Tropicalia: como um professor e seu melhor aluno venderam uma startup em pouco mais de um ano

Comprada pela Strattum, a startup de Arthur Guttilla e Leonardo Miranda nasceu de uma relação entre professor e aluno e mostra que, na era da IA, ensinar ficou barato; guiar, não

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Todo mundo tem um professor que marcou a própria vida. Às vezes para o bem, às vezes para o mal. Pode ser aquele que enxergou em você algo que nem você tinha percebido, ou aquele que, com uma única frase, fez você desistir de um caminho antes mesmo de tentar.

Professores têm esse poder, e quase sempre descobrem isso tarde demais.

Pois a história que quero contar hoje é sobre o lado bom dessa moeda. É a história de um professor que, em vez de fechar uma porta para o aluno, entregou a ele a chave do carro. E, alguns anos depois, a metade de uma empresa.

A startup se chama Tropicalia e acaba de ser comprada pela Strattum, empresa de infraestrutura de dados liderada por Kadu Monguilhott.

Os fundadores são Arthur Guttilla e Leonardo Miranda. Antes de serem sócios, os dois foram, respectivamente, professor e aluno na Link School of Business, a mesma faculdade onde hoje também dou aula.

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A sala (que não era só) de aula

Em 2022, Arthur tinha 23 anos, trabalhava no Google e nunca tinha se imaginado como professor. Aceitou o convite da Link para dar aulas de tecnologia e encontrou Leo na turma.

Em um relato publicado pelos próprios fundadores, Leo aparece como o melhor aluno de tecnologia da sala. Não porque falava mais alto ou brilhava nas apresentações. Era consistente, entregava o que prometia e era honesto quando não sabia alguma coisa.

Arthur deu aula para ele por dois semestres seguidos.

E aqui está o primeiro detalhe que me chama atenção: dois semestres é pouco tempo para ensinar alguém a programar, mas é tempo suficiente para conhecer uma pessoa. Nesse intervalo, a relação deixou de ser só de professor e aluno e passou a ser de mentor e pupilo.

O primeiro teste veio em 2023. Um amigo empreendedor pediu a Arthur a indicação de um aluno para trabalhar na Matrix/Cypher AI. O pedido tinha uma condição: alguém técnico, confiável e que não fizesse passar vergonha quem indicou. Arthur indicou um nome só.

Pense em quantas vezes você já foi convidado a indicar alguém para uma vaga. O currículo da pessoa quase nunca é o que pesa. O que pesa é a pergunta inconsciente: “eu colocaria meu nome ao lado do dela?”.

Indicar é emprestar a própria reputação. Nenhuma prova, nenhum boletim, nenhum diploma mede isso. Só a convivência mede.

Seis horas de estrada

Em 2024, os dois foram morar juntos em Palo Alto, num grupo de dez pessoas imersas no Vale do Silício. Numa das tardes, o grupo saiu para visitar as garagens onde nasceram Apple, HP e Google. Garagem após garagem, as pessoas foram cansando, tirando menos fotos, voltando para casa.

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Créditos: arquivo pessoal/ divulgação

No fim do dia, só Arthur e Leo tinham passado por todas.

Pouco depois, os dois subiram o Half Dome, no parque de Yosemite, num bate-volta de 14 a 16 horas de trilha. Na volta, à noite, exaustos e com seis horas de estrada pela frente, Arthur entregou a chave do carro para Leo. E percebeu que não estava preocupado com nada. Ali, a ideia de fundarem uma empresa juntos deixou de ser uma hipótese.

Gosto dessa cena porque ela inverte a imagem que temos de um professor. A gente costuma imaginar alguém que está à frente, segurando o giz, ditando o caminho. Naquela estrada, o professor estava no banco do passageiro, tranquilo, deixando o aluno dirigir.

Talvez esse seja o objetivo final de qualquer boa relação de ensino.

Em 2025, nasceu a Tropicalia, focada em engenharia de contexto para startups que usam IA. Em junho deste ano, a Strattum captou US$ 3,2 milhões numa rodada pre-seed liderada por Maya Capital e ONEVC, com participação da Norte Ventures.

Agora, a Tropicalia passa a fazer parte da empresa: Arthur assume como head de product marketing e parcerias, e Leo entra no time de aplicações da plataforma.

Contexto, não conteúdo

Em uma entrevista recente, Arthur resumiu o que a Tropicalia fazia numa frase: contexto não é modelo, não é agente e não é banco de dados, é a camada entre eles.

