Eu vendo só uma mordida!

Dólar alto, crise na economia, futuro incerto! Na contramão do mercado, empresário paulistano investe em gastronomia brasileira nos EUA.Bom negócio ou loucura?

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– Moço, quer um sanduíche?
– Está caro! 
– Então, eu vendo só uma mordida!
A frase, obviamente, tem a pureza e a inocência de uma criança tentando vender um sanduíche.  Isto foi em 1984. Ivo Abrahão, então nove anos,  morava com os pais em Porto Alegre, Rio Grande do Sul. Tinha um forte traço empreendedor, já que montou a churrasqueira, comprou os salsichões e passou a vender sanduíches na praia. Tudo por conta própria. 

Tavares

Chega à mesa uma fumegante cumbuca de polenta cremosa, cogumelos, mascarpone e pesto rústico. No ponto. Tanto em quantidade  e qualidade, quanto textura. Estou no Tavares, restaurante com cara de boteco chique no bairro dos Jardins, em São Paulo. O nome foi emprestado do antigo dono do casarão , o jornalista Tavares de Miranda. “Um ícone do jornalismo brasileiro, informa Ronald Sclavi, também jornalista, ex-repórter da  rádio Jovem Pan.

Minha carteira não é o BNDES

Pois bem. O Tavares foi aberto há cerca de quatro anos. Quase que imediatamente, cativou uma fiel clientela com sabores brasileiros e preços que não transformam a carteira dos frequentadores em torresmos bem passados…Consolidado, o boteco fino navega em mares tranquilos em tempos de tormentas financeiras. Um dos motivos talvez seja, além dos preços justos e do tempero caprichado, um serviço ininterrupto entre almoço e jantar. 

Investimento nas terras do Tio Sam

“Investi cerca de US$ 500 mil na filial do Tavares em São Francisco, EUA. Recursos próprios, nada de empréstimos” fala com certo orgulho Ivo, publicitário de formação e restauranteur por vocação. “Trata-se de um restaurante de proprietário, não de autor, completa ele. Será esse mais um motivo para o sucesso do empreendimento? “Ao invés de me submeter aos caprichos de um chef e orbitar em torno dos desejos dele, resolvi que aqui quem manda é o tempero, a comida correta, com qualidade, com conforto – confort food”, justifica este gaúcho de modos gentis e olhos muito vivos.

Dólar x Brasil x EUA

– Mas será a hora certa de investir em outro país, em moeda estrangeira, com esta disparada do dólar? E se o tempero brazuca não cair no gosto do Tio Sam?
Minha pergunta pareceu não assustar este taurino determinado, que mora em São Paulo há tempos.  Confiante, ele justifica o investimento superior a um milhão e meio de reais em outras terras, em outras realidades.“Mesmo com o dólar alto, os EUA ainda representam o país dos investimentos, das oportunidades. Apesar do risco calculado, estou muito feliz com essa nova perspectiva”, comemora.

Paladar americano?

Aterrissa na mesa um papelote de saint peter com manga e brotos de feijão ao molho de moqueca. Tudo envolvido em folha de bananeira. Ao ponto, saboroso, suficiente para a alma.
Eu, cozinheiro que sou, creio que não faria melhor. “Este é um dos pratos que servimos no Tavares americano desde o soft opening, em fevereiro deste ano. Tem grande saída. O detalhe curioso é que os americanos pedem para o garçom abrir o papelote, pois não sabem o que fazer, por onde começar”, diverte-se ele.

Investimento nos EUA é investimento certo?

Divertido mesmo é pensar que, em tempos de crise no Brasil, com todo mundo repensando investimentos, vislumbrando mares de tormentas no horizonte, Ivo investe no exterior.  
Mais! Investe em comida com memória afetiva, brasileira, tropical!  “Claro que o cardápio por lá teve que sofrer ligeiras adaptações. Tem menos sal e menos açúcar nos doces de sobremesa”, explica.
Como ato final, desembarca na mesa um passional alfajor dulce de leche, coberto com chocolate meio amargo e pó de cacau com frutas do bosque. 
-Sensacional para o paladar brasileiro e portenho, digo eu.. Mas doce deste jeito dificilmente venderá nos States… “Foi corrigido por lá. Sabemos que eles não gostam de tanto açúcar assim”, emenda.Clever guy!   

Brazil  é Brasil nos EUA!

Atento ao futuro consumidor, do maneirismo intelectual ao paladar cultural, Ivo Abrahão se prepara para conquistar o Tio Sam sem batucada e com muito trabalho e  sabores brasileiros. Decidido, investe, em uma época em que todos, rigorosamente todos, esperam para ver o que vai acontecer no Brasil! Na contramão, ele aposta nos EUA uai! Rapaz!
Acho que ele é gaúcho de nascimento mas mineiro de pensamento… 
“Nossa vocação é misturar paladares e sabores, conclui ele, que tem na cozinha o chef Federico Suringar,  filho de japoneses nascido na Argentina, apaixonado pelo Brasil e que vai trabalhar nos EUA… Então tá!


Restaurante Tavares em São Francisco | Crédito: Paulo Panayotis


Ivo Abrahão | Crédito: Paulo Panayotis

Paulo Panayotis