O poder de um print

Escândalos que antes ficavam trancados em pastas hoje explodem em grupos, DMs e deepfakes, e ninguém está imune

Renato Dolci

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Talvez o último segredo humano seja a senha do celular. Não porque ela guarda suas fotos ou mensagens, mas porque até o que parece privado já não é. Tudo que está na nuvem, conversas, e-mails, fotos, existe em algum servidor, pronto para ser acessado, copiado ou vazado. Esses dados não estão protegidos: estão apenas escondidos, a um print de se tornarem públicos.

Escândalos já não precisam de dossiês secretos ou grampos sofisticados. Hoje, basta um print. Uma DM derruba ministros, abre CPIs e movimenta bilhões no mercado. A “Vaza Jato”, com mensagens do Telegram entre juízes e procuradores, mudou a política brasileira. Na CPI da Americanas, prints de e-mails internos revelaram mais do que qualquer balanço contábil. Em 2023, conversas privadas entre políticos britânicos sobre a pandemia foram publicadas pelo The Telegraph, derrubando ministros e mudando a percepção sobre a gestão da crise.

Na cultura pop, o vazamento se tornou combustível para tabloides e redes sociais. O caso Taylor Swift, em 2024, com deepfakes pornográficos espalhados online, forçou plataformas como X e Reddit a reverem suas regras. A briga pública entre Kim Kardashian e Taylor começou com áudios vazados de Kanye West, transformando uma conversa privada em espetáculo global. No Brasil, a Lei Carolina Dieckmann nasceu depois que fotos íntimas da atriz foram expostas em 2012, marco que mostrou como a vida privada pode ser devorada pelo público em segundos.

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Mas, se antes a ameaça era vazar algo verdadeiro, hoje o risco é fabricar algo falso. Em 2024, o número de deepfakes detectados no mundo dobrou, passando de 500 mil vídeos falsos, e 70% eram pornografia não consentida.

O caso mais emblemático foi um vídeo falso do presidente ucraniano Zelensky anunciando rendição à Rússia — que circulou por horas antes de ser desmentido.

Com IA, a fronteira entre verdade e mentira desaparece: um vazamento pode ser real demais para ser falso, ou falso demais para ser desmentido.

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E não são só governos ou celebridades: nós também somos parte desse jogo. O WhatsApp tem mais de 150 milhões de usuários ativos no Brasil (DataReportal, 2025). Cada grupo funciona como uma mini-redação de tabloide: prints, áudios e vídeos circulam em segundos, prontos para viralizar no X, no TikTok ou virar pauta de CPI.

Compartilhar prints virou reflexo: se você já mandou uma conversa privada para alguém, você também já foi um agente desse ecossistema.

Na era dos vazamentos, não existem mais bastidores seguros. A fronteira final da intimidade são quatro dígitos: a senha do celular. Quando ela cai, não sobra segredo.

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E, quando tudo pode vazar, o verdadeiro poder não está em esconder — mas em escolher quando apertar “enviar”.

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.