações de baixa renda e escolas públicas. Também atuou com desenvolvimento institucional na Dialogue Direct e Children International (EUA), Fundação Vida Plena (Bolívia), Projuventude e Comitê para Democratização de Informática (Brasil). Instagram: @psifinanceiro