A difícil arte de formar o líder de origem técnica

Por vezes a promoção de um profissional a um cargo de liderança faz a empresa perder um técnico nota 10 e ganhar um líder nota 1. Para muitos profissionais, principalmente aqueles oriundos de carreiras intensivas em conhecimento, ser líder é ser o técnico dos técnicos. Uma visão inapropriada e que tem causado grandes transtornos na formação de líderes estratégicos e capazes de delegar e formar novos líderes.

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Por vezes a promoção de um profissional a um cargo de liderança faz a empresa perder um técnico nota 10 e ganhar um líder nota 1. Existem muitos fatores a se considerar quando decidimos promover alguém a um cargo no qual estará responsável por pessoas e pela obtenção de resultados por meio delas. O principal é despertar no indivíduo sua capacidade de sair da esfera técnica e interessar-se por desenvolver outros e integrá-los aos propósitos da empresa e, principalmente, dos clientes.

O desafio começa quando observamos que, em sua vida voltada para processos e o uso da tecnologia, o profissional evolui adquirindo o conhecimento clássico – aquele que pode ser obtido em livros ou em cursos. Seu mundo possui uma racionalidade que é expressa a partir de uma sequência de ações que, quando repetidas, produzem o mesmo resultado. Por isto a segurança de um indivíduo oriundo da carreira técnica está em seu conhecimento. Quanto mais sólido ele for, quanto mais profundo e preciso, maior a velocidade com que consegue resolver os problemas que lhe são apresentados, e mais valioso se sente para a empresa e para si mesmo. Isso ocorre com o contador, o analista financeiro, mas também com o engenheiro, por exemplo.

Entretanto, ao ingressar na carreira de liderança, as máquinas e os processos vão para o cenário, ou seja, o indivíduo deixa de interagir com eles e passa a lidar com pessoas de um modo muito específico: obter resultados por meio delas. Nesse contexto o conhecimento clássico já não conta tanto, pois cada indivíduo é um ser único e, portanto, a melhor forma de conhecê-lo é conversando com ele, observando suas ações e refletindo sobre seus propósitos – que podem mudar de um momento a outro e por fatores desconhecidos e que estão fora da esfera profissional. Além disso, nem todos os comportamentos são racionais, o que é incompreensível para aqueles formados tecnicamente. Para piorar, uma pessoa que o novo líder conseguia motivar com uma frase inspiradora, agora considera esta mesma mensagem inócua, enfadonha e ridícula.

E finalmente chega o fator da maior complexidade para o técnico em cargo de liderança: a emoção.

Seres humanos são máquinas geradoras de emoção. Se, em um dado instante, a pessoa produzir uma que seja disfuncional, seu trabalho e, por vezes, o da equipe estará irremediavelmente perdido. Neste fator reside a maior parte do dispêndio de energia do líder, seu estresse e, no longo prazo, seu esgotamento. Por exemplo, um contador que “dirigia-se a um computador” com palavrões quando este demorava para responder a um comando, ao tomar a mesma atitude com um de seus liderados gera as condições para que este último produza medo e se paralise. Um analista financeiro que conseguia produzir sofisticadas análises simultaneamente, ao tentar fazer sua equipe realizar muitos projetos em paralelo gera as condições para que ela fique frustrada, ansiosa e estressada. Nesses exemplos, o resultado fica comprometido na qualidade, atrasado ou, simplesmente não é atingido. É quando o líder tem de enfrentar a mais difícil das emoções: a sua própria.

O desenvolvimento intelectual na carreira técnica faz o indivíduo acreditar que tudo pode ser aprendido por meio da leitura e do estudo. Na verdade, por maior que seja seu conhecimento sobre inteligência emocional – e há muitos livros consagrados a respeito, se a pessoa não se sujeitar à interação com outros com os propósitos de dominar suas emoções e amadurecer, dificilmente conseguirá exercer a liderança sem tornar-se disfuncional.

Nas organizações observamos gestores, inclusive no mais alto posto da empresa, que são capazes de gerar excelentes resultados financeiros, mas estão profundamente estressados e, alguns, com doenças em decorrência disso. Lamentavelmente, em muitos casos, são eficientes profissionalmente, mas ineficientes na vida pessoal, o que é uma forma terrível de fracasso.

A passagem da carreira técnica para a de liderança exige que o indivíduo se exponha a experiências que possam aprimorá-lo no trato das emoções, principalmente nos momentos críticos. A capacidade de dominá-las e lidar com as dos subordinados, superiores, pares e clientes, desempenha um papel fundamental nestas ocasiões, e é um fator-chave para o desenvolvimento de sua carreira.

Nestes quase 10 anos de experiência como coach de líderes empresariais, observo que o papel da empresa é oferecer em sua cultura um sistema que permita a existência de um fluxo constante de novas lideranças (pipeline de líderes). Nele, de acordo com o nível hierárquico da pessoa, ela tem acesso a palestras, workshops e cursos que a despertem para estas questões do auto-desenvolvimento, emoções e maturidade. Mas, complementariamente, a partir de uma certo ponto em sua carreira, tem a possibilidade de submeter-se a uma metodologia específica de formação de liderança: o coaching. Em linhas gerais é o processo de desenvolvimento de competências do líder, e que pode ser utilizado também de forma abrangente para que o indivíduo possa desenvolver outras esferas de sua vida.

Entretanto, todas estas ações devem ser integradas à estratégia da empresa de forma a auxiliar o profissional a, paulatinamente, ter uma visão cada vez maior de si mesmo, e de seu papel, frente aos desafios da corporação. Apesar da relevância incontestável da carreira técnica, o que se espera de um profissional ao chegar à maturidade é que seja capaz de se responsabilizar por pessoas e desenvolvê-las. Daí a importância de todos se inspirarem a enfrentar este desafio fundamental para as organizações e o país: a formação de líderes. Vamos em frente!

PS Para os profissionais de finanças interessados em conhecer o processo de coaching para o desenvolvimento de sua carreira, convido-os a participar do evento na ANEFAC que falará sobre o tema: 

“Coach como Ferramenta para o Auto Desenvolvimento da Carreira “

Foi o convite para que eu desse uma palestra nesse evento que deu origem ao texto acima. Espero vê-los por lá:

Data: 09/05/2013 (quinta-feira)

Horário: Das 08h00 às 12h00

Local: Auditório FIPECAFI (Rua Maestro Cardim, 1170, Paraíso/São Paulo/SP)

Maiores informações: http://www.anefac.com.br/Pages/LeitorEventos.aspx?id=242

 


Silvio Celestino

É coach de gerentes, diretores e CEOs desde 2002. Também atende a executivos que desejam assumir esses cargos. Possui certificação e experiência internacional em coaching. Foi executivo sênior de empresas nacionais e multinacionais na área de Tecnologia da Informação. Empreendedor desde 1994.