As manifestações e sua carreira. Pelo que as vozes se levantam?

Há um apelo pela dignidade que paira sobre os manifestantes que, pacificamente, ocupam ruas nas cidades brasileiras. E, acredite, isso tem a ver com sua carreira, mais especificamente com a renda que ela gera e o quanto dessa renda fica com você ao longo do tempo.

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores
arrow_forwardMais sobre

Há um apelo pela dignidade que paira sobre os manifestantes que, pacificamente, ocupam ruas nas cidades brasileiras. E, acredite, isso tem a ver com sua carreira, mais especificamente com a renda que ela gera. 

Esse estranho governo brasileiro

Mas, primeiro, gostaria de falar sobre a atuação da polícia. Muitas famílias já passaram pela mesma experiência que a minha: foram vítimas da violência. Minha esposa e eu já fomos assaltados com armas apontadas para nossas cabeças. No caso de meu irmão, usaram uma metralhadora. Minha irmã emigrou, entre outros motivos, porque não suportava mais a violência no Brasil. Minha mãe já foi sequestrada e teve todas as suas joias roubadas dentro de casa. Tenho um primo que foi brutalmente assassinado, assim como o irmão de um grande amigo. Em ambos os casos, os assassinos são conhecidos. Mas eles nunca foram presos.

Em nenhum desses eventos, a polícia apareceu antes e coibiu as ações dos bandidos (não apareceu depois, também). Se houve investigação, foi feita por incompetentes que nunca deram respostas. Mas, quando manifestantes decidem falar de forma determinada contra uma das muitas mazelas do Estado, a polícia surge em quantidade estonteante. Equipada, com inteligência e capaz de romper uma marcha pacífica em poucos instantes. Competente e eficiente.

Que tipo de Estado é esse que somente equipa a polícia para agir em seu benefício? Por que esses policiais não estão disponíveis para nós com as mesmas armas, disposição, inteligência e eficiência para combater os criminosos? Ou os criminosos e o Estado estão do mesmo lado e nós é que estamos do outro? Aliás, combater apenas? Não! Antecipar-se! Como fez a polícia, que evitou, na quinta-feira, dia 13 de junho, em São Paulo, que a marcha seguisse para a Avenida Paulista. E não faltaram equipamentos, bombas e balas de borracha para combatê-los. Felizmente, após isso, envergonhados,  reduziram sua violência, ao menos em São Paulo.

Curiosamente, faltam recursos para antecipar a ação de bandidos que nos atacam, sem falar em competência e interesse em solucionar crimes. Aproveitando que a Polícia Militar resolveu visitar a região tão próxima ao bairro dos Jardins, em São Paulo, seria pedir muito para prender os assaltantes que têm feito arrastões nos prédios da região? Pelo visto, como chegar ao local a polícia sabe. A propósito: os condenados do mensalão já estão atrás das grades? O que estão esperando?

É a moeda, estúpido!

Não são os R$ 0,20. Somente um tolo imagina que o protesto, em São Paulo, é a respeito do valor da passagem de ônibus. É sobre termos uma moeda que tenha valor.

Afinal, de que adianta avançar em sua profissão, se você é pago com um dinheiro que perde valor ao longo do tempo? E é muito fácil ser governante, quando tudo que é preciso fazer é imprimir papel para gerar dinheiro sem lastro, ou melhor, lastreado em dívidas do próprio governo. Elas serão pagas pelo contribuinte, é claro.

Nós nos acostumamos a achar normal que subam os preços da gasolina, dos transportes, dos tributos, dos alimentos e das casas e, depois, pedirmos aumento de salário.

Não são os preços que sobem, é a moeda que se desvaloriza. Como não é possível, ao governo, pegar ao final do ano a nota de R$ 10,00 no seu bolso e trocá-la por uma de R$ 9,30; o que é feito é aumentar o preço das coisas. É esse modelo que não funciona. E não funciona há tempos, nem aqui, nem em outros países.

As pessoas trabalham uma vida toda e não conseguem avançar na velocidade de seus esforços, de sua produtividade, pois estão enxugando gelo. Cada real que recebem se desvaloriza e, como não possuem meios de fixar os preços ou aumentar o próprio salário, ficam no final da fila da economia. Primeiro aumentam os rendimentos dos deputados e demais políticos, depois das empreiteiras e outros fornecedores do Estado, depois outros funcionários públicos. Então, sobem tributos, produtos, serviços, juros e, finalmente, hora de aumentar os salários do setor privado.

Se começarmos a questionar a moeda sem lastro, começaremos a entender o que são essas manifestações no Brasil e no mundo. Uma pessoa é tratada com dignidade, quando seu trabalho é pago com moeda que mantém seu valor ao longo do tempo, não com essa pseudomoeda criada com papel, cartões de plástico ou em bytes.

Imagine o quanto de conforto, possibilidades e oportunidades em sua vida você usufruiria, se fosse pago sempre com uma moeda que mantivesse seu valor ao longo do tempo.

Sobre as manifestações

Se o propósito é criar dignidade para todos, não sou a favor de que pessoas andem de graça nos ônibus. A ideia de que as coisas deveriam ser de graça deriva da vivência das pessoas de que o dinheiro que ganham não é capaz de fazer frente aos aumentos frequentes do preço de produtos e serviços.

Se quisermos ser tratados com dignidade, tudo começa com uma moeda digna. É disso que tratam as manifestações ao redor do mundo.

Sugestões para a manifestação democrática

O verdadeiro democrata luta pela coexistência de direitos. Manifestação democrática tem hora para começar e acabar. Recordo-me de, em visita a Roma, em 2011, ver protestos com hora marcada para o término. Ocorreram por dias, mas, ao estabelecer seu horário de começo e fim, coexistiam com o direito dos demais de ir e vir. Aliás, o fato que mais me impressionou foi entrar em uma cafeteria ao lado do protesto e ver manifestantes e policiais tomando café juntos, conversando. Afinal, posso discordar do que você berra a plenos pulmões, mas jamais discordarei de seu direito de ter ideias diferentes da minha. O governo brasileiro deveria pensar o mesmo.

Se me permitem uma sugestão, já que querem melhorar de fato o País, uma manifestação sustentável deixaria as ruas pelas quais passa melhores do que as encontraram.

Por último, penso que os movimentos devem continuar a envergonhar a polícia. Aos mais jovens, protejam-se! Tomem cuidado! Afastem-se de indivíduos que usam da manifestação para mostrar sua frustração e danificar propriedades públicas e privadas. Mostrem a força da não violência. Não reajam a provocações. Lembrem-se de Gandhi, de Martin Luther King: envergonhem os policiais pela não violência, que estarão envergonhando um governo inteiro. Minha visão é a mesma que a recomendação da ONU: hora de encerrar com a Polícia Militar: ela serviu, e continua a servir, a governos brutos, ditatoriais de fato ou de conduta.

Vamos em frente!

Silvio Celestino

É coach de gerentes, diretores e CEOs desde 2002. Também atende a executivos que desejam assumir esses cargos. Possui certificação e experiência internacional em coaching. Foi executivo sênior de empresas nacionais e multinacionais na área de Tecnologia da Informação. Empreendedor desde 1994.