A mala extraviada e o fim da vitimização

Antes de culpar o mundo, talvez seja hora de perguntar: o que essa situação está tentando me ensinar?

Rodolfo Bastos

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Pousei em Guarulhos tarde da noite. Cansado. Agenda cheia no dia seguinte.

A mala não apareceu na esteira.

Minutos depois, a confirmação: extraviada.

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Já no hotel, recebi a ligação da companhia aérea. A mala havia sido localizada — mas eu precisaria buscá-la no aeroporto. Isso significava mais três ou quatro horas de carro. Menos sono. Sem treino no dia seguinte.

Entrei no táxi contrariado.  No meio do caminho, o motorista disse algo inesperado:

— Obrigado, Deus, por essa corrida.

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Perguntei o motivo. Ele precisava de R$ 500 para pagar a escola da filha no dia seguinte. Eram 22h. Ele não sabia como conseguiria aquele valor em tão pouco tempo. Aquela corrida longa resolveria o problema.

Naquele instante, tudo mudou. O que para mim era incômodo, para ele era solução. O que eu via como prejuízo, para ele era milagre.

Nem sempre se trata apenas de nós. Às vezes, somos instrumentos na história de alguém.

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O conforto perigoso da vitimização

Vivemos em uma cultura que estimula a terceirização da culpa.

O chefe não me reconhece. O cliente não entende. O mercado não ajuda.

É confortável assumir o papel de vítima. Ele nos poupa da responsabilidade — mas também bloqueia nossa evolução. 

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A pergunta errada é: “Por que isso está acontecendo comigo?”

A pergunta certa é: “Para que isso está acontecendo?”

Essa mudança de perspectiva altera a forma como enxergamos obstáculos.

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Quando deixamos de nos vitimizar, começamos a observar o entorno. Entendemos o contexto, as pressões invisíveis, as circunstâncias que não aparecem na superfície. Crescemos.

Postura é escolha

No mundo da assessoria financeira, essa diferença é determinante.

O profissional que culpa o mercado por um mês ruim dificilmente constrói relações de longo prazo.

O que culpa o cliente por decisões emocionais não gera confiança.

O que culpa metas agressivas não amadurece.

Postura não depende da circunstância. Depende de princípios.

É fácil ser ético quando tudo está favorável. Difícil é manter coerência quando a meta aperta, quando o bônus depende, quando a solução rápida “resolve o mês”.

Mas é justamente nesses momentos que a reputação é construída.

Existe um exercício simples: imagine que sua decisão de hoje estará na capa do jornal amanhã — e que seus filhos irão ler. Você faria o mesmo?

Valores não são negociáveis no longo prazo.

Entender o arredor para evoluir

O episódio de Guarulhos me ensinou mais sobre perspectiva do que sobre paciência.

Talvez aquele atraso tivesse um propósito maior do que o meu desconforto imediato. Talvez eu estivesse olhando apenas para a minha agenda, sem perceber que fazia parte de algo maior.

No ambiente profissional, isso significa compreender que cada obstáculo carrega aprendizado.

Um cliente difícil pode estar atravessando um momento delicado.

Um líder exigente pode estar sob pressão invisível.

Uma equipe desalinhada pode refletir falhas de comunicação — não má intenção.

Olhar apenas para o próprio desconforto limita.

Olhar o contexto amplia.

O cliente como fim, não como meio

Quando metas pessoais ultrapassam princípios, o cliente vira meio.  Quando valores vêm primeiro, o cliente volta a ser fim.

Fazer o melhor — e o correto — mesmo quando ninguém está olhando é o verdadeiro diferencial competitivo.

Rentabilidade oscila.  Mercados sobem e caem. Cenários mudam.

Caráter é cumulativo. 

No longo prazo, não prospera quem promete mais, mas quem mantém coerência entre discurso e prática.

A mala nunca foi sobre a mala

Naquela noite, eu poderia ter voltado irritado, reforçando a narrativa de que o mundo conspirava contra mim.

Em vez disso, refleti, aprendi, agradeci e evoluí como pessoa.

Entendi que, às vezes, a vida nos tira do roteiro para nos lembrar que não somos o centro da história — somos parte dela.

No trabalho, na família, com a equipe ou com clientes, a lógica é a mesma:

Talvez o obstáculo não seja um problema.

Talvez seja um convite.

E talvez a verdadeira evolução comece quando deixamos de perguntar “por que comigo?” e passamos a perguntar: “para que isso me foi dado?”.

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Rodolfo Bastos

Rodolfo Ceppas Bastos é economista e fundador da Oyster Academy, que nasceu para ressignificar a profissão de assessor de patrimônio por meio da capacitação de alta performance. Com mais de 25 anos de experiência no mercado financeiro, atuou no Brasil e nos Estados Unidos, liderando operações que superaram US$ 10 bilhões sob gestão. Mais do que números, acredita que o verdadeiro diferencial de um assessor está nas relações que constrói. Autor do livro ‘Além da Rentabilidade’, dedica-se a inspirar assessores e consultores a servir com propósito e construir relações de longo prazo.