Números não inspiram todas as pessoas

Metas numéricas são importantes, mas as empresas teriam maiores resultados se fossem capazes de oferecer mais que apenas números. Pensar em termos da experiência que deseja provocar nos seus colaboradores, é uma forma inteligente de, não apenas retê-los, mas atrair pessoas capazes de, decisivamente, apoiar e implementar a estratégia da empresa.

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Ainda me recordo de que, quando criança, dizia a mim mesmo que a matemática não poderia ter se desenvolvido, se fosse algo desagradável. Cheguei à conclusão de que, de fato, a forma como é apresentada nas escolas tem feito com que muitas crianças a abominem e jovens optem por carreiras que não sejam de exatas. Tive a felicidade de encontrar um professor, Aguinaldo Prandini Ricieri, que, além de explicar matemática de forma incrível, é um grande incentivador da carreira de consultor em cálculo. Apesar de passar em Física na USP, meus estudos me levaram à administração e, posteriormente, ao marketing e ao coaching. Entretanto, nunca deixei de usar matemática em minhas atividades. Sempre tive interesse pela história, pelas emoções e a vida daqueles que a desenvolveram. Indivíduos como Leibnitz, John Napier, Legendre, Lagrange, Laplace e tantos outros. Histórias incríveis vividas em meio aos números.

Penso que as empresas, de certo modo, copiam as escolas, ao usar os números de forma não apropriada para motivar seus funcionários. Estabelecer metas numéricas, especialmente de caráter financeiro, é fundamental para o controle e o crescimento das empresas. Sem elas, seria impossível a gestão, pois aquilo que não é medido não é gerido. 

Entretanto, acreditar que pessoas se sintam emocionadas e motivadas porque a empresa cresceu 10%, reduziu seus custos em 5% e bateu metas milionárias de vendas é uma tolice tão grande quanto não matematizar as operações.

 

Empresas felizes, empregados infelizes

Não é raro ver empresas com números espetaculares, mas que, ao conversar com seus empregados, observamos seu lado sombrio. Ambientes desconfortáveis, líderes despreparados e diálogos desrespeitosos. Vale a pena desenvolver sua carreira em um lugar assim? 

Penso que a principal transformação que deve ocorrer nas empresas é o acréscimo de elementos que sejam relevantes para a experiência de vida de seus profissionais. Falar somente em metas numéricas, sem proporcionar uma vida relevante a seus funcionários, significa continuar a tratá-los somente como uma peça na engrenagem empresarial. 

Observo os empregados serem cobrados a “pensar fora da caixa” e ser inovadores. Mas, quando olho os ambientes, vejo que ao seu redor eles enxergam: paredes com cores pálidas, descascadas, placas com sinais de “saída de emergência” e “extintor de incêndio”. Algumas ainda possuem ar-condicionado para os dias mais quentes. Mas conheço poucas com aquecedores para os dias mais frios. Líderes autoritários, ríspidos e pouco abertos a novas ideias. Tudo é medido em termos de custo e quase nada em termos de valor agregado. Não é à toa que a retenção de talentos tornou-se um pesadelo para as empresas. Elas são as próprias fontes desses sonhos maus.

 

Um bom caminho é agregar às metas numéricas uma definição clara, da experiência que se deseja proporcionar aos funcionários. Do mesmo modo que a empresa preocupa-se em desenvolver um produto e serviço com características para atrair clientes, especialmente os mais lucrativos, deve ter um profundo interesse em atrair pessoas, especialmente aquelas capazes de agregar mais valor.

 

Luz, câmera, ação!

A melhor forma de fazer isso é ter uma visão idêntica à de um diretor de cinema. Se queremos  uma meta, devemos pensar na imagem que a torne clara como experiência de vida. Como serão os ambientes, quando uma determinada meta for alcançada? É difícil querer que um empregado sinta-se alegre com o fato de a empresa ter crescido 10%, quando, para ele, nada mudou em seu ambiente de trabalho: cadeiras desconfortáveis, equipamentos quebrados, nenhuma atualização nos computadores ou sistemas. Só mais trabalho. 

Outro elemento a definir é o conjunto de temas dos diálogos que queremos ver nas organizações. Lembro-me, quando gerente de vendas na área de computação, no início dos anos 1990, de que as reuniões mensais com o diretor falavam exclusivamente sobre: “Cumprimos a meta, agora vamos para a meta do mês que vem.” Ano após ano, esse era o assunto. Como ser inovador, se a conversa é só essa? 

Finalmente, definir como são as pessoas, especialmente os líderes de que a organização precisa. Gerentes coercivos, sem abertura para diálogos e novas ideias, vão atrair que tipo de funcionário? É esse o tipo de colaborador que será capaz de apoiar a estratégia da empresa e segui-la? Muitas organizações não percebem que sua cultura impossibilita a execução da estratégia. E que, ao final, o que irá prevalecer é a cultura, não a estratégia. Observe os países e entenderá ao que me refiro. 

A pessoa que vê a si mesma como um diretor de cinema, com a missão de criar a vida mais desejável possível, sabe que os números são importantes somente na medida em que contem uma história marcante, relevante e inspiradora. As empresas deveriam fazer o mesmo. Os departamentos financeiros não podem ser os únicos responsáveis por todas as decisões, principalmente aquelas que provocam nos funcionários experiências de vida que os desmotivam, tiram sua energia e dificultam sua atuação para gerar valor para a companhia.

As pessoas passam mais de 60% do tempo que estão acordadas dedicadas ao trabalho. Sua experiência de vida, portanto, é diretamente influenciada pela qualidade do que vivenciam no trabalho. E ela é formada pelos ambientes, diálogos e líderes a que são submetidas. Afinal, todo ser humano precisa mais de inspiração do que de números. Vamos em frente!

Silvio Celestino

É coach de gerentes, diretores e CEOs desde 2002. Também atende a executivos que desejam assumir esses cargos. Possui certificação e experiência internacional em coaching. Foi executivo sênior de empresas nacionais e multinacionais na área de Tecnologia da Informação. Empreendedor desde 1994.