O treino invisível da alta performance

O talento chama atenção. Mas é o treino invisível — repetido incansavelmente quando não há plateia — que sustenta uma carreira longa, consistente e respeitada

Rodolfo Bastos

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Publicidade

Alta performance não nasce no palco, nem no ranking. Ela é construída no silêncio, na rotina e na consistência que quase ninguém vê.

Sempre admirei profundamente atletas de alta performance. Não importa se no esporte coletivo ou individual. O que todos eles têm em comum é algo que quase ninguém vê: uma disciplina quase obsessiva, uma dedicação silenciosa e uma rotina que exige escolhas duras todos os dias.

O talento chama atenção. Mas é o treino invisível — repetido incansavelmente quando não há plateia — que sustenta uma carreira longa, consistente e respeitada.

Continua depois da publicidade

Essa admiração sempre me acompanhou. Mas, recentemente, ela ganhou uma cena muito concreta.

Meu filho joga campeonatos de futebol. Em um desses jogos, o time dele enfrentou o time do filho de um dos maiores atletas da história: Messi.

Naquele dia, Messi estava ali. À beira do campo. Presente. Atento. Acompanhando cada jogada.

Continua depois da publicidade

Meu filho teve a oportunidade de estar a menos de um metro do seu maior ídolo.

E algo curioso aconteceu.

A postura mudou. A concentração aumentou. O foco ficou absoluto.

Continua depois da publicidade

Quem não quer jogar melhor quando sabe que está sendo observado por uma referência? Quando percebe que aquele momento pode marcar sua memória para sempre?

Enquanto eu observava aquela cena, pensei no que realmente constrói alguém fora de série — no esporte, nos negócios ou na vida.

Não são os aplausos. Não são os holofotes. É o que se faz quando ninguém está olhando.

Continua depois da publicidade

E, como quase tudo na minha vida, isso me levou de volta à minha profissão.

(Arquivo Pessoal/ Rodolfo Bastos)

O assessor como atleta de alta performance

Um assessor de alta performance é, antes de tudo, um atleta.

Pode ter acesso à melhor estrutura, à melhor plataforma, ao melhor time de suporte.

Continua depois da publicidade

Mas, no final, o resultado depende essencialmente dele próprio.

Da sua determinação diária. Do seu foco em meio ao ruído constante do mercado. Da sua disciplina para seguir o plano mesmo quando o emocional pede atalhos.

Assim como no esporte, ninguém ganha medalha apenas com talento. Ganha quem respeita o processo. Quem treina quando ninguém está olhando. Quem entende que consistência vence intensidade no longo prazo.

O que ninguém vê, mas tudo explica

Todos desejam os troféus. Poucos se interessam pelo campo de treinamento.

No mercado financeiro, acontece exatamente o mesmo. Muitos admiram a carteira robusta, a agenda cheia, o reconhecimento público. Poucos enxergam — ou valorizam — o caminho até ali.

O verdadeiro treino invisível de um assessor não está no produto que ele recomenda. Está na forma como constrói relacionamentos ao longo do tempo.

Está na escuta genuína, na capacidade de compreender não apenas números, mas histórias, planos, medos, sonhos e responsabilidades familiares.

Está na disciplina de servir antes de vender. Na clareza antes da meta. No respeito ao patrimônio como extensão da vida do cliente.

Isso raramente aparece no extrato mensal. Mas aparece, de forma inequívoca, na confiança construída ao longo dos anos.

Foco, disciplina e clareza de sonho

Disciplina não nasce da força de vontade. Ela nasce da clareza.

Ninguém sustenta foco por muito tempo sem saber exatamente onde quer chegar.

Todo assessor que busca alta performance precisa, em algum momento, responder com honestidade a quatro perguntas fundamentais:

Qual é o meu sonho e minha meta, com absoluta clareza?
Em quanto tempo quero chegar lá?
Qual rotina diária sustenta esse objetivo?
O que estou disposto a abrir mão para manter o foco?

Sem essas respostas, não existe disciplina sustentável. Existe apenas esforço desorganizado, que consome energia sem construir direção.

Equilíbrio não é perfeição. É consciência

Existe um mito perigoso no mercado: o de que alta performance exige desequilíbrio permanente.

Não exige.

Em alguns momentos, a carreira vai pedir mais tempo, energia e presença. Em outros, a família, a saúde física e emocional, o silêncio e o descanso precisam ocupar o centro.

O erro não está em desequilibrar temporariamente. O erro está em não perceber — e não voltar.

Burnout raramente nasce do trabalho intenso. Ele nasce da falta de propósito, de rotina consciente e de clareza sobre prioridades.

Atletas de elite treinam com intensidade, mas também descansam com método. Profissionais de elite deveriam aprender o mesmo.

A performance que realmente importa

Pouca gente vê a construção silenciosa do relacionamento. Mas o resultado sempre aparece.

Não como explosão. Mas como consistência.

Porque alta performance não nasce no palco. Ela nasce no silêncio.

Não nasce no ranking. Nasce na rotina.

E aparece quando o cliente confia.

Assim como um atleta pode se tornar uma referência para uma geração inteira, um assessor também pode.

Mas não pelo produto que vende. E sim pela forma como constrói sua carreira, seus relacionamentos e sua reputação.

Esse é o jogo que poucos querem jogar. E exatamente por isso, ele separa os bons dos realmente fora de série.

Autor avatar
Rodolfo Bastos

Rodolfo Ceppas Bastos é economista e fundador da Oyster Academy, que nasceu para ressignificar a profissão de assessor de patrimônio por meio da capacitação de alta performance. Com mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro, atuou no Brasil e nos Estados Unidos, liderando operações que superaram US$ 10 bilhões sob gestão. Mais do que números, acredita que o verdadeiro diferencial de um assessor está nas relações que constrói. Autor do livro ‘Além da Rentabilidade’, dedica-se a inspirar assessores e consultores a servir com propósito e construir relações de longo prazo.