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Um pequeno aviso antes de começarmos: se você clicou aqui procurando treta política ou munição para a sua próxima discussão no grupo da família, pode fechar a aba em paz.
Este texto passa longe de qualquer polarização. Na verdade, é o oposto disso. É uma visão otimista compartilhada com quem, independentemente da visão política, torce e trabalha pelo progresso prático do Brasil.
Agora que a poeira do tapete vermelho baixou e o brilhante “O Agente Secreto” fez história na 98ª edição da premiação organizada pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, apesar de não ter levado nenhuma estatueta para casa, a pergunta que fica não é mais se somos bons. A questão central é: por que a ascensão do cinema brasileiro traz oportunidades que atropelam as fronteiras do entretenimento e invadem a economia real?
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Lagosta, Jeans e Coca-Cola
Não sejamos ingênuos. Os Estados Unidos não se tornaram a potência soberana que são apenas com mísseis, bancos e microchips. Eles usaram a sétima arte para desenhar a reputação e o comportamento do mundo. Uma estratégia tão simples e, na mesma proporção, tão efetiva, que o cinema americano tem sido, há décadas, o maior e mais eficiente catálogo de vendas da história.
A lagosta é um bom – e curioso – exemplo. Antes de ser sinônimo de luxo, ela era o “alimento dos pobres”, servida a escravos e detentos na costa leste americana. A virada de chave veio com a expansão ferroviária e, crucialmente, com o glamour de Hollywood. Quando os primeiros grandes astros e atrizes da era de ouro começaram a aparecer comendo lagostas em banquetes reluzentes (como Joan Crawford em “Possuída”, de 1947), o status do crustáceo mudou. Em poucas décadas, o que era quase rejeitado virou uma iguaria mundialmente cobiçada.
O mesmo aconteceu com o Jeans. A Levi’s nasceu como roupa de trabalho bruta para mineradores. Mas foi quando Marlon Brando apareceu em “O Selvagem” (1953) e James Dean com seu estilo rebelde em “Juventude Transviada” (1955) que o denim deixou de ser um uniforme de operário para se tornar o grande símbolo da juventude global.
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E a Coca-Cola? A marca já trilhava seu caminho, mas foi Hollywood que a transformou no verdadeiro “American Way of Life”. Desde as aparições sutis em clássicos dos anos 30 até figurar nas mãos de ícones pop como Elvis Presley nas telonas, o cinema não apenas mostrava a bebida gelada; ele vendia o sonho de pertencer àquela cultura invejável. Onde o cinema americano chegava, a economia americana ia junto.
A queda do muro das legendas
Mas o jogo está mudando. Pense comigo: quantas produções sul-coreanas você já havia consumido antes de “Round 6” e “Parasita”? E qual era o seu nível de intimidade com suspenses espanhóis ou alemães antes de “La Casa de Papel” ou “Dark”? Pois é.
Antes do boom das plataformas de streaming, éramos reféns. Nossa dieta cultural se limitava ao que passava na TV aberta, ao que as salas de cinema decidiam exibir e ao que chegava nas prateleiras das locadoras – e, quase como uma regra absoluta, tudo isso falava inglês.
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Mas, a última década implodiu essa barreira de uma forma nunca vista (literalmente) antes. Agora, o mundo assiste a produções de tudo que é canto, independentemente de ser falado em inglês, coreano, espanhol, turco ou alemão.
Dados da Ampere Analysis e da Netflix apontam que o consumo de conteúdo em língua não-inglesa cresceu mais de 50% globalmente nos últimos anos. E o mais interessante: títulos de fora de Hollywood dominam frequentemente os “Top 10” em mais de 90 países simultaneamente.
Qual a moral da história até aqui?
A legenda deixou de ser um incômodo para ser uma ponte. E se tem uma nação com talento de sobra para atravessá-la e dominar o outro lado, é o Brasil.
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A nossa vez de jogar
Nós somos, definitivamente, o país da moda. E não falo só do esporte. Nossos ritmos musicais provam nossa versatilidade todos os dias – da Bossa Nova, que segue mais chique e viva do que nunca no exterior, ao Funk, que fez até o gigante Bruno Mars se render e mimetizar nossos passinhos quando pisou aqui.
Temos a faca e o queijo (canastra, por favor) na mão. Já somos uma “fábrica de novelas” reconhecida mundialmente pela capacidade técnica e narrativa. Imagine se adaptarmos essa musculatura industrial para o cinema e séries de alto impacto com a frequência que o momento atual exige?
A nossa presença no Oscar 2026 não é apenas um reconhecimento do nosso talento dramaturgo. É um “outdoor” global para o nosso estilo de vida. Do refrigerante de guaraná com rodelas de laranja ao tradicional pastel de frango com Catupiry (os gringos amam o nosso requeijão). Dos passinhos de funk até a altinha de futebol na areia da praia.
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Mais do que a indústria do cinema, agora, podemos potencializar toda a nossa economia real. Afinal, se o mundo inteiro já está olhando para a nossa tela, chegou a hora de mostrarmos a eles o que temos também para vender.