Fuja da zona de conforto

No mercado de capitais, assim como em outras esferas da vida, geralmente encontramos nossas melhores recompensas em nossa zona de desconforto
Por  Paulo Sato
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Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Compreender o real significado da palavra risco e estabelecer expectativas adequadas sobre como ele pode se manifestar em um portfólio de investimentos é parte crucial de uma sólida tomada de decisões sobre investimentos.

No desenrolar de uma conversa entre investidores e seus assessores, é normal observar uma inclinação para o lado mais tentador da moeda, os altos retornos esperados de determinados ativos. Por conseguinte, acabam por ignorar quase por completo um lado pouco mais nebuloso, a avaliação de seus potenciais riscos.

Muitas discussões que envolvem o termo risco terminam em assuntos complexos sobre volatilidade, envolvendo análises que dificultam a compreensão e assustam quem está recebendo a informação. Tudo isso enfraquece um elemento essencial de como nós, seres humanos, estamos naturalmente expostos a fatores de risco em nosso dia a dia.

O próprio risco de estar “errado e sozinho” na sua tese de investimento pode ser quantificado pelo tracking error, uma medida de risco sensível ao benchmark que, em termos financeiros significa quão amplamente o retorno de um portfólio varia em torno do retorno de seu benchmark específico. Uma carteira que gera retornos próximos ao retorno de seu benchmark gera baixo tracking error, e uma carteira capaz de produzir retornos muito distantes (para cima e para baixo) possui um alto tracking error.

Então, como o tracking error se relaciona com a maneira de estarmos naturalmente expostos a riscos?

Primeiro, imagine que seu maior objetivo de longo prazo é seu benchmark.

Agora, se recorde da emblemática frase: “A grama do vizinho é sempre mais verde”. E sim, por mais estranho que possa parecer a princípio, ela está totalmente enraizada no mundo do mercado financeiro – talvez até demasiadamente.

O que ocorre é que muitas vezes damos tamanha importância aos resultados alheios que destoamos completamente dos nossos próprios objetivos ou benchmarks e por consequência geramos um altíssimo tracking error. É aqui que habita um grande risco. Isso porque grande parte de nossa felicidade não está centrada no sucesso absoluto, mas em nossa posição em relação ao sucesso de nosso vizinho.

Esse sentimento é impulsionado pelo viés psicológico do “efeito manada”. Nós, humanos, temos uma tendência hereditária de buscar conforto em nosso “rebanho”, procurando segurança no entorno e nos resultados do mesmo.

É um sentimento que carregamos em nosso DNA desde os primórdios. Mesmo os primeiros homens da caverna tinham a intuição de que precisavam se manter unidos para sobreviver, caso contrário, iriam se separar de suas tribos e consequentemente estariam fadados a encontrar uma morte prematura. Atualmente, essa tendência evolutiva se manifesta como um desconforto natural quando recebemos resultados diferentes de nossos pares. Nossa sociedade descreveu esse fenômeno com o termo recém-cunhado “Fear of Missing Out” (FOMO).

Esse desconforto foi abordado também pelo economista britânico John Maynard Keynes (1936), que cita em seu livro A Teoria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda: “Se uma pessoa for bem-sucedida, isso apenas confirmará a crença geral em sua imprudência; e se no curto prazo ele não tiver sucesso, o que é muito provável, ele não receberá muita misericórdia. A sabedoria mundana ensina que é melhor a reputação falhar convencionalmente do que ter sucesso não convencional”.

O medo é um risco que nos faz buscar conforto no que nos convém, mesmo que isso signifique terminar em uma falha.

Esse medo de estar de fora da jogada pode ser extremamente poderoso nos mercados financeiros. Basta perguntar a qualquer um que tenha visto seus amigos e vizinhos ficarem ricos investindo em ações chinesas, criptomoedas, lançando imóveis em 2007 ou surfando a bolha das “pontocom” em 1999.

Jamais devemos superestimar nossa habilidade para lidar com esse medo, pois nem as mentes mais brilhantes do mundo podem negligenciar o assunto.

Sir Isaac Newton, um dos cientistas mais influentes de todos os tempos, foi vítima do FOMO, muito antes desta sigla ganhar vida. No início de 1720, uma bolha começou a inflar as ações da empresa South Sea Company, e Newton, um dos primeiros investidores, rapidamente dobrou seu investimento inicial ao longo de vários meses e saiu feliz.

Porém, o que parecia ter sido um grande sucesso se transformou em um doloroso fracasso. Incapaz de suportar os danos psicológicos infligidos pela boa sorte de seus amigos que estavam com resultados financeiros superiores ao que ele obteve, comprou de volta a South Sea Company perto do auge do mercado e, posteriormente, perdeu quase todas suas economias para uma das bolhas mais devastadoras da história do capitalismo. Isso o levou a proferir o suposto lamento: “Posso calcular o movimento dos corpos celestes, mas não a loucura dos homens”.

Podemos tirar uma bela lição deste evento e entender que o risco de ter uma tomada de decisões própria focada unicamente em seus próprios objetivos apresenta oportunidades para investidores que estão dispostos a suportar o desconforto de agir de forma diferente de seus pares. Isso pode assumir a forma de evitar investimentos populares, mas caros – como Sir Isaac tentou, porém, falhou. Ou investir em ativos que estão fora dos holofotes e descontados, mas muitas vezes, por causa dessa impopularidade, são precificados para fornecer retornos esperados atraentes.

Os consultores que recomendam carteiras e alocações de ativos devem garantir que seus clientes entendam completamente a natureza e extensão desse risco, evitando que seus clientes sejam vítimas da tentação de desistir de seus investimentos durante as inevitáveis quedas quando comparados à “manada”, para aplicar em ativos que estão “na moda”.

Conclusão

Nenhuma decisão é infalível. Decisões próprias que deixam um investidor sozinho carregam o risco inerente de estarem errados e sem o apoio inicial do entorno. Se um investidor estiver errado e sozinho, uma forte probabilidade é de que o mesmo não tenha paciência para levar a sua tese de investimento até o fim. A decisão, mesmo que correta a longo prazo, será revertida antes que possa ter sucesso, pois irá buscar o conforto em seus pares.

Portanto, fuja da manada, não opte sempre pelo convencional, não se preocupe em estar “de fora” e não busque conforto nos resultados alheios. Foco total em seus próprios objetivos, tendo em mente que o mercado de capitais não recompensa o conforto. Lembre-se de que, como tudo na vida, geralmente encontramos nossas melhores recompensas em nossa zona de DESconforto.

Paulo Sato É bacharel em administração pela faculdade FIA, com passagem na Hochschule Düsseldorf. Tem MBA em administração de investimentos financeiros pelo IBMEC. Criador do Canal Ninja Investidor, é coordenador na Suno Consultoria.

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