Roteiristas estão adaptando as séries para ficarem mais burras. E a culpa é sua.

A reação foi de indignação, como se a indústria tivesse decidido "emburrecer" o conteúdo. Mas a verdade é mais desconfortável

Renato Dolci

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Uma afirmação incômoda viralizou nos últimos dias: roteiristas da Netflix estariam sendo orientados a criar roteiros mais expositivos e menos sutis, onde as personagens enunciem claramente o que estão fazendo ou o que vão fazer.

A reação foi de indignação, como se a indústria tivesse decidido “emburrecer” o conteúdo. Mas a verdade é mais desconfortável. Roteiros não ficam burros por acaso. Eles ficam burros porque você — sim, você — está assistindo com o celular na mão. Um estudo do Facebook IQ revelou que 95% dos consumidores mantêm um dispositivo móvel em mãos enquanto assistem TV, e durante o programa, focam na tela apenas 53% do tempo.

A psicóloga Gloria Mark, em uma pesquisa de 2023, complementa esse quadro: nosso tempo médio de atenção em uma única tela despencou de 2,5 minutos em 2004 para apenas 47 segundos hoje. A mudança no roteiro não é sobre preguiça criativa; é design para uma audiência que não consegue mais ficar presente ou captar profundidades do roteiro. É adaptação à realidade que você, usuário, criou.

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Esse comportamento não é uma exceção, mas a nova norma de consumo. Uma pesquisa da Ipsos de 2025 mostrou que 64% dos brasileiros navegam pelo celular enquanto assistem TV ou streaming. O pressuposto de um espectador dedicado, imerso na narrativa, tornou-se uma relíquia. O celular não é mais uma segunda tela; em muitos casos, ele é a primeira, e a TV tornou-se um pano de fundo para o scroll infinito nas redes sociais.

É tentador culpar as notificações, mas os dados mostram que o impulso é nosso. Um estudo da Deloitte revelou que 89% das interações com o celular são iniciadas pelo próprio usuário, sem qualquer alerta externo. Desbloqueamos o aparelho, em média, 152 vezes por dia, um reflexo condicionado em busca de um estímulo rápido. Não é o celular que nos chama; somos nós que corremos para ele a cada microssegundo de tédio.

Nesse cenário de atenção fragmentada, a narrativa precisa lutar para sobreviver. A estratégia da Netflix de usar diálogos que “anunciam o que está acontecendo” é um reconhecimento explícito de que a audiência não está mais presente.

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A consequência é uma perda de sutileza e ambiguidade, mas para a plataforma, é uma adaptação necessária. Afinal, um estudo do Journal of Experimental Psychology mostrou que a multitarefa entre atividades complexas pode reduzir a produtividade e a compreensão em até 40% [6]. A narrativa, portanto, é simplificada para ser compreendida em meio ao ruído.

O que estamos perdendo nesse processo vai além da complexidade dos roteiros. Estamos treinando nosso cérebro para a superficialidade. O brasileiro médio já passa 5,4 horas por dia no celular, segundo dados da data.ai.

Esse uso constante e fragmentado nos torna menos tolerantes ao silêncio, à espera e ao pensamento profundo. O problema não é a Netflix se adaptando ao nosso comportamento; é o que esse comportamento está fazendo conosco.

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O incômodo causado por essa discussão é compreensível. É mais fácil acusar a indústria de empobrecer a cultura do que admitir uma verdade mais incômoda: você é parte dessa equação. Você reclama dos roteiros simplificados enquanto desbloqueia o celular 152 vezes por dia.

Você critica a Netflix por adaptar narrativas à distração, mas é você quem assiste com o telefone na mão. Você exige complexidade, mas não oferece atenção.

A indústria não criou esse padrão; ela apenas reconheceu que você já estava aqui. O roteiro não está ficando pior. Você é que está oferecendo menos de si mesmo. E a Netflix, como qualquer negócio, se adapta ao que você realmente faz — não ao que você diz que quer fazer.

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.