Liderança não é para amadores

Líderes despreparados causam grandes transtornos às pessoas, às empresas e aos governos. O desconforto do cotidiano e o desrespeito a que indivíduos são submetidos são evidências de que algum líder não fez o que devia. Preparar líderes deveria ser o primeiro item da agenda das empresas e do governo.

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Líderes despreparados causam grandes transtornos às pessoas, às empresas e aos governos. O desconforto do cotidiano e o desrespeito a que indivíduos são submetidos são evidências de que algum líder não fez o que devia. Empresas que repentinamente surgem como extraordinárias e, logo em seguida, caem em desgraça; ou companhias que por longos períodos foram ícones, mas não acompanharam a evolução do mundo, também são resultado de uma liderança despreparada. Assim, igualmente, é um governo com ideias e comportamentos anacrônicos, distante da realidade e que não possui competência para lidar com crises quando elas surgem. O despreparo semeia muitas adversidades, desgraças e angústias. 

Como surgem os líderes despreparados

Em geral, somos liderados por pessoas que falam bem, não por aquelas que pensam bem. Na cabeça da maioria, aquele que sabe expressar suas ideias com carisma e seduz a audiência é mais preparado que outro com linguagem complexa e que não é charmoso em seus discursos. É uma pena que pessoas prefiram quem as emocione aos que são mais preparados para liderar.

Acionistas de empresas são ingênuos, quando escolhem executivos que emplacam bem perante uma plateia, mas são péssimos na condução de negócios e pessoas. Não é difícil alguém apresentar resultados elevados no curto prazo, principalmente quando seu bônus depende disso. Complexo é prever os momentos de contração econômica, avaliar uma nova tecnologia e perceber outros fatores que podem destruir a companhia. Isso exige reflexão, e alguém que fale muito, em geral, não dedica o tempo necessário à leitura, ao debate de ideias diferentes da sua, ao aprimoramento e à atualização de seu pensamento. O mesmo ocorre em governos.

Geralmente, líderes despreparados seguem somente uma ideia, na esperança de que a realidade se adapte a ela. Por isso, avalie sempre com severa restrição pessoas que não leem, ou que leem somente um livro repetidamente. A complexidade do mundo exige que o indivíduo em cargo de liderança esteja sempre atualizado com o que acontece pelo mundo. Principalmente com a ciência e as novas tecnologias. E tome muito cuidado com líderes que se baseiam em ideias que não funcionaram em nenhum lugar e refutam aquelas que são comprovadamente eficazes.

Como preparar líderes

Líderes são guardiões de um propósito elevado. Portanto, a preparação de pessoas para a liderança começa com a investigação e a criação autêntica de um propósito que seja marcante, relevante e inspirador para todos que fazem parte de um grupo, quer seja uma família, empresa ou um país. Não há nenhum outro motivo para alguém liderar, a não ser cumprir um propósito.

“Eu tenho um sonho de que, um dia, os filhos dos descendentes de escravos e os filhos dos descendentes dos donos de escravos poderão se sentar junto à mesa da fraternidade.” – Martin Luther King.

“Eu queria evitar a violência. A não violência é o primeiro artigo da minha fé. É também o último artigo do meu credo.” – Gandhi.

“Devemos respeitar e educar nossas crianças, para que o futuro das nações e do planeta seja digno.” – Ayrton Senna.

Com base em seu propósito, tudo que o líder faz é desenvolver outros líderes, para que estes também se transformem em guardiões. Para tanto, exercita as diversas competências de liderança: comunicação, delegação, follow-up, feedback, motivação, entre outras.

Bons líderes formam bons líderes, não seguidores. Quando o líder esforça-se para formar seguidores, a sua ausência causa o caos, pois as pessoas não saberão o que fazer, principalmente diante de uma adversidade. Não há, em essência, nada de errado na consulta que a presidente Dilma Rousseff e o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad, fizeram a Lula, diante das manifestações contra seus governos. Mas, antes de chegar a ele, deveriam ter consultado o vice-presidente da República (no caso de Dilma), os ministros e demais órgãos de governo. De que adianta ter 39 ministros se, quando um grave problema surge, a presidente consulta alguém que, mais do que oferecer sua opinião, lhe diz o que fazer? Quem está governando de fato?

Isso ocorre também em empresas, particularmente nas familiares, nas quais o principal líder é centralizador. Na sua ausência, ninguém sabe o que fazer ou tem medo de agir e ser duramente censurado por ele. Enfim, seguidores são maus líderes.

Por isso, a preocupação primordial de quem está na liderança é a formação de outros líderes. Afinal, propósitos elevados não morrem; líderes, sim!

Para aprender as habilidades mencionadas, a formação do líder deve englobar literatura específica, conhecimento científico a respeito da liderança (sim, há muitas pesquisas sobre o tema, embora poucos leiam a respeito), troca de experiências com outros líderes, principalmente com aqueles que possuem ideias diferentes, atualização constante e, para os casos de elevado potencial, coaching.

O importante é que todos tenham consciência de que são líderes, pois lideram sua própria vida. E que tenham propósitos elevados para si, pois, sem eles, nenhuma empresa, família ou país é adequado ao indivíduo.

Que as pessoas sejam livres para escolher seus propósitos, desde que eles as conduzam à coexistência, à maturidade, ao crescimento e à construção do mundo. Que sejam capazes de estabelecer e cumprir seus compromissos. Afinal, ninguém é líder até que sua palavra seja tão concreta quanto suas ações.

Preparar líderes e fazê-los se interessar em ocupar posições relevantes nas empresas, nos governos e no mundo promoveria oportunidades a um número incontável de pessoas que, na atualidade, são vítimas de graves infortúnios provocados por líderes totalmente despreparados, anacrônicos e de má índole.

Silvio Celestino

É coach de gerentes, diretores e CEOs desde 2002. Também atende a executivos que desejam assumir esses cargos. Possui certificação e experiência internacional em coaching. Foi executivo sênior de empresas nacionais e multinacionais na área de Tecnologia da Informação. Empreendedor desde 1994.