Nove minutos para o futuro: como a BYD comprimiu o tempo e forçou a evolução da concorrência

A redução do tempo de recarga acelera o futuro da mobilidade — e da concorrência

Filipe Callil

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Se você acompanhou as imagens do Salão Internacional do Automóvel de Pequim neste último final de semana, talvez tenha tido a mesma sensação estranha que eu: o eixo do mundo girou, e a gente quase não percebeu.

Houve um tempo, e não faz tanto tempo assim, em que o selo “Made in China” colado na traseira de um carro era um atestado imediato de desconfiança. O plástico parecia frágil, o design parecia copiado.

Hoje, a ironia é palpável: o mundo ocidental  (incluindo o Brasil) está na fila de espera, rendido à engenharia chinesa. O que antes era sinônimo de qualidade duvidosa, agora dita o ritmo, a tecnologia e o design da próxima década.

Eles deixaram de ser uma cópia barata para se tornarem o molde original. E isso nos leva à grande virada de chave no mercado de automóveis do nosso tempo.

A era da eletrificação

Nesse novo tabuleiro, a BYD não atua mais como uma montadora tentando ganhar espaço; ela atua como uma empresa de tecnologia ditando as regras comportamentais e, por consequência, comerciais também.

O que vimos no salão de Pequim não foi apenas um desfile de novos modelos (incluindo supercarros com mais de 1.000 cavalos), mas a quebra da última grande objeção do consumidor: o tempo de recarga.

A “ansiedade de autonomia” sempre foi o calcanhar de aquiles do mercado elétrico. Pois bem, imagine pedir um café expresso no balcão de uma loja de conveniência. Em cerca de cinco minutos, a superestrutura de carregamento ultrarrápido apresentada pela BYD já garante 70% de bateria.

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Se você esperar nove minutos, a carga salta de 10% para 97%. Ou seja, eles não estão apenas vendendo carros. Eles estão comprimindo o tempo.

Mas como chegamos a esse ponto de ebulição aqui no Brasil? Você pode até achar que foi com um grito do Luciano Huck no Domingão… Mas, na verdade, foi um processo muito mais extenso e silencioso.

A BYD começou sua operação aqui no Brasil pelo mercado B2B, com ônibus elétricos e frotas corporativas. Aprenderam as regras locais, montaram a infraestrutura e, quando o mercado piscou, a porta já estava aberta. A curva de adoção é o reflexo puro de quem soube criar demanda.

Mais tarde, em 2022, a BYD iniciou os trabalhos B2C e emplacou tímidas 260 unidades de carros. Parecia apenas um nicho para entusiastas. No ano seguinte, 2023, o salto foi para 17.937. Em 2024, mais de 76 mil veículos. E no ano passado, em 2025, eles cruzaram a linha dos 112 mil carros vendidos. O resultado dessa escalada? Em pleno 2026, a BYD dorme confortavelmente no Top 5 das marcas que mais vendem no país.

A água bateu no pescoço da concorrência.

As montadoras “tradicionais” precisaram rasgar seus cronogramas conservadores. Até o final deste ano, praticamente todas as grandes marcas terão opções híbridas ou elétricas como seus principais trunfos nas concessionárias.

Mas fica a pergunta: se a BYD e suas conterrâneas não tivessem desembarcado aqui com os dois pés na porta, estaríamos vivendo essa revolução agora ou amargaríamos mais uma década de carros a combustão com leves “facelifts”?

Provavelmente nunca descobriremos o que aconteceria nessa realidade paralela. O fato é que a era do combustível fóssil, que moveu o mundo (literalmente) por mais de um século, começou a ser arquivada.

E, como em toda quebra de paradigma, a mudança do núcleo afeta toda a órbita. O ecossistema periférico precisará ser reescrito.

Por exemplo…

O que acontece com a tradicional rede de oficinas mecânicas quando o motor passa a ter uma fração mínima de peças móveis? Como os postos de combustíveis nas rodovias vão monetizar a atenção daquele motorista que agora ficará ali parado por quinze ou vinte minutos?

Ainda ouço muita gente, com um pé no freio, dizendo: “Mas eu me preocupo com a revenda de um carro elétrico no futuro”.

Eu, particularmente, olho para o outro lado da rua. Preocupo-me muito mais com a revenda dos carros à combustão. Já parou para pensar no que acontece com o seu patrimônio de garagem quando, de repente, ninguém mais quiser comprar um carro que só bebe gasolina e o valor despencar da noite para o dia?

Mas, como o foco da “Terapia de Ideias” é olhar para o caos e enxergar oportunidades, deixo a provocação na sua mesa: o motor mudou. O mercado mudou. O que você pode desenvolver de solução para surfar nesse novo e gigantesco mercado periférico que acabou de nascer?

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Filipe Callil

Jornalista, empreendedor e fundador da agência Made In Moon