Sua memória está pior? Não, ela só desistiu de competir com o celular

Não é perda de inteligência — é o cérebro se adaptando a um mundo que não exige mais pensar

Renato Dolci

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Imagem produzida pelo ChatGPT
Imagem produzida pelo ChatGPT

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Se a humanidade estivesse “ficando mais burra”, provavelmente não notaríamos. Mas notamos — e transformamos o assunto em trending topic. Nos últimos dias, manchetes viralizaram afirmando que estamos ficando “mais burros”, após a divulgação de resultados do PISA 2022: os estudantes da OCDE registraram a maior queda já vista: 15 pontos em matemática e 10 em leitura em relação a 2018, o equivalente a quase um ano letivo perdido.

Só que reduzir o problema a “burrice digital” é confortável demais. A questão é mais profunda e, mais incômoda. Um estudo revisando 26 pesquisas sobre distração digital mostrou que 51,95% dos fatores que interrompem o foco são causados por tecnologias, e em 66,67% dos casos isso se traduz em impacto direto na performance. Ou seja: não é falta de capacidade, é foco sequestrado.

E não se trata apenas de jovens “viciados em tela” ou mais, da glamourização do “foco”. A sobrecarga cognitiva é transversal. Pesquisas mostram que 89% das interações com smartphones ocorrem de forma espontânea, sem necessidade real, um loop de alívio imediato que condiciona o cérebro a evitar esforço mental. Esse padrão reorganiza o que o cérebro considera “trabalho cognitivo tolerável”: se exige mais que alguns segundos de fricção, pulamos.

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No campo da atenção, os dados são ainda mais diretos. Crianças apresentam hoje um “A-Span” médio (tempo de foco ininterrupto) de 29,61 segundos; jovens adultos, 76,24 segundos; adultos mais velhos, 67,01 segundos, números preocupantes quando comparados à complexidade de estímulos diários. E o problema não é só manter atenção, é como usamos ela. O cérebro moderno deixou de sustentar atenção profunda e passou a operar em micro-rajadas cognitivas.

Some a isso o fenômeno do cognitive offloading: quando sabemos que algo está nos arquivos, na nuvem ou no Google, lembramos menos da informação e mais de “onde buscar” depois. Já notou o quanto você não se preocupa mais com os caminhos das ruas porque o Waze já faz isso por você? Isso otimiza a vida, mas reduz retenção, memória de trabalho e elaboração. A inteligência não desaparece; ela terceiriza para sobreviver num ambiente saturado.

Mas talvez o dado mais incômodo seja este: em situações de uso intensivo de múltiplas mídias ao mesmo tempo, o media multitasking diário de quem alterna entre vídeo, chat, feed e áudio, há correlação significativa com pior atenção sustentada e pior memória episódica (r ≈ 0,20–0,21). A conta não fecha: nunca tivemos tanto acesso ao conhecimento, e nunca processamos tão pouco. Aliás, atualmente, quanto mais informação, menos processamento mental. O ecossistema recompensa estímulo rápido e penaliza profundidade.

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O problema real, portanto, não é “ficar mais burro” — é a economia do esforço mental misturada com estafa. Em um ambiente onde tudo é otimizado para fricção zero, o cérebro ajusta seu padrão: qualquer coisa que exija leitura longa, reflexão, silêncio, tédio produtivo ou desconforto cognitivo parece “pesada demais”. E a mente treinada para não se esforçar perde musculatura, exatamente como um corpo que não treina.

A tentação é culpar o TikTok. Mas ele é só o sintoma mais visível de um modelo mental que adotamos: desistimos de treinar o cérebro para a profundidade. A forma como o mundo digital se organiza é totalmente voltada para a agilidade: a IA, por exemplo, erra rude. Mas é rápida no gatilho.  A orientação da internet é para a rapidez. E, aqui, dados importam: queda de aprendizado global, distração digital comprovada, atenção fragmentada, memória terceirizada, multitarefa drenando performance — tudo aponta para o mesmo vetor.

Se existe uma queda cognitiva em curso, a solução não está em demonizar plataformas, mas em reabilitar o esforço mental como hábito. Como qualquer músculo, a mente também atrofia por desuso. E, diferente do que a internet sugere, o problema não está na tela — está no quanto deixamos que ela pense no nosso lugar.

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.