Leia com moderação: Crossing the Chasm (Geoffrey Moore)

A ideia do "abismo" popularizou um vocabulário no Vale do Silício. Mas o que Moore descreve pode ser menos uma lei universal e mais um retrato de como software B2B era vendido nos anos 1980

Rodrigo Fernandes

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

Continuamos a série “Leia com Moderação” com “Crossing the Chasm”, de Geoffrey Moore, publicado em 1991. O livro propõe uma intuição poderosa: existe uma passagem difícil entre clientes que compram tecnologia nova por visão de futuro e clientes que só compram depois que o risco diminui. Se a empresa não muda de estratégia nessa transição, ela fica com alguns pilotos, clientes entusiasmados mas pouca receita previsível. Relevante para um nicho pequeno, invisível para o mercado grande.

A prescrição é clara. Escolha um segmento. Torne-se referência nele. Entregue o “produto completo” que aquele comprador exige. Use esse território conquistado como ponto de partida para segmentos adjacentes, derrubando-os em sequência como pinos de boliche. É uma narrativa com metáforas memoráveis e aparente clareza operacional. A dúvida é se o “abismo” existe como estrutura inevitável e se a receita funciona para qualquer tipo de produto.

O “abismo” pode ser artefato da época, não lei universal

Moore se apoia na curva de difusão de Everett Rogers e insere uma quebra abrupta entre early adopters e early majority. O ponto é que a curva original é contínua. Sem saltos. A interrupção que Moore descreve aparece quando você observa empresas que tiveram tração inicial e depois travaram. Isso levanta uma pergunta simples: qual era a taxa normal de insucesso de startups naquele contexto?

Continua depois da publicidade

Sem esse comparativo, parte do que parece “cair no abismo” pode ser simplesmente o fracasso que é tão normal neste mundo das startups. Produto fraco, mercado pequeno demais, timing ruim, execução ruim. O livro não oferece grupo de controle. Não compara empresas que seguiram o modelo de conquista sequencial com empresas que cresceram de outro jeito. Não demonstra que o foco vertical aumenta as chances de sucesso.

O padrão pode ter sido real naquele período. Mas a tecnologia B2B da época dependia de venda direta, implementação pesada que levava meses, ciclos longos de vendas e pouca prova social verificável. O tal “abismo” pode ser menos uma característica psicológica universal dos compradores e mais uma consequência de como produtos eram vendidos naquele momento.

Não estamos discutindo o padrão clássico do produto que encontra fãs, mas trava na hora da adoção institucional. O sintoma é conhecido: pilotos que não convertem, ciclos de venda infinitos e exigências de compliance que mudam de patamar entre o teste e a compra. O fenômeno é real. O debate é sobre o que realmente causa isso e qual a melhor solução para atravessar esse abismo.

Continua depois da publicidade

SaaS e distribuição digital mudaram as regras do jogo

Moore escreveu antes da web comercial, antes de SaaS, antes de product-led growth. Em categorias self-service e mid-market, o custo de testar caiu drasticamente. Muitas ferramentas entram via cartão de crédito corporativo, uso individual e validação rápida em dias, não meses. Em vendas enterprise pesadas, isso ajuda a começar e provar valor. Mas não elimina os processos de procurement, auditoria de segurança e change management. O “abismo” pode mudar de lugar em vez de desaparecer.

Hoje existe muito mais prova social disponível do que existia em 1991. Reviews verificadas, comunidades de usuários ativas, cases públicos e sinais de confiabilidade reduzem a dificuldade de avaliar se o produto funciona de verdade. Isso diminui o risco percebido pelo comprador pragmático e muda o que precisa estar pronto desde o início. Em vez de uma barreira psicológica fixa separando perfis de cliente, você pode estar olhando para uma transição operacional: do uso individual e informal para a padronização oficial da empresa, da experimentação livre para a conformidade com políticas corporativas.

Facebook, Slack e Zoom cresceram ignorando o framework

Em produtos de consumo e categorias com efeito de rede, o crescimento costuma ignorar o roteiro B2B que inspirou o livro. Facebook cresceu de universidade para universidade. Embora houvesse alguma lógica nessa expansão, a dinâmica central era densidade de rede social, não conquista vertical no sentido de Moore. A expansão acontecia onde havia massa crítica de estudantes conectados entre si. Não seguia a lógica de “dominar completamente Stanford como beachhead vertical antes de expandir”.

Continua depois da publicidade

Slack e Notion se espalharam de baixo para cima dentro das organizações. Um usuário começava a usar, o time inteiro adotava de forma informal, a empresa só depois “descobria” que já havia um padrão estabelecido. Na pandemia, Zoom capturou demanda simultânea em escolas, empresas, famílias e governos ao mesmo tempo.

Nada disso prova que o “abismo” não existe. Prova que a forma do problema muda radicalmente quando a maneira de distribuir e validar produtos muda. Em alguns mercados, o que você chama de “abismo” pode ser apenas o momento em que você troca crescimento espontâneo e orgânico por crescimento que precisa de aprovação institucional e orçamento formal.

