A Selic desce, mas quem olha para o elevador?

Enquanto o mercado acompanha o comunicado do Copom, o brasileiro comum procura pelos efeitos práticos da Selic no dia a dia

Renato Dolci

Importante: os comentários e opiniões contidos neste texto são responsabilidade do autor e não necessariamente refletem a opinião do InfoMoney ou de seus controladores

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Na Faria Lima, a Selic muda de andar e todo mundo escuta o barulho do elevador. Nas casas, nos ônibus, nos grupos de família e na fila do mercado, o som talvez chegue diferente. Não como “Copom”, “comunicado” ou “taxa terminal”, mas como uma pergunta mais simples: o financiamento melhora? O cartão alivia? O dólar sobe? O imposto de renda vence quando?

Na quarta-feira, 29 de abril de 2026, às 18h34, o Banco Central comunicou que o Copom reduziu a Selic para 14,50% ao ano. O texto oficial veio no idioma esperado da autoridade monetária: cautela, incerteza externa, inflação acima da meta e riscos ainda elevados.

É o tipo de comunicado que move relatório, call, mesa, tela, manchete e opinião. A provocação é outra: move também a curiosidade do brasileiro médio nas suas buscas sobre economia?

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Não estou propondo um olhar metodológico, muito menos científico, mas curioso em termos de demanda e comparação.

A resposta, olhando os sinais digitais da semana, parece ser: um pouco, por algumas horas, e quase sempre quando a Selic vira vida prática. No Google Trends, na semana do comunicado, a busca por “selic” teve um pico claro por volta de 22h do dia 29 de abril, poucas horas depois da decisão.

Mas, quando colocada ao lado de termos do cotidiano econômico, ela apareceu com relevância bem menor. Na comparação feita para o Brasil entre “selic”, “imposto de renda”, “dólar”, “empréstimo” e “cartão de crédito”, a média semanal de interesse foi de 6,1 para “selic”, contra 55,0 para “imposto de renda”, 53,6 para “dólar” e 17,0 para “empréstimo”.

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Consulta no Google Trends, Brasil, semana do comunicadoÍndice médio da semana
Imposto de renda55,0
Dólar53,6
Empréstimo17,0
Selic6,1
Cartão de crédito5,9

Isso não quer dizer que o brasileiro não ligue para juros. Talvez queira dizer que ele raramente entra na conversa pela porta principal. Em outra análise, mais próxima do vocabulário financeiro, “juros” teve média 38,6, enquanto “selic” ficou em 17,5, “banco central” em 16,3, “taxa selic” em 6,4 e “copom” em 3,5.

O dado é pequeno, mas elegante: o país parece procurar menos a instituição e mais o efeito; menos o rito e mais a consequência.

Consulta no Google Trends, Brasil, semana do comunicadoÍndice médio da semana
Juros38,6
Selic17,5
Banco central16,3
Taxa selic6,4
Copom3,5

Há uma assimetria conhecida nisso. Para o mercado, a Selic é o chão da sala. Para boa parte do país, é o encanamento: decisivo, mas invisível até dar problema. A taxa está no rendimento da renda fixa, no custo do crédito, no financiamento do carro, na parcela da casa, no rotativo, na renegociação, no preço que chega depois. Só que ela aparece ao consumidor como sintoma, não como conceito.
 
O contraste fica mais forte quando a Selic disputa atenção com o Brasil ordinário da internet.

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Em uma comparação entre “selic”, “Mega-Sena”, “BBB”, “previsão do tempo” e “WhatsApp”, a Selic praticamente desaparece na escala: média 0,2, contra 25,6 para “WhatsApp”, 3,0 para “Mega-Sena” e 2,8 para “previsão do tempo”.

É uma comparação injusta, claro, mas jornalisticamente útil: mostra o tamanho da distância entre a pauta que organiza o preço do dinheiro e a pauta que organiza a manhã, a aposta, a conversa e o guarda-chuva.

Consulta no Google Trends, Brasil, semana do comunicadoÍndice médio da semana
WhatsApp25,6
Mega-Sena3,0
Previsão do tempo2,8
BBB1,1
Selic0,2

A Selic, portanto, não é irrelevante fora da Faria Lima. Seria uma conclusão preguiçosa. Ela é relevante demais para depender do próprio nome. O que os dados sugerem é outra coisa: a palavra “Selic” talvez seja menor que os efeitos da Selic.

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O brasileiro não necessariamente acompanha o comunicado; ele acompanha o boleto, o dólar, o empréstimo, o imposto, o financiamento, o rendimento que prometeram no banco, a parcela que não cabe mais.
 
Esse é o ponto de crônica: há assuntos que governam a vida pública sem entrar na conversa pública pelo crachá correto. A Faria Lima olha a decisão e vê curva de juros. O brasileiro médio olha a mesma decisão, quando olha, e procura por aquilo que dói, rende ou vence. A Selic baixa no comunicado; na busca, ela só sobe quando consegue vestir roupa de cotidiano.

Nota metodológica
Os dados foram coletados no Google Trends para o Brasil, com janela semanal em torno do comunicado do Copom de 29/04/2026. Os índices do Google Trends variam de 0 a 100 dentro de cada consulta e indicam interesse relativo, não volume absoluto de buscas. O próprio Google informa que os dados são amostrados, anônimos, agregados e normalizados, e que o Trends não deve ser tratado como pesquisa científica de opinião.
 

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Renato Dolci

Renato Dolci é cientista político (PUC-SP) e mestre em Economia (Sorbonne). Atua há mais de 15 anos com marketing digital, análise de dados e pesquisas públicas e privadas de comportamento digital. Já desenvolveu trabalhos em diversos ambientes públicos e privados, como Presidência da República, Ministério da Justiça, FIESP, Banco do Brasil, Mercedes, CNN Brasil, Disney entre outros. Foi sócio do BTG Pactual e atualmente, é diretor de dados na Timelens, CRO na Hike e CEO na Ineo.