Entrevista com Bernardo Guimarães sobre o livro “A Riqueza da Nação no Século XXI”

O Terraço Econômico entrevistou um dos economistas de maior destaque no país. PhD em economia por Yale e professor da EESP/FGV, Bernardo Guimarães acaba de lançar o livro "A Riqueza das Nações no Século XXI". Um contraponto ao livro de Thomas Piketty, "O Capital do Século XXI". Para quem espera a tradicional dicotomia Esquerda x Direita irá se surpreender.

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Terraço Entrevista | Por Leonardo de Siqueira Lima

Não é novidade nenhuma que o debate político e econômico sempre foi polarizado. Entretanto, há um sentimento que as posições antagônicas estão cada vez mais extremas. Talvez por culpa dos debates acalourados nas redes sociais . Mas também porque parece ser mais fácil seguir uma linha de argumento pelas credenciais de seus autores, esquecendo-se de olhar o conteúdo dos argumentos e os resultados práticos, para só depois decidirmos se concordamos ou não com o que é proposto.

Mas nesse clima de Fla-Flu de debates político e econômico ainda há quem seja pragmático e olhe para os resultados independente de qual grupo aquela política tenha vindo. É o caso de Bernardo Guimarães, professor de Economia da Escola de Economia de São Paulo da FGV. Ele acaba de lançar seu livro “A Riqueza das Nações do Século XXI”. Longe da visão dicotômica de luta de classes, Bernardo procura explicar em sua obra “o que traz prosperidade ao país como um todo”, assim como faz a obra “A Riqueza das Nações”, de Adam Smith, título e obra no qual Bernardo se inspirou.

Entre os economistas de maior destaque no país, Bernardo Guimarães lecionou por 6 anos na London School of Econômics, possui publicações nos mais prestigiados periódicos internacionais e possui Phd em Economia pela Universidade de Yale. Apesar disso, aborda temas complexos como política econômica e fiscal de maneira simples e sua obra. E para quem espera a tradicional dicotomia Esquerda x Direita irá se surpreender com o livro.

Terraço Econômico – O seu livro faz referência à obra de Adam Smith “A Riqueza das Nações”. Escrita em 1776, essa obra é considerada uma das mais importantes na história do pensamento econômico. Por que você ainda a considera atual a ponto de fazer um livro em referência a esta obra?

Bernardo Guimarães – Adam Smith via as trocas, a especialização e os mercados como meios de atingir um resultado melhor para todos. Mais de dois séculos se passaram desde “A Riqueza das Nações”, aprendemos muito sobre economia, mas a essência de suas lições é ecoada pelos modelos econômicos de hoje. Essas lições e modelos foram ignorados pela política econômica brasileira em anos recentes e isso nos tem sido custoso.

Adam Smith queria entender o que traz prosperidade para uma nação. Meu livro é sobre os caminhos para a prosperidade do Brasil hoje em dia. Então, me senti no direito de usar o título dele (com nação no singular) e colocar o século XXI.

O livro mais polêmico de 2014 foi “O Capital do século XXI” de Thomas Piketty, uma alusão ao livro “O capital” de Karl Marx, que trata sobre a luta de classes. Nessa obra Piketty condena a concentração de riqueza e a evolução da desigualdade. O seu livro lançado em 2015 também é um contraponto à obra de Piketty?

De certa maneira, sim. Thomas Piketty foca na distribuição de recursos, enquanto meu livro busca trazer a discussão para o que traz prosperidade ao país como um todo. Não porque eu me preocupe menos com os mais pobres: foi o crescimento econômico que tirou centenas de milhões de pessoas da pobreza nas últimas décadas.

“O Capital” de Karl Marx fala sobre a luta de classes. Não somente no livro, mas nos debates políticos atuais essa dicotomia Ricos x Pobres, Empresários x Classe Trabalhadora, etc ainda tem grande apelo nas discussões. Você abomina esta idéia em seu livro. Por que?

Porque essa dicotomia é a raiz de um falso debate. Pelo menos para a realidade brasileira atual, as discordâncias mais importantes não são sobre o foco nos pobres ou nos ricos, ou sobre a ênfase em aumentar ou em dividir o bolo. Os diferentes lados da discussão argumentam que suas políticas geram mais desenvolvimento para o país como um todo e melhorias mais consistentes nas condições de vida dos mais pobres.

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Para economista Bernardo Guimarães “As pessoas estão entendendo que tem alguma coisa errada com a política econômica. Não sabem exatamente o que, mas há mais espaço para novas ideias”

Em seu livro você faz uma interessante analogia com a sociedade primata dos Chimpanzés. Politicamente, os Chimpanzés são seres sofisticados capazes de realizar alianças na disputa pelo comando. Mas apesar disso, não sabem fazer trocas e por consequência sua economia simples não alcança a especialização da produção, nem o crescimento, como sugeriria Adam Smith. Você diria que, através de sindicatos e lobbys de alguns setores, o Brasil vive uma síndrome de Chimpanzés?

