O Brasil discute segurança como quem discute time

A convergência entre pesquisas digitais e institutos tradicionais mostra que o apoio à operação foi real. O que falhou foi o debate

Renato Dolci

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

Imagem gerada pelo ChatGPT/Renato Dolci
Imagem gerada pelo ChatGPT/Renato Dolci

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Quando publiquei a pesquisa digital sobre a percepção da megaoperação no RJ, indicando que 62% das menções nas redes apoiavam o ocorrido, contra 32% de comentários críticos, a reação inicial foi menos sobre os dados e mais sobre as ideologias de quem os estava lendo. Houve quem dissesse que a metodologia era inválida, que o ambiente das redes distorcia a realidade, que os robôs dominaram o debate, que aquilo não refletia “o país real”. Do outro lado, um outro espectro me acusou de manipular os resultados para baixo, que “na sua rede”, o apoio era maior do que 90%, e por aí vai. O argumento, no fundo, era simples: como na minha bolha ninguém pensa assim, então ninguém pensa assim. A crítica não era técnica; era defensiva. Era o desconforto de ver o mundo medido de um jeito que contraria a experiência subjetiva do próprio grupo.

Só que, dias depois, começaram a sair outros levantamentos, desta vez de institutos tradicionais. A Paraná Pesquisas registrou percentuais próximos, com 68% de apoio no país. A Arrow mostrou que quase 70% da população carioca apoiou as operações ofensivas contra facções, mesmo quando há risco elevado de letalidade. E a Atlas Intel, um dos institutos que mais tem acertado resultados eleitorais no Brasil e no mundo, mostra a mesma tendência: apoio de 55% da população do país, 62% da capital fluminense e 87% de apoio nas favelas do Rio. Em outras palavras: os dados digitais não estavam “superestimando a radicalização”. Estavam simplesmente captando o que já estava acontecendo, talvez mais rápido do que as lentes tradicionais estavam acostumadas a ver.

Mas a reação não mudou. Porque não era sobre método. Era sobre convicção. Sobre a necessidade psicológica de que a realidade confirme aquilo que eu já acredito. No Brasil, discutir dados virou, antes de tudo, defender a própria coerência ideológica.

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Isso ficou ainda mais claro com a operação no Rio de Janeiro. De um lado, parte significativa da direita tratou a ação como um espetáculo, quase um placar esportivo. Morte virou sinal de vitória moral, como se política de segurança fosse um ato de purificação moral. Essa estética da morte como prova de caráter foi importada para cá de fora sem qualquer reflexão institucional. O Estado, nesse registro, não é uma estrutura pública; ele vira o braço armado da minha raiva.

Do outro lado, parte da esquerda reagiu negando o apoio da população, principalmente das favelas, e qualquer legitimidade à operação, como se admitir que há territórios dominados por facções, com capacidade militar real, fosse equiparável a apoiar violência institucional. A narrativa permanece estável mesmo quando os dados mostram outra coisa. A Atlas, por exemplo, registra aumento significativo da percepção de insegurança entre eleitores progressistas, especialmente em capitais. Mas a retórica pública não se move: segue na chave de que todo endurecimento é autoritarismo. É uma forma diferente de negação, mas igualmente baseada em convicção prévia sem validação estatística.

No meio disso tudo, o ponto central desaparece: morreram pessoas em todos os lados, incluindo as vítimas cotidianas do crime organizado, que precisam entrar nessa conta. E nenhuma morte deveria ser comemorada. Não porque “todos são inocentes”, mas porque o Estado não existe para celebrar a eliminação de ninguém. Morte violenta é tragédia, sempre. Ao mesmo tempo, negar que o crime organizado no Rio opera com grau elevado de controle territorial, capacidade de coerção e infiltração institucional também não ajuda ninguém. A operação não é boa ou ruim por definição; ela precisa ser analisada com dados, contexto, capacidade de redução de violência futura, não com slogans.

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O que se viu foi o oposto disso. Foi torcida. Foi gente defendendo o que já pensa, independentemente do que aconteceu. Foi gente recusando qualquer informação que produzisse desconforto. Foi gente comemorando um evento que deveria, no mínimo, causar silêncio e reflexão.

A sequência diz menos sobre segurança pública e mais sobre o modo como o Brasil debate. As pessoas não estão discutindo políticas ou evidências, estão defendendo seus planos morais. E quando a política vira uma extensão da moralidade reativa, o dado deixa de ser ferramenta e vira ameaça de desconforto.

No fim, o que a convergência entre a pesquisa digital e os levantamentos tradicionais mostra é simples: a percepção de insegurança é massiva, transversal e crescente. As pessoas querem respostas. O debate público, porém, continua preso na necessidade de confirmar certezas anteriores. O problema é que convicção não reduz homicídio. E torcida não formula política pública.

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O trabalho sério começa quando alguém está disposto a olhar para a realidade antes de decidir o que pensa sobre ela. Repito: nós, brasileiros, desconhecemos o Brasil, seja pela realidade empírica, seja pela realidade acadêmica. O país ainda não chegou lá, mas os dados estão dizendo que talvez não tenhamos mais tanto tempo para continuar fingindo que isso é apenas uma disputa de narrativa.

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.