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Durante décadas, bastava olhar nos olhos do gerente, ou reconhecer a voz no telefone, para acreditar que aquela era a narrativa correta sobre o seu dinheiro. A confiança decorria da relação contínua, reforçada por tarifas “embutidas” que o cliente só descobria muito depois. Essa hegemonia começou a rachar quando a primeira onda digital empoderou os investidores brasileiros a trocar a mesa do banco pelas telas do computador.
A vitrine mais visível dessa ruptura foi a XP: ao conectar mais de 18 mil agentes autônomos de investimentos e acumular R$ 1,3 trilhão em ativos sob custódia até o 1º tri/25, a plataforma transformou o assessor independente em contrapeso da promessa bancária de “melhor rentabilidade”. Esses profissionais — muitos ex-bancários — passaram a traduzir a prateleira de produtos para o investidor comum exatamente quando a poupança deixava de ser suficiente.
Enquanto os bancos ainda explicavam o CDI, e os finfluencers, isto é, influenciadores financeiros, no YouTube e Instagram, já pautavam a conversa sobre cripto, BDRs e Tesouro. Um estudo da B3 citado pela CVM mostra que 75% dos brasileiros deram o primeiro passo no mercado levando em conta conteúdos de influenciadores. Nos EUA, a FINRA identificou que 37% da Geração Z usa diretamente “influencers” como fonte regular de aprendizado financeiro.
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Agora, uma terceira voz entra na conversa: a inteligência artificial. Segundo o Retail Investor Survey 2025 da Betterment, 53% dos investidores já utilizam IA generativa ao menos uma vez por mês para investigar ativos, embora só 30% confiem nela para tomar a decisão final. O motivo aparece em outro levantamento: 65% preferem manter um humano no volante das finanças, mesmo que a máquina prometa retornos maiores. A combinação mais desejada passa a ser “IA para o rascunho, gente para o ok-final”. Em outras palavras, o algoritmo virou curador de carteiras. No Brasil, a pergunta mais realizada no tema “assessor de investimentos” no ChatGPT é: “meu assessor está certo”? A plataforma ganhou status de “isenta” por parte dos investidores.
Essa tríade — bancos, influenciadores/assessores e IA — pode cooperar de forma virtuosa. A IA resume relatórios de 40 páginas em três linhas; o influencer traduz o jargão para o sotaque do público; o assessor valida estratégia, risco e alocação antes da ordem de compra. Todos ganham se a cadeia de transparência estiver clara e assinada embaixo.
O problema é que a mesma IA capaz de otimizar patrimônio também falsifica rostos em alta definição. Os ataques de deepfake a empresas cresceram 1.740% entre 2022 e 2023, com perdas que já superam US$ 200 milhões apenas no 1º tri/25. Se um investidor já tem dificuldade para diferenciar análise honesta de “publi”, imagine checar se o advisor no vídeo ao vivo é real ou pixel. Agora, imagine se for um influencer de AI, vítima de um deepfake. Quem reconhece?
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Outro recorte mostra que 41% dos millennials e Gen Z topariam entregar a carteira inteira para um bot, quase o triplo da proporção entre boomers. A escalada já pressiona reguladores: a UE colocou robo-advisors e scoring algorítmico na categoria “alto risco” do AI Act, em vigor desde 1.º de agosto de 2024, com multas de até 7% do faturamento global; no Brasil, o PL 2338/2023 aprovado no Senado em 10 de dezembro de 2024 cria um sistema de classificação semelhante e segue em análise na Câmara.
Não faltam estudos e reguladores tentando preencher esse vácuo. A CVM colocou em audiência pública uma proposta de autorregulação que exige que finfluencers revelem vínculos pagos com instituições supervisionadas. Lá fora, a IOSCO publicou em maio/25 um conjunto de boas práticas que recomendam, entre outras medidas, disclaimers padronizados e vigilância de conflitos de interesse em tempo real. As próprias plataformas correm para fechar o cerco: o YouTube atualizou em 15 de julho de 2025 suas regras de monetização para punir conteúdo “inautêntico” gerado por IA, enquanto o TikTok passou a obrigar que branded content financeiro seja rotulado e arquivado em biblioteca pública desde 1º de julho.
O fio que costura todas essas camadas continua sendo a mesma mercadoria escassa de sempre: confiança. Bancos tradicionais ainda a detêm na memória afetiva do cliente; influenciadores e assessores conquistaram-na pela linguagem e agilidade; a IA precisa merecê-la com transparência algorítmica. Atualmente, plataformas como ChatGPT gozam de percepção de isenção por parte da maioria dos usuários, porém isentas, não são. Quem conseguir orquestrar essas vozes, entregando velocidade de máquina, clareza de feed e responsabilidade fiduciária, provavelmente ditará a próxima narrativa do mundo de investimentos.