As cinzas que sobraram do “Vai, Brasa”

Do brainstorm criativo ao tribunal das redes: como um slogan na gola da camisa expôs ruídos de comunicação, desconexão cultural e a polarização do debate público no Brasil

Renato Dolci

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Camiseta oficial da seleção brasileira 2026. Créditos: Reprodução Nike
Camiseta oficial da seleção brasileira 2026. Créditos: Reprodução Nike

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Quando a Nike lançou as novas camisas da seleção brasileira com o bordão “Vai, Brasa” na gola, provavelmente ninguém na empresa esperava que um simples slogan viraria trending topic nacional em poucas horas. Mas virou. E não da forma que a marca gostaria. Nas redes sociais, a reação foi quase unânime: segundo análise de menções em plataformas como Instagram, Threads e TikTok, 75% dos usuários reagiram negativamente ao lançamento.

A polêmica começou simples. Um apelido criado por uma agência criativa, provavelmente em brainstormings sobre “como falar com os jovens”. Mas rapidamente transformou-se em arena de disputa. Conservadores viram “wokismo” e desconstrução da identidade nacional, apontando a localização da Nike no Oregon (região com predominância de pensamento progressista americano) como prova de uma agenda oculta.

Progressistas criticaram a falta de criatividade e desconexão com a realidade brasileira, apontando que a marca não consultou criadores locais. Torcedores comuns simplesmente acharam feio e forçado, com comentários diretos: “ficou uma porcaria”, “horrorosa”, “ficou feia pra caramba”. O que era uma decisão de marketing virou um espelho de polarizações muito maiores, onde cada grupo encontrou no “Brasa” exatamente o que queria criticar.

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Olhando os comentários nas redes, é possível ver como o “Brasa” funcionou como catalisador para frustrações que já existiam nos torcedores em relação à própria seleção. Segundo análise temática realizada pela Timelens, a rejeição à camisa e falta de representatividade liderou as menções com 38,3%.

A politização e discurso ideológico chegou a 18,9%, seguida por memes e humor (12,8%), debate sobre design e elementos visuais (11,7%), preço e comercialização (7,2%), e teorias conspiratórias sobre satanismo e simbolismo oculto (6,1%). A crítica mais comum era sobre desconexão cultural: “o time de desenvolvimento não frequenta estádios, não respira futebol”. Outros criticavam a cor “amarelo canário” em vez do amarelo tradicional.

Havia menções ao logo da Jordan estampado no peito como símbolo de subordinação de um símbolo nacional a uma submarca global. Reclamações sobre o preço (500 reais por uma camisa, com margem estimada de 300% para a Nike) se misturavam com as teorias conspiratórias. Um comentário resumiu bem: “a Nike está desenvolvendo um produto através de uma lente técnica e fria, sem considerar a história, as memórias, a relação íntima do torcedor”. O debate definitivamente poderia ser um ponto de partida, mas estava mais para ponto de chegada.

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A CBF percebeu rápido que tinha um problema nas mãos. Em menos de uma semana, o termo foi removido das peças. O “Brasil” voltou. Mas o estrago já estava feito.

A seleção, que já enfrentava a pior campanha nas eliminatórias sul-americanas da história (com apenas 5 vitórias em 10 jogos), agora tinha mais uma coisa para carregar: a sensação de que até a própria marca que veste o time não entende o que significa ser Brasil.

A seleção brasileira não é apenas um time de futebol. É um dos poucos símbolos nacionais que ainda consegue unir o país em torno de algo. Em tempos de polarização extrema, a camisa amarela é um dos últimos refúgios de identidade coletiva, que ganha “liberdade ideológica” em época de Copa.

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A primeira partida com o novo uniforme será contra a Croácia, no dia 31 de março, em um momento em que a confiança dos torcedores está abalada. Quando você mexe nisso, mexe com algo muito mais profundo do que marketing. Mexe com a memória, com a história, com a relação emocional que cada torcedor tem com o futebol.

A Nike tentou modernizar. Tentou criar uma gíria, um apelido carinhoso. Mas o que funcionaria em um comercial de cerveja ou em uma campanha de streetwear não funciona com a seleção. A seleção não é um produto. É um símbolo. E símbolos não se reinventam por decreto corporativo. Eles existem porque as pessoas os reconhecem, porque carregam história, porque significam algo que vai além do consumo.

O detalhe mais interessante é que a Adidas, concorrente da Nike, fez exatamente o oposto.

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Recentemente lançou camisas reservas para 25 seleções trazendo de volta o seu logo clássico (o Trefoil) depois de 36 anos sem aparecer. A estratégia? Nostalgia. Referências aos anos 1990. Elementos visuais próprios de cada país. Não tentou criar apelidos. Não tentou “rejuvenescer” nada. Apenas resgatou memória. A recepção da comunidade especializada foi marcada por elogios à mistura de identidade nacional, referência histórica e desejo contemporâneo. E a recepção do público foi bem diferente.

Enquanto isso, a seleção brasileira segue carregando o peso de uma campanha desastrosa nas eliminatórias, desempenho ruim em campo, confiança abalada dos torcedores, e agora também a sensação de que a própria estrutura que a rodeia não consegue fazer as coisas certas. O “Vai, Brasa” é apenas um sintoma.

O sintoma de que há uma desconexão entre quem toma decisões (executivos em Portland, Oregon) e quem vive a realidade (torcedores nas arquibancadas, nas ruas, nas redes sociais). A marca, avaliada em mais de 140 bilhões de dólares, não conseguiu validar culturalmente uma decisão que afeta 215 milhões de brasileiros.

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.