Em outras palavras, de nada adianta ter a inteligência artificial mais avançada do mundo se ela não sabe o que é relevante para quem está do outro lado.

Li essa frase como empreendedor, mas ela me pegou como professor. Porque me parece a melhor descrição do que a sala de aula precisa virar.

Durante séculos, o professor foi, antes de tudo, uma fonte de conteúdo. Ele sabia o que o aluno não sabia e transmitia. Esse modelo está se desfazendo diante dos nossos olhos.

Uma pesquisa global do Digital Education Council com mais de 3,8 mil universitários em 16 países mostrou que 86% já usavam IA nos estudos em 2024. No Brasil, a TIC Educação 2024, do Cetic.br, aponta que 70% dos alunos do ensino médio usam IA generativa em pesquisas escolares.

Só que acesso a conteúdo não é o mesmo que saber o que fazer com ele. É como ter um mapa com todas as estradas do país: ajuda muito, mas não diz qual caminho faz sentido para você.

A mesma TIC Educação mostra que só 32% desses alunos receberam alguma orientação da escola sobre como usar essas ferramentas. E, na pesquisa do Digital Education Council, 58% dos universitários disseram não ter conhecimento suficiente sobre IA.

Todo mundo tem o mapa, e quase ninguém tem quem ajude a ler.

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Menos palco, mais trilha

Por isso acredito que o papel do professor hoje é menos sobre ensinar e mais sobre trocar e guiar. Ensinar, no sentido de transmitir informação, ficou barato. Guiar continua caro, porque exige o que nenhum modelo oferece: tempo de convivência, leitura de pessoas e coragem para apostar nelas.

Arthur não virou sócio de Leo porque explicou bem uma matéria. Virou sócio porque observou o aluno por dois semestres, colocou o próprio nome em jogo por ele e depois dividiu uma casa, uma trilha e uma estrada escura. A cada etapa, a hierarquia da sala de aula pesava menos e a confiança pesava mais.

Isso não é intuição minha. O Gallup-Purdue Index, que ouviu cerca de 30 mil graduados nos Estados Unidos, mostrou que quem teve um professor que se importava com ele como pessoa, que o animava a aprender e que incentivava seus sonhos teve mais que o dobro de chance de estar engajado no trabalho anos depois.

O dado mais revelador, porém, é outro: só 14% dos entrevistados disseram ter vivido isso. O que mais transforma é justamente o que menos acontece.

Tenho sentido isso de perto nas primeiras semanas como professor. As conversas que mais rendem raramente são as que preparo em slides. São as que surgem no intervalo, quando um aluno traz um problema real do negócio dele e a gente pensa junto.

Nesses momentos, eu saio da aula com tantas perguntas quanto ele. E entendo que o professor que eu quero ser é menos o que tem as respostas e mais o que ajuda a fazer as perguntas certas.

Valores, no plural

A Link tem um modelo que favorece isso: os alunos criam e tocam empresas durante a graduação, e o professor fica perto da execução, não só da teoria. Mas o caso da Tropicalia mostra que o formato da escola é só metade da história. A outra metade é o que professor e aluno decidem construir juntos, dentro e fora da sala.

Arthur e Leo construíram valor financeiro, com uma empresa que chegou a uma aquisição em pouco mais de um ano de vida. Mas, antes disso, construíram outros valores, que não aparecem em nenhum contrato de compra e venda: confiança, reputação e amizade.

O primeiro só existiu por causa dos outros. E aqui vai a provocação, para os dois lados da mesa.

Se você é professor, gestor ou líder de alguém, pergunte-se: o que você entrega que uma IA não entregaria? Você está apenas passando informação ou construindo o tipo de relação que faz alguém confiar em você o próprio nome e a chave do carro?

E, se você é o aluno, o estagiário ou o profissional em início de carreira, vale a pergunta inversa: você tem se mostrado alguém em quem vale a pena apostar?

A nova relação entre professor e aluno talvez seja exatamente essa: construir valores, em todos os sentidos da palavra. Arthur e Leo mostraram, com excelência, que uma história pode começar numa sala de aula e terminar numa mesa de negociação, desde que, no caminho, um tenha aprendido a confiar no outro.

E eu sigo com a mesma pergunta que me levou a dar aula: que tipo de professor eu quero ser na vida de alguém?


Jornalista, empreendedor, fundador da agência Made In Moon e professor da Link School Of Business