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Sempre que uma startup brasileira vende a empresa por cifras altas, a imaginação do público corre para o mesmo lugar: o fundador embolsa o dinheiro, larga o notebook e vai viver a vida. Casa na praia, viagens, um conselho aqui e ali para se manter entretido.
É a versão empreendedora do “e foram felizes para sempre”.
A história da D4Sign é uma boa oportunidade para desmontar essa fantasia. Em 2024, a plataforma brasileira de assinatura eletrônica foi comprada pela italiana Zucchetti por R$ 180 milhões — a maior aquisição já feita pelo grupo no Brasil. Rafael Figueiredo, CEO e cofundador, e os demais sócios embolsaram o valor.
Apesar da bela quantia embolsada, dois anos depois, seguem exatamente onde estavam antes da venda: na cadeira de liderança, batendo meta, só que agora reportando ao CEO Brasil da companhia que os comprou.
E é justamente nessa lacuna entre “ficar rico” e “parar de trabalhar” que mora a reflexão de hoje. O empreendedor que vende a empresa não está comprando uma aposentadoria. Está trocando o tipo de pressão.
Um breve contexto sobre a maior aquisição
A D4Sign nasceu em São Paulo, em 2015, das mãos de Rafael Figueiredo, do irmão dele, Rodrigo, e do diretor de tecnologia Nahim Francis.
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O capital inicial foi de R$ 20 mil, tirados do próprio bolso. Nunca houve aporte de fundo de venture capital — uma escolha deliberada dos fundadores, que preferiram crescer vendendo, gerando caixa e reinvestindo aos poucos.
A empresa foi lucrativa desde o primeiro ano de operação e manteve um crescimento médio de 40% ao ano. Em 2020, primeiro ano da pandemia, esse crescimento chegou a 400%, puxado pela migração forçada de contratos físicos para digitais. Em 2023, o faturamento já era de R$ 35 milhões, com margem EBITDA de 40%. Um número raro até para empresas maduras, quanto mais para uma startup sem fundo por trás.
Foi esse histórico — crescimento consistente, sem alavancagem externa, com produto rodando em empresas como Cyrela, Stone, Mercado Livre, Inter, Volkswagen e Huawei — que chamou a atenção da Zucchetti, multinacional italiana de software com cerca de € 2 bilhões em faturamento global.
Em 2024, veio a oitava aquisição da Zucchetti no Brasil, e a maior delas: R$ 180 milhões pela D4Sign, que a essa altura já somava 35 mil clientes ativos.
Parte do pagamento ficou condicionada a um earn-out (mecanismo comum em fusões e aquisições no qual uma fatia do valor da venda só é paga se a empresa cumprir metas de faturamento e crescimento nos anos seguintes).
Na prática, o modelo funciona como uma coleira financeira: prende o fundador à operação por um período mínimo e amarra parte da sua fortuna ao desempenho futuro do próprio negócio, mesmo depois de ele já não ser mais o dono.
Dois anos depois
Em setembro de 2026, a empresa anunciou um reposicionamento de marca — agora opera como D4Sign by Zucchetti — com a meta de crescer 30% ao ano e chegar a R$ 250 milhões de faturamento, ritmo superior aos cerca de 20% ao ano do mercado de assinatura eletrônica, segundo dados da Associação Brasileira das Empresas de Software (ABES) citados no próprio material da companhia.
Só neste ano, a empresa destinou mais de R$ 10 milhões a ações de marca, comunicação e mídia.
A escala também mudou de patamar: são hoje mais de 500 mil empresas atendidas e cerca de 3 milhões de signatários corporativos, com mais de 400 milhões de páginas processadas pela plataforma. Entre os clientes atuais estão Cyrela, Stone, FGV, Cury e iFood.
A inovação também não parou depois da venda. Desde 2023, a plataforma usa inteligência artificial para gerar resumos e insights a partir dos documentos — o D4Sign.AI, que segundo a empresa reduz em até 70% o tempo dedicado à leitura e análise de contratos.
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E o próximo capítulo já está em andamento: expansão para a Europa, com o Trust ID, recurso de verificação por documento e selfie criado para atender aos padrões europeus.
Um final nem sempre feliz
O “final feliz” da D4Sign é exceção. Um levantamento da SRS Acquiom sobre mais de 2.200 aquisições privadas mostrou que, em 2025, 24% dos negócios (fora o setor de life sciences) incluíam cláusulas de earn-out — mas a taxa de pagamento efetivo girou em torno de apenas 21 centavos por dólar prometido.
Pior: 41% desses earn-outs não pagaram absolutamente nada ao fundador, e pelo menos 28% viraram disputa formal entre comprador e vendedor.
Para o leitor que não está perto de uma cifra de nove dígitos, a lição vale do mesmo jeito. Sucesso, na maioria das vezes, não é a ausência de cobrança, mas, sim o tipo com o qual você pode lidar.
No fim, o que a D4Sign mostra é que dinheiro compra chão, não trégua.
Rafael Figueiredo trocou a pressão de sobreviver pela pressão de crescer — e isso, convenhamos, é um privilégio e tanto. Mas trégua mesmo, essa nenhum contrato de M&A garante.