“Trump, não adianta recuar, a zona já está feita”, diz Sr. Mercado

Trump é claramente um mercantilista, mentalidade que perdeu seu fio nos anos 80

Sr. Mercado

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Eu, Senhor Mercado, me alimento de narrativas. Essa sempre foi a minha dinâmica, certo ou errado, é dessa forma que a banda toca.

Desde que Donald Trump anunciou a sua agenda tarifária, o mundo entrou num conflito que acabou polarizado entre as duas geografias que respondem por 63% do crescimento do PIB global nos últimos 40 anos: EUA e China. De um lado, o maior comprador; do outro, o maior vendedor do planeta.

Já rompi meu silêncio literário por meio desta coluna algumas vezes sobre esse tema, no meio de tanta incerteza, uma verdade é soberana: a zona já está feita, Mr. Donald.

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Por mais que o líder da Casa Branca tenha “recuado”, mudado sua abordagem com Xi Jinping nas redes sociais, tecendo elogios ao mesmo, aparentemente numa caminhada para realizar acordos com as diversas geografias. Trump é claramente um mercantilista, mentalidade que perdeu seu fio nos anos 80.

Reindustrialização, historicamente, foi um ponto importante para definir o rumo de muitos caminhos do mundo, especialmente definir vencedores de conflitos bélicos longos como as diversas guerras que vivemos – óbvio, com suas exceções. Os EUA possuem uma economia pautada em déficit na balança de produtos, mas superávit nos serviços.

Nuvem, inteligência artificial, streamings, assim por diante. Eles detêm as patentes, a pesquisa e o desenvolvimento, o design.

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O resto do planeta confecciona o que sai de dentro da cabeça do americano, simplesmente isso. Existe uma lógica?

Claro, a diferença de remuneração média entre empregos atrelados a serviço versus os manufatureiros é de 20%. Quem trabalha com serviço, na média, é mais rico que os demais.

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O americano claramente não quer fazer sapatos ou costurar blusas de frio. O impacto das tarifas talvez nem seja tão potente ao consumidor, mas deve afetar mais as companhias, que, por sua vez, devem lucrar menos.

Os diversos investidores que juntos definem os preços e, dessa forma, a minha opinião implícita neles, acreditam que o equilíbrio dessa novela será pior para a economia americana e do mundo. Em outras palavras, o mundo deve crescer menos do que era esperado anteriormente.

A boa notícia dessa vez é: as economias entraram nesse cenário com maior gordura nos juros, então a política monetária possui mais espaço de manobra e, dessa forma, os bancos centrais devem cortar seus juros. O Federal Reserve, inclusive, que normalmente é o pivô dessas mudanças de taxa basal das economias no nosso planeta (que eu nem reconheço mais).

Enquanto isso, a narrativa de que o modelo econômico americano deve ruir, sob ameaças claras da poderosa China e de uma reorganização global de alianças. O dólar vai ser destruído do ponto de vista de reservas.

Sinceramente? É sério que vocês vão vestir novamente o jaleco de especialistas de geopolítica?

Os entes do mercado não cansam de pensar que são mais inteligentes que a média em tudo apenas pelo fato de serem extremamente ricos. Eu vou colocar ordem na casa:

Quem vai absorver essa demanda por reservas? O ouro? Impossível!

Não há ouro o suficiente no planeta para essa quantidade brutal de dinheiro. Vamos pensar em uma alternativa, bitcoin?

Ele também é limitado e, nos últimos tempos, não se comporta como uma reserva de valor. Caminha correlacionado com o principal índice de ações do mundo em caráter de exposição a tecnologia: Nasdaq – experimente a versão ultra alavancada dele para se assustar como andam em conjunto.

A moeda chinesa? Nessa eu encerro a conversa, fora de cogitação…

Eu não deixei de existir em nenhuma das grandes crises da história. Em 2008, todos pensavam que era o fim do sistema global, o fim do mundo.

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Grandes recessões foram acompanhadas de crises financeiras, como a situação vivida no subprime. Aparentemente, nem isso estamos vivendo.

O “excepcionalismo americano” terminou? Talvez sim. O dólar vai seguir se desvalorizando contra o mundo? Provavelmente.

Com crescimento menor e menor lucro para as empresas, o múltiplo médio da bolsa americano pode ser menor nos próximos 40 anos? Possivelmente.

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Mas sinto, eu não vou acabar, o mundo não vai ruir, o sistema não vai mudar completamente. Meses atrás a China era o maior alvo de críticas:

“É impossível investir na China!”

“O modelo econômico chinês vai ruir, veremos crescimento demográfico negativo pela primeira vez”

“Ao invés de construir casas, a China vai destruir”

Sim, a bagunça de Donald Trump está feita. O mundo deve mudar, marginalmente, e o impacto de segunda instância é desconhecido por todos, inclusive por mim.

Apenas desconfie de afirmações extremamente convictas sobre o que vai acontecer com a geopolítica e o planeta nos próximos anos. Eu me alimento de narrativas, lembra?

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Sr. Mercado

é uma coluna semanal em que Lucas Collazo, apresentador do podcast Stock Picker, desvenda os pormenores do mercado financeiro