“Produto completo” é relativo, não absoluto

Moore argumenta que ‘early majority’ não compra tecnologia isolada. Compra solução completa para um problema. Por isso precisa de “produto completo”: suporte responsivo, integrações com sistemas existentes, documentação clara e, idealmente, parceiros de implementação. Esse ponto continua relevante em compras de alto risco, especialmente quando o software toca processos críticos. Mas o requisito de completude não é fixo nem uniforme entre categorias.

Continua depois da publicidade

Em muitas situações modernas, você não precisa de tudo pronto desde o dia um. Você precisa de completude para padronizar e escalar o uso dentro da empresa, não para começar. Vários produtos cresceram fazendo uma coisa muito bem, com escopo estreito. Dropbox começou simples focado só em sincronização. Instagram também lançou com produto mínimo.

O que muda é o trabalho sendo feito, quem toma a decisão de compra e qual é o risco envolvido. Para desenvolvedores, uma boa API documentada vale mais que interface visual perfeita. Para time remoto durante pandemia, confiabilidade de vídeo valia mais que features adjacentes de gestão de projetos. “Produto completo” é sempre relativo ao contexto. A pergunta prática é: completo para quem, em qual etapa do processo de compra, sob qual nível de risco?

O framework pode criar o problema que deveria resolver

O risco do livro não é o vocabulário que ele criou. É quando ele vira a única lente para interpretar problemas de crescimento. Founders com tração orgânica em múltiplos segmentos podem artificialmente restringir crescimento porque “precisam escolher um vertical e dominá-lo antes de expandir”. Podem rejeitar oportunidades comerciais reais que estavam funcionando porque não seguem a sequência prescrita. E podem interpretar qualquer desaceleração de crescimento como “chegamos ao abismo estrutural” quando a causa real é mais mundana.

Continua depois da publicidade

Posicionamento confuso. Perfil de cliente ideal mal definido. Canal de aquisição fraco. Onboarding que perde usuários. Pricing inadequado. Ou simplesmente produto que não entrega o resultado prometido.

Também existe um viés de sobrevivência invertido, pouco discutido: empresas que focaram demais na vertical errada. Quantas startups perderam janelas de mercado importantes enquanto executavam com disciplina a estratégia de conquista sequencial? Atrasaram expansão natural, deixaram concorrentes mais ágeis capturarem território disponível. A teoria tende a tornar visíveis apenas os sobreviventes que “focaram certo”. Deixa invisíveis os que “focaram demais” no lugar errado e quebraram antes de virar caso de estudo.

O livro captura insights de como certos produtos B2B eram vendidos em um período histórico específico. Isso foi extrapolado para “como toda tecnologia é adotada sempre, em qualquer lugar”. Mesmo em contextos que parecem similares aos anos 1980 — hardware físico com alto custo de mudança, software que exige integração profunda em sistemas legados críticos, vendas enterprise complexas com ciclos longos — não há garantia de que a estratégia de conquista sequencial funcione melhor que outras abordagens. O contexto pode parecer similar, mas as dinâmicas de mercado, competição e expectativas dos compradores mudaram.

A melhor abordagem é diagnosticar quais são as barreiras específicas que impedem seu produto de expandir. É falta de confiança e credibilidade? É a dificuldade de integração técnica? É custo alto de mudança para o cliente? É a necessidade de densidade de rede para funcionar? É compliance e processos de procurement corporativo?

Cada tipo de barreira aponta para uma solução diferente. Construir prova social e casos de sucesso. Melhorar produto e fluxo de onboarding. Redesenhar estratégia de canal. Mudar completamente o modelo de venda. Ou adotar PLG para contornar parte do risco percebido. Às vezes a melhor resposta é realmente foco vertical estreito. Às vezes é expansão horizontal rápida capturando demanda onde ela aparece. Às vezes é crescimento bottom-up ignorando compradores institucionais.

“Crossing the Chasm” é valioso como mapa conceitual de um tipo específico de problema de crescimento. Só não é a constituição universal da adoção de tecnologia. E o teste honesto é perguntar, caso a caso, se o seu “abismo” é realmente uma barreira estrutural inerente ao mercado, uma dificuldade operacional temporária que pode ser resolvida, ou simplesmente um nome elegante e reconfortante para problemas de execução já bastante conhecidos.

Autor avatar
Rodrigo Fernandes

Rodrigo Fernandes é fundador da Comunidade Métricas Digitais, espaço de referência em métricas e finanças para negócios da Nova Economia. Com longa experiência no mercado digital, integra finanças, estratégia e governança para apoiar empresas em escala e eficiência. Além disso, é Professor na Fundação Dom Cabral, mentor no G4 Educação, advisor na Pingback e Templo Educação e Senior Partner na VPx Company.