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Se correr o Hércules pega, se ficar o Minotauro come

Depois da vitória do “não” no plebiscito de ontem e enquanto esperamos algum acordo milagroso de última hora, acredito que seria a hora perfeita para criarem um proverbio estrelando heróis da mitologia grega equivalente a 'se correr o bicho pega, se ficar o bicho come'.

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Terraço Econômico| por Rachel de Sá

Se recorrermos aos tradicionais clichês, a Grécia será sempre aquele lugar onde Hércules viveu como semideus, inventou-se a democracia, e recentemente Merryl Strip rendeu-se às coreografias de Mamma Mia. Entretanto, os últimos meses trouxeram o país ao centro de um novo lugar comum: o debate político econômico.  

Após semanas de reuniões de emergência entre ministros gregos e representantes de seus credores – a famosa Troika (Banco Central Europeu, FMI e Comissão Europeia) – e até a desistência do FMI de participar das negociações, nenhum acordo foi concluído com êxito. Em face à falta de consenso entre a plataforma de esquerda do partido do Primeiro Ministro Tsipras (o Syriza), e condições impostas por credores ao governo grego, incluindo uma reforma previdenciária e aumento de impostos a fim de diminuir o déficit público e a relação entre dívida e PIB, as negociações romperam-se quando credores recusaram-se a prorrogar a dívida por mais um mês.

Diante desse impasse, o governo do Syriza decidiu realizar uma consulta popular sobre o futuro do país: a Grécia deveria ou não aceitar os termos do acordo proposto por seus credores (agora já expirado)? Tal consulta fora realizado ontem (domingo, 05 de julho), e sua resposta foi um sonoro “Não”. Porém, antes de discutirmos as consequências, voltemos ao acordo.

Afinal, qual é a importância de atingir-se esse tal acordo? Desde  2010, quando a eclosão da crise europeia revelou o tamanho da dívida grega e o abismo em que o país se lançava, o país recebe parcelas de um socorro no valor 240 bilhões de euros por parte do FMI e do BCE. Passados cinco anos, a Grécia atingiu o prazo máximo (já previamente estendido) para  quitar a parte de sua dívida com o FMI (1,6 bilhões de euros). 

Entretanto, o período recente não se refletiu em uma bem-sucedida recuperação econômica, nem na melhora dos cofres gregos, deixando o país dependente da última parcela do devido empréstimo (7,2 bilhões de euros) não somente para pagar sua dívida, mas também para manter a solvência de seu sistema bancário.

Neste contexto, até que o plebiscito fosse realizado, o governo grego decidiu decretar feriado bancário de uma semana no país, estabelecer um limite de 60 euros diários para saques em caixas eletrônicos, além de impor medidas de controle de capital, ou seja, restrições a transações financeiras [1]. Para quem acompanhou a situação argentina em 2000, ou mesmo o Brasil no período Collor, a situação é bem similar ao “corralito” e seu equivalente em português. Grosso modo, decreta-se o fechamento dos bancos e a suspensão de atividades bancárias para evitar uma corrida bancária – ou seja, a saída de euros para contas bancárias além das fronteiras do Peloponeso.

Sem essas medidas, os bancos gregos tornar-se-iam insolventes em pouco tempo, como refletido pelo menor patamar de depósitos observado em 11 anos no sistema bancário do país (139 bilhões de euros). Em outras palavras, se não fossem fechados os bancos, a economia do país entraria em colapso devido à falta de dinheiro em seu sistema bancário, antes que uma solução definitiva fosse anunciada.

Entretanto, após a vitória do NÃO (61% dos votos) no plebiscito, o cenário continua incerto. Apesar de negado pelo primeiro ministro – que insiste na apresentação de uma nova proposta –  muitos entenderam a consulta popular como a decisão sobre a permanência do país na zona do euro. O vice-chanceler alemão, Sigmar Gabriel, por exemplo, demonstrou uma postura cética em relação à capacidade grega de chegar a um acordo com seus credores, afirmando que “Tsipras acaba de destruir as últimas pontes que poderiam criar um compromisso entre a Europa e a Grécia”; ao mesmo tempo, consultores já consideram a resposta grega ao plebiscito “uma verdadeira nota de suicídio” [2].

Porém, vale lembrar que nessa situação é prudente manter os ouvidos atentos e um pé atrás em relação a qualquer um dos desfechos. A permanência da Grécia na Zona do Euro, a partir de um novo acordo, impediria o colapso imediato da economia grega e os efeitos negativos na economia europeia como um todo, mas ao mesmo tempo, levantaria o velho e conhecido fantasma do risco moral (moral hazard). Ao perceber que nem o tamanho da dívida grega, nem a recusa perante as condições dos credores, nem um plebiscito (com vitória do “Não”) por parte de um governo de esquerda fizeram com que a Grécia de fato perdesse a posição de membro da união monetária, países com problemas similares (e economias de maior peso, como Itália e Espanha) podem concluir que são muito grandes para quebrar (to big to fail), e serão socorridos pela Troika independentemente de suas decisões econômicas contrariarem recomendações do BCE e da Comissão Europeia.  

Por outro lado, ao sair (ou ser “convidada a se retirar”) da Zona do Euro, a Grécia seria conduzida ao ápice de uma crise econômica a curto prazo, mas poderia readmitir sua moeda antiga, o Drachma, desvalorizando o câmbio a fim de ajustar sua economia (via câmbio e não via preços, como salários), e (ceteris paribus) retomar o crescimento a longo prazo. Porém, a saída grega do bloco levaria a Eurozona a um período de instabilidade não somente econômica (devido à interdependência dos sistemas financeiros dos países e da exposição, mesmo que menor, à títulos gregos) mas também institucional, uma vez que a possibilidade de saída de um membro levaria ao questionamento da saída de outros em situações similares – e que, por sua vez, causariam maior estrago. Para ilustrar, o gráfico abaixo demonstra o grau de exposição de países da União Europeia e de instituições financeiras (FMI e BCE) em relação à dívida grega.

Fonte: Eurostat, Elaboração Terraço Econômico
Fonte: Eurostat, Elaboração Terraço Econômico

 

Enfim, enquanto esperamos que algum acordo milagroso seja firmado nessa semana, acredito que seria a hora perfeita para criarem um proverbio estrelando heróis da mitologia grega equivalente a “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”. Afinal, #NãoTáFácilpraNiguém.

rachel

Referências

[1] Folha de São Paulo, 29 junho de 2015 (versão impressa)

[2] http://www.infomoney.com.br/mercados/noticia/4141393/sobre-plebiscito-grecia-acaba-assinar-sua-propria-nota-suicidio

Terraço Econômico

O Terraço Econômico é um espaço para discussão de assuntos que afetam nosso cotidiano, sempre com uma análise aprofundada (e irreverente) visando entender quais são as implicações dos mais importantes eventos econômicos, políticos e sociais no Brasil e no mundo. A equipe heterogênea possui desde economistas com mestrados até estudantes de economia. O Terraço é composto por: Alípio Ferreira Cantisani, Arthur Solowiejczyk, Lara Siqueira de Oliveira, Leonardo de Siqueira Lima, Leonardo Palhuca, Victor Candido e Victor Wong.