Plataforma de engajamento Applause capta R$ 10 milhões com uma ideia antiga: vender sonhos

Antes de criar a Applause, o fundador Eduardo Rodrigues passou mais de 15 anos organizando viagens e casamentos no Caribe. O produto mudou; o que ele vende, não

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Existe uma pergunta que, aos poucos, vai sumindo das nossas conversas: “qual é o seu sonho?”.

Na infância, ela aparece em toda festa de família, quase sempre seguida de respostas grandiosas. Na vida adulta, vai sendo substituída por outra, mais prática: “com o que você trabalha?”. E, sem perceber, a gente passa a tratar a segunda resposta como se ela desse conta da primeira.

No Brasil, aliás, sonho e trabalho costumam andar mais próximos do que se imagina. Na pesquisa GEM 2022, conduzida pelo Sebrae em parceria com a Anegepe, os dois sonhos mais citados pelos brasileiros foram viajar pelo Brasil, lembrado por 61%, e ter o próprio negócio, por 60%. Na edição de 2025, empreender voltou a ocupar o segundo lugar do ranking, citado por 40% da população adulta, atrás apenas da casa própria.

Viajar e empreender. A história que quero contar hoje é a de alguém que nunca precisou escolher entre um e outro. Eduardo Rodrigues, o Edu, é cofundador e CEO da Applause, plataforma de incentivo e gamificação para times de vendas que acaba de captar R$ 10 milhões numa rodada liderada pela Primus Ventures, com participação dos fundadores da MadeiraMadeira e da Pipefy.

Para entender o que a Applause vende de verdade, porém, é preciso voltar mais de vinte anos no tempo, até um ônibus cheio de estudantes a caminho do litoral do Paraná.

Ônibus, barco e prancha

No início dos anos 2000, Edu cursava turismo em Curitiba e tinha um sonho simples: viajar e surfar onde desse. Como dinheiro de estudante não leva ninguém muito longe, ele fez o que muita gente faz sem perceber que está empreendendo. Organizou uma viagem para os colegas da faculdade: ônibus até o litoral, barco até a Ilha do Mel, pousada na Praia Grande.

Deu certo. E vieram outras.

Ilha do Cardoso, novos picos de surfe, grupos cada vez maiores. A divulgação era no boca a boca e no panfleto. Até que, numa balada de Curitiba patrocinada por uma agência concorrente, um amigo distribuiu os flyers e o grupo foi colocado para fora pelos seguranças. Na sequência, os donos da agência avisaram que iam denunciá-los por operarem sem empresa.

Edu não desistiu: encontrou uma agência parceira para dar estrutura às viagens e, em 2005, abriu a própria. Nascia a Welcome Trips.

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O sonho dos outros

Um detalhe dessa fase ajuda a entender todo o resto da história: o público foi se alargando quase sem plano. Primeiro, eram os amigos que surfavam. Depois, os amigos dos amigos, que gostavam do clima do surfe, mas não subiam na prancha. Depois, gente que nem pensava em onda e só queria conhecer um lugar bonito.

A cada novo grupo, a Welcome se afastava um pouco do sonho original do Edu e se aproximava do sonho de outras pessoas.

Esse caminho, claro, não foi uma linha reta. Por volta de 2008, com dois funcionários e nenhum controle das contas, Edu percebeu que estava praticamente quebrado. Arregaçou as mangas, passou a vender passagens aéreas e testou nichos de todo tipo, de turismo ecológico a viagens para saltar de paraquedas e andar de skate.

A maioria não vingou.

A resposta veio de onde ele menos esperava. Em 2015, surgiu a chance de organizar quatro casamentos no Caribe e na Europa. Se os clientes já procuravam a Welcome para conhecer lugares bonitos, alguns agora também queriam dizer “sim” nestes destinos.

No ano seguinte, foram 17 casamentos, e Edu percebeu que tinha encontrado o segmento em que valia a pena apostar.

Em 2017, segundo uma reportagem antiga da Gazeta do Povo, a Welcome Weddings faturou R$ 6 milhões só nos oito primeiros meses do ano, mais do que a empresa inteira havia faturado em 2015.

Naquele mesmo ano, foi eleita pela RCD Hotels a melhor produtora de destination weddings da América Latina no Caribe. A agência virou grupo, o Welcome Group, com Welcome Trips, Welcome Weddings e Welcome Corporate debaixo do mesmo guarda-chuva. Hoje, soma mais de 650 casamentos realizados.

Há algo muito valioso nessa trajetória.

O sonho do Edu era viajar e surfar, mas o negócio só ganhou escala quando ele passou a se dedicar ao sonho dos outros. Um casal que decide casar em Punta Cana não está comprando passagem, hotel e gazebo; está comprando uma cena que imaginou durante anos.

E, talvez, seja assim que muitos negócios nascem: de um desejo pessoal que, com o tempo, a gente descobre ser compartilhado por muito mais gente do que imaginava.

Quando tudo vira de ponta-cabeça

Em março de 2020, o mundo parou. Quem vivia de viagens e festas viu, da noite para o dia, o próprio produto virar risco sanitário. Casamentos marcados para o primeiro semestre foram adiados em massa.

Pelas contas da CNC, o turismo brasileiro deixou de faturar R$ 473,7 bilhões entre o início da pandemia e dezembro de 2021, e 476 mil vagas formais do setor foram fechadas só em 2020.

