O ovo ou a galinha da era digital

Por que influenciadores estão virando empreendedores (e vice-versa)

Filipe Callil

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Toguro é o novo Head de Comunicação e Marketing da Cimed (Foto: Reprodução)
Toguro é o novo Head de Comunicação e Marketing da Cimed (Foto: Reprodução)

Publicidade

Existe um dilema antigo na biologia evolutiva sobre quem veio antes: o ovo ou a galinha. No atual mundo dos negócios, a pergunta ganhou uma nova roupagem, talvez um pouco menos científica, mas certamente mais lucrativa: O que veio primeiro: o influenciador que virou empreendedor ou o empreendedor que virou influenciador?

Seja qual for a resposta, essa fusão não é apenas uma tendência passageira. Ela representa um mecanismo de expansão de quem aprendeu que é possível diversificar sem dispersar (eu não me espantaria, por exemplo, se descobrisse que você está lendo esse artigo enquanto desfruta de um delicioso café, diretamente de uma padaria artesanal fundada por um chef de cozinha que tem um perfil no TikTok para compartilhar dicas gastronômicas e um curso online sobre técnicas de fermentação).

O motivo?

Estatísticas mostram que apenas uma fração minúscula dos milhões de criadores no Brasil consegue, de fato, pagar os boletos apenas com publicidade (menos de 10%, segundo estudo realizado pela Wake Creators no ano passado). A base da pirâmide é larga, cheia de gente com permuta de hamburgueria, mas com a conta bancária no vermelho.

Continua depois da publicidade

A solução?

Empreender. Só que isso também gerou um estalo na elite. Quem já faturava milhões emprestando audiência para anunciantes se deu conta de que não precisava mais ser apenas o outdoor. Grandes marcas pessoais começaram a se transformar em grandes cases de marcas corporativas. E grandes perfis sociais, por sua vez, em grandes lojas digitais.

A ironia?

O empreendedorismo virou o novo conteúdo viral. Quando os influenciadores se tornaram donos do próprio produto, o conteúdo ficou mais autêntico, a narrativa mais visceral e, por consequência, outras empresas passaram a cobiçá-los ainda mais. Afinal, quem não quer ter um garoto-propaganda que, além de gerar visibilidade, inspira pela mentalidade empreendedora e converte pela força comercial?

Vamos de exemplos?

1) Manu Cit

Continua depois da publicidade

Antes de estourar como “a garota simples da rotina fitness”, ela já tinha o “bichinho” do empreendedorismo. Tentou vender roupas, bateu cabeça, errou. Hoje, é sócia da Guday (marca de suplementos que diz ter faturado mais de R$60 milhões em 2025) e da rede de academias mais “hypada” do momento, a The Simple Gym. No paralelo, é embaixadora de grandes empresas que passaram a valorizar sua ambição nos treinos e nos negócios, como a Fila, o BTG e a Bold.

2) Jade Picon

Ela já era rica, famosa, ex-BBB e com contrato na Globo. Poderia viver de royalties da sua imagem para sempre, mas teve a sacada com a AURA Beauty. A genialidade ali não foi apenas lançar um produto com seu nome, mas entender a dinâmica do social commerce. A estratégia de usar microinfluenciadoras e o “TikTok Shop” para vender a marca criou um exército de vendas descentralizado. Resumindo: ela usou a influência para influenciar outros a venderem por ela.

Continua depois da publicidade

3) Diogo Defante

O homem é o caos em forma de gente. Mas, por trás do personagem que late na rua, existe uma mente de negócios afiada. O “Rango Brabo”, que nasceu como um quadro de culinária duvidosa no Podpah, virou uma rede de hamburguerias com investidores experientes (os mesmos que operam o Johnny Rockets e o Cabana Burger no Brasil). O meme virou franquia. O caos virou cash. E o ativo de mídia virou (também) um ativo da economia real.

4) Cela

Continua depois da publicidade

A influenciadora lançou recentemente uma marca de bebidas – a My Club Drinks – que funciona quase como um acessório narrativo de sua personagem de “herdeira”. O produto tangibiliza a piada. A audiência consome a história e, de quebra, a bebida. Ainda é cedo para dizer se o projeto será mais um sucesso absoluto da internet, mas, mesmo que isso não aconteça, ele já tem um forte apelo contextual para potencializar, ainda que indiretamente, o crescimento patrimonial de sua criadora.

5) Toguro

O caso barulhento do Toguro pode não ser uma aula de vendas (ainda), mas, só pela repercussão, já é um verdadeiro case de marketing e branding. O influenciador fitness criou o bordão mais chiclete de 2026 ao dizer, em um podcast, que suas bebidas alcoólicas tinham “sabor energético”. Na mesma semana, João Adibe (CEO da Cimed) propôs uma collab para criar a Carmed Sabor Energético. Por enquanto, a parceria é muito mais sobre posicionamento e buzz do que sobre margem de lucro. Mas, no mundo da atenção, barulho também é dinheiro.

Continua depois da publicidade

Meu palpite para a “Terapia de Ideias” de hoje?

O influenciador nasceu primeiro, já que parto do princípio socrático-digital de que, hoje, todo mundo que utiliza a internet no Brasil influencia outras pessoas em alguma escala. Mas, honestamente, discutir a origem é irrelevante.

O que importa é o que vem pela frente. Se continuarmos nessa toada, daqui a dez anos, “influenciador” e “empreendedor” serão duas palavras – se não semanticamente, operacionalmente – sinônimas. E se você não construir audiência para o seu negócio (ou um negócio para a sua audiência) até lá, sinto lhe informar: provavelmente, ficará discutindo sozinho se quem veio primeiro foi o influenciador que virou empreendedor ou empreendedor que virou influenciador.

Autor avatar
Filipe Callil

Jornalista, empreendedor e fundador da agência Made In Moon