A vitória dos “desqualificados”

Ainda que a passos bem curtos, o Brasil caminha para uma maior internacionalização do mercado financeiro, algo extremamente benéfico para o investidor

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(Getty Images)

Na primeira coluna que escrevi aqui, há mais ou menos um mês, falei sobre o “V de vitória” em analogia à recuperação em forma de V (rápida) do mercado americano frente à crise causada pela pandemia do novo coronavírus.

E hoje, coincidentemente, venho falar sobre outra vitória: a que tive o prazer de vivenciar nesta semana, com a liberação dos BDRs para investidores e investidoras de varejo (comuns) brasileiros.

Para quem não sabe, os BDRs (Brazilian Depositary Receipts) são certificados de depósito emitidos e negociados com lastro em valores mobiliários de companhias estrangeiras.

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São basicamente certificados de ações de empresas estrangeiras, muitas das quais não só conhecemos como também consumimos produtos e serviços diariamente: Amazon, Apple, Coca-Cola, Google, Visa, entre diversas outras.

Esses certificados permitem que investidores acessem lastros de ações dessas empresas daqui mesmo da nossa Bolsa de Valores, a B3, sem que seja necessário abrir uma conta em uma corretora no exterior (no caso, no país onde a ação é negociada).

Ou seja, sem a necessidade de fazer operações de câmbio, transferência de recursos para o exterior ou mesmo ter preocupações com questões tributárias internacionais.

Até a última segunda-feira (10), somente investidores qualificados, aqueles definidos pelo nosso regulador, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), como pessoas com mais de R$ 1 milhão em investimentos (ou algum tipo de certificação aprovada pelo regulador), tinham acesso a esse tipo de produto.

Desde que lancei a minha série na Spiti, Você, Investidor Global, em fevereiro deste ano, venho acompanhando este movimento por parte do regulador.

Quem me conhece sabe o quanto tenho batalhando contra a exclusão dos investidores comuns de vários produtos com acesso global, tendo como base somente os recursos que essas pessoas têm disponíveis para investimentos.

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Com isso, a pergunta que mais ouço dos meus assinantes e que já virou até uma brincadeira é: “Então quer dizer que se eu não tiver um R$ 1 milhão em investimentos sou considerado um investidor ou investidora desqualificada?”

Ou ainda: “E nós, pobres mortais, não termos recomendações nesta semana?” – quando recomendo produtos disponíveis somente para os investidores qualificados.

Eu, particularmente, não gosto nadinha do termo “qualificado” e muito menos da definição baseada somente em recursos financeiros.

Mas acho que isso é tema para uma próxima coluna, pois hoje trago uma notícia incrível para você, investidor ou investidora comum: na última terça-feira, dia 11 de agosto, a CVM finalmente alterou as regras para investimento nos BDRs.

A partir do dia 1º de setembro deste ano, todos os investidores brasileiros terão acesso aos BDRs, a títulos de dívida no exterior e a ETFs (fundos de índice) que poderão ser listados como BDRs na nossa Bolsa.

E a nova regra também permitirá que empresas brasileiras listadas no exterior emitam seus BDRs no mercado local.

Essas mudanças são extremamente importantes para estimular os investidores e investidoras brasileiras a diversificar.

Atualmente, investimos 99% de nossos ativos no Brasil, e o nosso país representa menos de 2% do mercado de capitais mundial. Portanto, ficamos excluídos de um mundo, literalmente, de oportunidades de investimentos.

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A alteração dessas regras nos permite facilmente acessar outras regiões e, principalmente, setores tão escassos na nossa Bolsa de Valores, como os de biomedicina e tecnologia, e abre caminho para a criação de uma gama de novos produtos e listagem de diversos fundos de índices estrangeiros na B3.

Acredito piamente no acesso e na democratização dos investimentos, e é por isso que o meu objetivo principal hoje é fazer com que os investidores e investidoras brasileiras diversifiquem suas carteiras e passem a incluir ativos no exterior entre seus investimentos.

Aqui não se trata só de se ter mais e maiores oportunidades; diversificar é também uma necessidade.

Lembro que Ray Dalio, fundador da gestora Bridgewater e gestor de um dos maiores hedge funds (equivalentes aos nossos multimercados) do mundo, explicou em uma de suas palestras para investidores brasileiros a importância da diversificação da carteira.

Ele afirmou que o investidor deve diversificar suas posições, pensando em regiões, moedas, setores e estratégias sem correlação, e somente depois pensar em posições táticas para seus investimentos.

“O primeiro passo é começar a diversificar”, Dalio reiterou. E, para fazer isso efetivamente, precisamos olhar para as opções e oportunidades que o mundo nos oferece.

Por isso, a vitória desta semana é sobre muitas coisas: é a vitória da diversificação, do acesso, da abertura e da maturidade do mercado.

É a nossa vitória como investidores, a fim de termos mais formas de acessar os mercados no exterior e nos tornarmos investidores globais.

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Existem, sim, outras formas e produtos que também precisam “entrar na fila” da flexibilização, como os fundos de investimento que investem 100% de seus recursos no exterior, e hoje continuam disponíveis somente para investidores qualificados.

Espero que o nosso mercado caminhe para uma maior abertura e para ter mais opções de acesso, pois, quanto maior a gama dessas opções, maior a competição e melhores se tornam os produtos e serviços disponíveis.

Obrigada, CVM, por nos ajudar a dar esses primeiros e importantes passos rumo à globalização das nossas carteiras de investimentos.

Ainda assim, é importante ressaltar uma coisa: nós aqui estamos apenas começando.

Francine Balbina

Especialista em investimentos globais da Spiti, formada em Relações Internacionais e pós-graduada em Consultoria Empresarial. Tem 15 anos de experiência em prestação de serviços de governança e compliance para gestores de investimentos independentes, assets, bancos, family offices e investidores institucionais globais. A expertise adquirida nos anos em que viveu nas Ilhas Cayman e em Nova York, bem como sua atuação na Irlanda, Luxemburgo, Londres, EUA, Hong Kong e Cayman são sua fonte de inspiração para trazer conteúdo que cobre todo o mercado financeiro internacional.