Imagine passar quinze anos construindo uma empresa que vive de reunir pessoas em lugares bonitos e, de repente, acordar num mundo em que reunir pessoas passou a ser proibido.

Momentos assim costumam revelar o que sustenta um negócio para além do produto. No caso do Edu, a operação estava praticamente parada, mas a vontade de proporcionar experiências às pessoas continuava ali, esperando um novo caminho.

Foi nesse vazio que Edu começou a testar outros formatos. Ainda em 2020, lançou a Welcome Membership, uma plataforma para ajudar as pessoas a se organizarem financeiramente para a viagem dos sonhos.

Em 2021, a ideia virou a Weex Pass, apresentada como uma “fintech travel”, uma espécie de poupança com resgate em viagens. No mesmo ano, Raul Macedo entrou como cofundador para liderar produto e tecnologia.

Pouco depois, a proposta migrou para dentro das empresas, com uma pergunta que mudaria tudo: e se a viagem dos sonhos fosse a recompensa por uma meta batida?

Por volta de 2024, a empresa passou a se chamar Applause e a atuar diretamente com as áreas comerciais.

Mesmo sonho, outro formato

A Applause é outra empresa, mas, olhando de perto, Edu continua vendendo sonho. Só mudou o formato.

Na plataforma, vendedores de clientes como Carrefour, Adidas, Mondelēz e iFood cumprem missões e desafios, sobem em rankings e acumulam pontos que podem trocar, num marketplace próprio, por viagens, shows, restaurantes, produtos e serviços. O agente de viagens virou gestor de metas. O pacote para o Caribe virou o prêmio no fim da jornada.

Segundo a empresa, a Applause chegou a julho de 2026 com R$ 6,6 milhões em faturamento recorrente, depois de crescer cinco vezes em 2024 e quatro vezes em 2025.

São cerca de 80 clientes, mais de 80 mil usuários e 80% deles acessam a plataforma ao menos uma vez por semana. Na MadeiraMadeira, um dos principais cases, a adesão das equipes de loja chegou a 98% em três meses e as vendas cresceram 124%.

O novo aporte vai financiar a expansão nacional e internacional, com a meta de triplicar de tamanho até o fim de 2027, quando a empresa pretende buscar uma rodada Série A.

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Mais do que os números, uma lógica

A Applause parte da ideia de que o engajamento não vem só do prêmio, mas do caminho até ele, e por isso quebra metas grandes em desafios menores e recorrentes. Isso tem respaldo acadêmico.

Teresa Amabile e Steven Kramer, de Harvard, analisaram cerca de 12 mil registros diários de profissionais e concluíram que, de tudo o que melhora um dia de trabalho, o fator mais poderoso é a sensação de avançar em algo que importa, mesmo que em passos pequenos.

E o problema a resolver é grande. O relatório State of the Global Workplace 2026, da Gallup, mostra que só 20% dos trabalhadores do mundo se dizem engajados, o menor nível desde 2020. No Brasil, o índice é de 32%. Ou seja: cerca de dois em cada três profissionais brasileiros passam o dia no trabalho sem se envolver de verdade com ele.

Vale, no entanto, um contraponto. Gamificação não é mágica. Pontos, rankings e prêmios podem virar só mais uma planilha de cobrança se a meta não fizer sentido para quem está na ponta. A própria Gallup lembra que cerca de 70% da variação no engajamento de uma equipe está ligada ao gestor direto. Nenhuma plataforma terceiriza isso.

O próprio Edu parece saber, quando diz que o prêmio é apenas uma etapa dentro de uma jornada maior. A recompensa funciona quando conversa com um desejo real da pessoa, não quando tenta substituí-lo.

Nas conversas com empreendedores, é comum eu ouvir que sonhar é coisa de quem está começando e que, depois, o negócio exige pé no chão. A história do Edu sugere outra leitura.

O pé no chão foi o que o salvou em 2008 e em 2020. Mas foi o sonho que definiu para onde ele reconstruiria a empresa em cada uma dessas vezes.

Pé no chão diz “como”. Sonho diz “para onde”.

A moral da história… Ou melhor, do sonho

Talvez a principal lição seja esta: um sonho não precisa de um formato fixo para continuar vivo. O do Edu começou como um ônibus para a Ilha do Mel, virou casamento no Caribe, virou poupança de viagem e hoje é um ponto acumulado por um vendedor de loja depois de bater a meta da semana.

O desejo por trás é o mesmo: dar às pessoas um motivo para ir além.

Se você lidera um time, a pergunta é incômoda: você sabe qual é o sonho das pessoas que trabalham com você? Não a meta que você definiu para elas, mas o que elas querem da vida. Metas que se conectam a sonhos se sustentam sozinhas. Metas que os ignoram viram obrigação…

E obrigação raramente produz algo além do mínimo.

E, se você empreende ou pensa em empreender, como 40% dos brasileiros, vale a pergunta inversa: o seu sonho sobreviveria a uma mudança de formato?

Se o produto que você vende hoje deixasse de existir amanhã, o que continuaria de pé? Se a resposta for “nada”, talvez você tenha um produto, e não um sonho.

No fim, talvez valha resgatar aquela pergunta que a gente deixa de fazer depois de adulto e que caberia bem em qualquer reunião de equipe: qual é o seu sonho?


Jornalista, empreendedor, fundador da agência Made In Moon e professor da Link School Of Business