Comércio agêntico é ilusão (Amazon e Shopify sabem disso)

A promessa do comércio agêntico é delegar decisões de compra a algoritmos inteligentes

Rodrigo Fernandes

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Imagine um assistente de IA que cuida das suas compras. Você diz: “Preciso de papel higiênico e detergente”, e ele pesquisa na internet, compara preços, analisa avaliações e finaliza a transação. Sem que você precise abrir uma dúzia de abas no navegador. É o piloto automático total.

Essa é a promessa do comércio agêntico: delegar decisões de compra a algoritmos inteligentes. Parece inevitável, até óbvio. Mas há dois obstáculos principais. Primeiro: as duas maiores plataformas de varejo do mundo estão ativamente bloqueando essa evolução. Segundo: a maioria das pessoas não quer abrir mão do processo de compra. Para muitos, comprar não é uma tarefa tediosa. É uma forma de descoberta e entretenimento.

Em agosto de 2025, a Amazon bloqueou o acesso de vários agentes de IA, incluindo ChatGPT, Claude, Perplexity e o Project Mariner do Google, com disputas legais recentes contra a Perplexity por uso de agentes “camuflados”. O Shopify, por sua vez, desenvolveu infraestrutura para “suportar” o comércio agêntico, mas com restrições estratégicas: os agentes não podem completar transações sozinhos e só funcionam com o Shop Pay, exigindo revisão humana em pagamentos automatizados.

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A mensagem das duas empresas é clara: ninguém vai interferir na nossa relação direta com o cliente. Ainda assim, disputas como essas podem forçar integrações graduais no futuro, impulsionadas por protocolos abertos ou pressões regulatórias.

Dados valem mais que vendas incrementais

Em 2024, a Amazon faturou US$56,2 bilhões em publicidade. No segundo trimestre de 2025, foram US$15,7 bilhões. Essa receita publicitária já compete com as margens do varejo tradicional. Vender produtos virou algo secundário; o que realmente importa é entender como você compra.

O combustível dessa máquina são os dados comportamentais: cada hesitação entre duas marcas de café, cada tênis visualizado várias vezes, cada carrinho abandonado por causa do frete alto. Esses rastros alimentam anúncios direcionados, sistemas de recomendação e precificação dinâmica.

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Se um agente externo realizar a compra, a Amazon perde esse rastro valioso. Ela vê apenas a transação final, sem o processo intermediário. E perde algo ainda mais crítico: a capacidade de prever comportamentos futuros e calcular o valor vitalício do cliente. Sem esses dados, o valuation bilionário da empresa desaba.

O Shopify segue a mesma lógica, com foco em pagamentos. Cada transação via Shop Pay gera insights sobre padrões de compra, que hoje são monetizados de forma moderada, mas amanhã podem sustentar um negócio publicitário escalável. A Amazon bloqueia na fase de descoberta; o Shopify, na transação. São táticas diferentes, mas com o mesmo objetivo: proteger o ativo mais valioso.

Comprar é um Prazer — e uma Questão de Confiança

Mesmo que as plataformas liberassem acesso total, o comércio agêntico enfrentaria um desafio maior: os consumidores não querem delegar a maioria das compras. Quem confiaria em um agente para escolher roupas, itens de decoração, presentes ou livros? Nessas categorias, o processo de seleção é parte essencial do valor.

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A hesitação entre opções não é um problema. É parte da experiência. Para muitas pessoas, comprar é uma expressão de identidade. O scroll infinito da Amazon não é um defeito; é uma funcionalidade intencional.

Além do prazer, há questões de privacidade e confiança. Consumidores resistem a agentes autônomos por medo de erros — como compras erradas ou recomendações inadequadas, como visto em casos recentes onde IAs sugeriram produtos incompatíveis ou ignoraram preferências pessoais. Violações de dados também são uma preocupação, especialmente com o aumento de ciberataques a plataformas de IA. Isso restringe drasticamente o mercado do comércio agêntico a itens repetitivos e utilitários, como reposições básicas. Justamente as compras chatas, de baixa margem e que geram poucos dados valiosos. O nicho é pequeno e pouco lucrativo, embora ferramentas como o Rufus da Amazon já demonstram sucesso em gerar vendas adicionais em cenários controlados.

Os contra-argumentos não convencem

Os defensores do comércio agêntico apresentam dois argumentos principais. O primeiro: “Amazon e Shopify estão perdendo vendas incrementais”. É verdade, mas irrelevante. O ganho marginal em volume não compensa a perda bilionária em inteligência de mercado. É como trocar ouro por migalhas. O mesmo erro de promoções agressivas que inflacionam o faturamento, mas destroem margens e valor de marca.

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O segundo: “Os consumidores vão adotar agentes independentes em massa”. Isso ignora a história da internet. A web aberta evoluiu para jardins murados, como Facebook, Google e Amazon. Controlar toda a jornada do usuário sempre gera mais valor do que ser apenas um elo em uma cadeia fragmentada.

Além disso, a Amazon já desenvolve seus próprios agentes, como o Rufus e o “Buy For Me”. Se o agente é o futuro, ela o constrói internamente, dentro do seu ecossistema fechado, com acesso exclusivo aos dados que fazem a diferença.

Alguns sugerem que marcas anunciem diretamente para agentes. Mas esse modelo tem falhas fundamentais: se o agente recebe pagamento por anúncios, perde a neutralidade; se opera com orçamento fixo do usuário, prioriza apenas descontos, criando comportamentos artificiais. Não há estrutura de incentivos sustentável.

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Para um agente independente competir, não basta uma busca melhor que a da Amazon. Ele precisa construir uma infraestrutura de varejo completa: logística, catálogo, fornecedores, pagamentos e atendimento. Em resumo, precisa se tornar uma Amazon. E replicar anos de dados comportamentais que dinheiro nenhum compra. Exemplos recentes, como falhas de IAs em compras automatizadas (por exemplo, agentes que ignoram alergias ou preferências éticas), destacam os riscos e reforçam por que a adoção é lenta.

Consolidação, não revolução

O comércio agêntico vai se tornar realidade, mas não necessariamente como um empreendimento independente. A chance de um agente externo capturar fatia relevante de mercado nos próximos cinco anos é baixa, embora não impossível — sinais como parcerias com ferramentas como Stripe e protocolos abertos sugerem uma evolução gradual. Isso vai contra os incentivos atuais das maiores plataformas de varejo, mas pressões externas poderiam acelerar mudanças.

O que veremos é consolidação: as mesmas empresas que dominam o e-commerce vão liderar o comércio agêntico. A Amazon já tem o Rufus e o “Buy For Me”; o Shopify seguirá o exemplo. Todos operando em ecossistemas fechados, sob regras proprietárias e com dados exclusivos.

No fim, o comércio agêntico não desintermediará ninguém. Pelo contrário: aprofundará a intermediação atual. Você delegará escolhas a algoritmos que seguem as regras da plataforma. É a mesma história de sempre, repaginada com IA generativa e vendida como disrupção.

Bem-vindo ao futuro. Ele se parece suspeitosamente com o presente, só que ainda mais fechado.

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Rodrigo Fernandes

Rodrigo Fernandes é fundador da Comunidade Métricas Digitais, espaço de referência em métricas e finanças para negócios da Nova Economia. Com longa experiência no mercado digital, integra finanças, estratégia e governança para apoiar empresas em escala e eficiência. Além disso, é Professor na Fundação Dom Cabral, mentor no G4 Educação, advisor na Pingback e Templo Educação e Senior Partner na VPx Company.