(Risos) Lobbies e conflitos distributivos vão sempre existir. Acho que a Síndrome de Chimpanzés que você fala ocorre quando a discussão sobre política econômica se concentra em questões distributivas e perde de vista o interesse geral. No mundo dos humanos, a política econômica tem um efeito enorme na quantidade de recursos disponível a todos.

Entre 2000 e 2010 o Brasil parecia viver uma euforia econômica quando fazia parte dos BRICs e liderava os países emergentes. Porém, nos últimos anos começa a dar sinais de fracasso. Mais uma vez é reconhecido pelos seus frequentes “vôos de galinha” ou por ser sempre “o país do futuro”. Como você analisa os últimos 12 anos de governo em seu livro, desta vez, em sua visão por que o Brasil ainda não deu certo?

As políticas adotadas nos últimos anos têm grande parte da responsabilidade. O intervencionismo estatal, a nova matriz econômica, a falta de cuidado com nosso capitalismo… É muito importante a gente aprender. Políticas ruins nos trouxeram onde estamos; políticas boas podem trazer de volta o desenvolvimento e o otimismo.

Apesar de estarmos em uma profunda crise é inegável que tivemos alguns avanços sociais nos últimos 12 anos. Em sua visão quais foram as boas políticas públicas e econômica que deram resultados positivos para o país?

A discussão política em geral conecta os avanços sociais com políticas distributivas, mas isso não está correto. Sim, o Bolsa Família foi importante, mas foi o desenvolvimento do país como um todo e seu efeito nos salários a principal causa na melhoria de renda dos mais pobres na última década. Agora, é um erro considerar 2003-2014 como um período uniforme em termos de políticas econômicas. Como eu explico no livro, boa parte da política econômica do início do governo Lula foi muito boa e liberal. E não estou falando só de política monetária e fiscal, não. Sei que o cenário externo na época era muito favorável, mas não foi só isso que ajudou o Brasil na década passada.

Além da analogia do chimpanzés o seu livro traz diversas outras analogias e procura explicar de maneira simples e envolvente assuntos pesados como política fiscal, política monetária etc. Havia algum público alvo em mente quando você utilizou essa linguagem?

Para mim, é fundamental que o livro seja gostoso de ler. Eu gosto muito de ler “não ficção”, e há tempos percebi que o assunto pouco me importa. História, biologia, astronomia, qualquer coisa eu curto, contanto que a leitura seja prazerosa. Eu acho que “A Riqueza da Nação no Século XXI” tem algo importante para ensinar tanto para meus alunos de doutorado quanto para quem tem menos contato com Economia. Mas poucos desses lerão o livro se a leitura for maçante.

Tendo como base todos os conceitos apresentados no livro, qual seria na sua opinião, a solução mais viável e eficiente para o Brasil sair da crise que atualmente se encontra, e que aparentemente tende a se aprofundar? Você acredita, em um futuro próximo, em uma sociedade brasileira mais “pró-mercado”?

No momento, toda a atenção está voltada para o que é urgente: acertar as contas do governo e fazer a inflação voltar para 6,5% em 2016. Reformas fundamentais, muito importantes, parecem estar completamente fora da pauta. Mas no curto prazo, acertar as contas do governo e transmitir um mínimo de confiança na sanidade da política econômica já seria suficiente para a gente retomar o rumo e, aos poucos, sair da crise.

Sobre a sua segunda pergunta, sim, acredito em uma sociedade brasileira mais “pró-mercado”. As pessoas estão entendendo que tem alguma coisa errada com a política econômica. Não sabem exatamente o que, mas há mais espaço para novas ideias. Essa é a minha esperança com o livro.

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A Riqueza das Nações no Século 21
AUTOR: Bernardo Guimarães
EDITORA: Autopublicação
QUANTO :R$ 8 na Amazon (190 págs.)
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*Bernardo Guimarães.
PhD em Economia pela Universidade de Yale
Professor da Escola de Economia de São Paulo da FGV

Terraço Econômico

O Terraço Econômico é um espaço para discussão de assuntos que afetam nosso cotidiano, sempre com uma análise aprofundada (e irreverente) visando entender quais são as implicações dos mais importantes eventos econômicos, políticos e sociais no Brasil e no mundo. A equipe heterogênea possui desde economistas com mestrados até estudantes de economia. O Terraço é composto por: Alípio Ferreira Cantisani, Arthur Solowiejczyk, Lara Siqueira de Oliveira, Leonardo de Siqueira Lima, Leonardo Palhuca, Victor Candido e Victor Wong.