Paros e a tartaruga das cinco!

Com hora marcada ela vai chegando. Pontualmente as cinco da tarde, faça  sol ou não, ela chega. " Olha lá, olha lá... ela me reconhece...e já já vem me cumprimentar. É Gata, a tartaruda de Gatis, o velho pescador do cais da ilha de Paros, na Grécia...Achava que era mito... Achava...

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Lá vem ela. Como que guiada por Netuno, o ‘deus dos mares’, ela aparece. Sem pressa, vai saboreando cada pedaço… Como isso é possível, pergunto para a turista eslovena. Não tenho a menor ideia, responde ela olhos fixos no mar. Mas ele sabe… “ Olhe lá, ela me conhece… ela virá aqui me cumprimentar já, já!!” A afirmação é do velho pescador Gatis Costopoulos. Gatis, o velho homem do mar, tem 62 anos. Gata, a tartaruga, como ele a apelidou, 80.

Parece roteiro de filme…

De fato… parece o início de um filme idílico, mágico, lúdico. Mas não é filme coisa nenhuma. É realidade. A enorme tartaruga marinha, de quase 100 quilos, desponta no mar todos os dias no mesmo horário. Cinco horas da tarde. E no mesmo lugar: o cais dos pescadores na ilha de Paros, na Grécia. Sim, todos os dias, religiosamente, às 17 horas. Faça sol ou faça sol, pois no verão, não cai uma única gota de chuva nas ilhas do mediterrâneo grego.

Quem conta um conto, não aumenta nada

 Ouvi falar na tartaruga das cinco há alguns anos. Duvidei. Além disso era em Paros, uma das ilhas Cíclades gregas, entre Santorini e Mykonos. Desconhecida, Paros e sua tartaruga das cinco ficaram guardadas lá em algum canto de minha memória. Um dia, pensei eu, vou tirar esta história a limpo. Afinal, todos os anos vou para a Grécia a trabalho, lazer, ou ambos. No final de 2014, estive finalmente lá.

O quelônio pontual

 Nem bem desembarquei em Paros e já fui perguntando sobre a tartaruga. Quelônio, em grego, para quem não sabe, significa tartaruga. Estava lá para gravar mais uma série de reportagens sobre a Grécia e suas ilhas mágicas. Tinha um pré-roteiro de gravação que, obviamente, não incluía a tal da tartaruga. Mas, pensava eu, em algum momento gravo a danada.

Se danada houver, refletia…

Sim, havia a danada

 Acorda cedo daqui, faz entrevista dali, e sempre com a bichinha submergindo de minha imaginação. Um dia, estávamos gravando em uma típica taverna grega, à beira mar, e perguntei aos gregos que participavam. Orgulhosamente, questionei em grego, língua que falo desde criança. “Hiparchi afti i cheiona tis pende?”

 Existe esta tartaruga das cinco?

Houve uma gritaria…Claro que existe, bradaram todos ao mesmo tempo e a uma só voz. E ela vem sempre no mesmo horário, no mesmo lugar… Ali em frente, no cais dos pescadores, disse uma voz distinta no meio do grupo. Olhei para o relógio. Dez para as cinco da tarde. Sai correndo.

Lá vem ela…

 Ao longo, vi um grupo de 30 a 40 pessoas em cima do cais de pedra. Apressei o passo. Chegamos praticamente juntos. Quase sem fôlego, todos me olharam por um breve segundo. Em seguida, voltaram os olhos curiosos para um mar de um azul profundo. Ao longe uma sobra escura se aproximava sem pressa.Era ela. A lenda chegava sem presa. A lenda existia. E vinha em nossa direção.

Gatis e Gata

 Paros é uma ilha pouco conhecida pelos brasileiros. Somente agora o turismo começa a se desenvolver. É uma das maiores ilhas do mar Egeu e é a que tem a maior atividade agrícola. Seu queijo Graviera e suas batatas são conhecidas em toda a Grécia e exportadas para boa parte da Europa. Agora, Gatis ,o pescador, e Gata, a tartaruga, começam a se tornar mais famosos que batatas e quilos. Começam a se tornar uma lenda, uma história viva de encontros entre homem e natureza.

Gata e os turistas

 Exclamações, Uhs, Ahs, em várias línguas eram ouvidas. Calmamente ela chegou, emergiu para a superfície (as tartarugas precisam respirar ar após 10 ou 15 minutos submersas) e voltou a mergulhar. Como estrelas cintilantes, pedaços de peixe eram arremessados . Metade dos peixes que Gatis limpava iam para um cesto. A outra metade ia para O povo delirava. O vento soprava.
A vida passava…Afinal, a Grécia ajudava…

Duvida? Veja em video

Acha difícil de acreditar. Eu também. Mas você pode tirar sua dúvida. Gravei tudinho. Em breve, a reportagem estará disponível no portal www.oquevipelomundo.com.br . E além de Gata e Gatis, mais dicas, sugestões, inspirações. Afinal, Grécia é Grécia…  E por mais quebrada que esteja, permanece intacta no imaginário humano… Pelo menos no meu imaginário. E acredito que no de muita gente.

Barco pesqueiro no cais de Paros – ilhas Cíclades gregas | Crédito: Paulo Panayotis

 

Praia em Paros – ilhas Cíclades gregas | Crédito: Paulo Panayotis

Paulo Panayotis